Heróis e Vilãs, ou Quando Eu Era Pequeníssimo

Cheguei tarde mas apareci (sorry, Vasco).

O meu herói, o meu único herói, é o Fantasma, filho de Lee Falk, há poucos dias 74 anos, celebrados num 17 de Fevereiro.

Kit Walker, o Fantasma que conheci há mais de três décadas, era o vigésimo primeiro de uma lista de justiceiros iniciada em 1536, quando Christopher Walker, marinheiro de Portsmouth, antigo grumete da nau Santa Maria, delfim de Cristovão Colombo, foi morto por um pirata da Irmandade dos Singh numa caravela naufragada algures no Índico, ao largo da costa do reino de Bengalla. Christopher Jr, único sobrevivente do naufrágio, é salvo por uma tribo de pigmeus, os Bandar, escravizados há séculos pelos Wasaka, adoradores de Uzuki, o Deus Demónio.

Christopher encontra os restos mortais do assassino do seu pai e, levantando o crânio do facínora, jura dedicar a sua vida “à destruição da pirataria, da cobiça, da crueldade e da injustiça em todas as suas formas. Os meus filhos e os filhos deles seguir-me-ão.”

Depois de resgatar os Bandar do jugo dos Wasaka, Christopher inspira-se nos símbolos de Uzuki para criar um vingador mascarado, defensor de fracos e oprimidos, eterno habitante de uma gruta em forma de caveira, de rosto desconhecido e, por isso, mais temível, com fato púrpura a surgir das profundezas da selva para petrificar os adversários, cujo rosto marca para sempre através do anel, representando o crânio da morte, que usa na mão direita, um anel feito dos pregos que fixaram Jesus na cruz, outrora propriedade de Nero, o imperador pirómano.

Sem recurso a poderes mágicos, poções divinas, insondáveis super-forças ou destinos providenciais, Kit, o vigésimo primeiro “Fantasma que Caminha”, faz uso apenas dos seus talentos naturais, de um espírito inquebrantável, transmitido de pais a filhos durante quatro séculos e das ajudas de Guran, chefe dos Bandar, do lobo Devil e do cavalo Hero.

Depois de ser criado na Caverna da Caveira pela mãe, antiga dupla de Rita Hayworth, Kit continua a sua educação nos EUA, onde conhece Diana Palmer — ela tem 12 anos, eu 9, e é paixão à primeira vista.  Separam-se até aos 18 anos de ambos, quando um Natal em Clarksville os reúne para sempre (Kit é um bocado lento na formalização das intenções, já que  apenas casará com Diana em 1978 — Mandrake e alguns ministros, estranhamente impolutos, comparecem ao copo de água).

De face nunca revelada aos leitores — só os inimigos lhe conhecem o rosto, pouco antes de darem de finados -, o fantasma era tudo o que eu queria ser: forte, justo e, claro, vencedor de corações (16 homens tentaram casar com Diana, mas ela desprezou-os a todos). No traço mítico, muito Stevenson, de Ray Moore, ou na limpidez de Wilson McCoy (entretanto, já históricos como Carmine Infantino ou revelações como Dave Gibbons se enfeitiçaram pelo mascarado), o Fantasma que Caminha foi o meu fato de Carnaval na festa do centro de convívio da única avenida, finda na estação de comboios, de uma terrinha de vento fresco, encostada ao mar, chamada Valadares, onde vivi durante dois anos.

Fiquei em terceiro lugar no concurso da festa, mas nem concorrentes ou júri percebiam porque é que estava enfiado num fato púrpura e de anel de caveira no dedo (pode marcar um homem, eu sei, mas vou recuperando): ninguém sabia quem era o Fantasma. Foi em 1977.

Três anos antes, a um par de quilómetros dali, ainda junto a águas salgadas, numa terrinha ainda mais pequena chamada Lavadores, no tempo em que o meu pai regressava de Londres com o primeiro comboio eléctrico que vi na vida (acho que sempre gostei de comboios por causa desse), deitei-me no beliche de cima do quarto que partilhava com a minha irmã (ela aconchegava-se aos peluches no beliche de baixo), a minha mãe apagou a luz da cozinha, deixando apenas uma luz de presença junto à sala, e e não consegui dormir por causa desta:

A Bruxa Maléfica, circa 1959

Havia um cabide no hall, de sombras recortadas pela luz precária junto à sala. O cabide, olhos fechados, olhos abertos, era igual à Bruxa dos Cornos (sabia eu lá que outras razões nos podiam levar a todos, em namoros certos e difusos, a transportar as mesmas razões em vergonha ou ignorância…). Corrijo: o cabide não era igual à Bruxa Maléfica de “A Bela Adormecida” de Marc Davis (o animador que criará depois essa meia-irmã dickensiana da fada má, a Cruella De Vil de “os 101 Dálmatas), de Walt Disney, Perrault e, em certa medida, de Tchaikovsky e dos irmãos Grimm. Aquele cabide ERA a Bruxa Maléfica.

Com a cabeça debaixo da almofada,o Cabide ganhava as formas e as chamas da Bruxa, convocava os corvos negros, abria os braços para tudo cobrir de escuridão e aproximava-se de mim, passo a passo com os cascos de Lúcifer, os olhos amarelos a brilhar no manto preto, pronta a devorar-me braços, língua e crânio (nessa altura, ainda não tinha ouvido falar daquele senhor austríaco que gostava de histéricas e epilépticas).

A roda roda rodando

Umas horas antes, tinha-a visto no Cinema Vale Formoso — ficava junto à Constituição, na capital dos homens Bês -  a amaldiçoar o baptizado da princesa Aurora, lançando-a, feitiço abaixo, escadas acima, pela torre do Castelo sem Nome onde, 16 anos depois, Aurora irá tocar na roda que roda, picando a mão e sangrando — primeiro sangue, primeiro sexo — para adormecer o reino em trevas de séculos, à espera do beijo de amor e do amor de beijo que a redima.

 

Tirava eu a cabeça do travesseiro e o cabide lá estava, imóvel mas prestes a atacar, os ramos de uma árvore com olhos grandes para te comer, avozinha.

Tinha seis anos, e nunca senti, antes ou depois, tanto medo como no beliche da casa pequena, luz trémula, Lavadores, a norte instante do sol nascente.


Comentários a “Heróis e Vilãs, ou Quando Eu Era Pequeníssimo” (8)

  1. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Ó Pedro, já nem me lembrava. O que eu gostava do Fantasma. Nem sei se sabia assim a história toda, mas lembro-me bem da sua força: de corpo e de carácter. Era seguro. Podiamos confiar nele. Talvez a despropósito, lembrei-me agora que também gostava do Mandrake e do seu amigo Lotário, que eu vi, com a sua tanga de leopardo, dentro de água, a lutar com um tubarão e a partir-lhe a queixada com as mãos, como eu bem sabia, naquele meu canto do mundo, que era possível fazer-se.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Pedro, este seu texto fez-me relembrar medos que há muito julgava esquecidos … E a pavorosa e reluzente imagem final foi a cereja em cima do bolo … Se hoje voltarem os pesadelos que há tantos, tantos anos tive com esta hedionda criatura, amanhã estarei evidentemente intratável e virei para aqui refilar…

  3. maria araujo diz:

    Eu também ia ao cinema do Vale Formoso…Não me assustam bruxas nem vampiros. Nosferatum ‚sombras com vento,na companhia do meu pai,também a norte,no Cine Teatro,matinés ao sábado,pela tardinha.Lembrei-me.

  4. Turmalina diz:

    Eu gostava do Fantasma quando criança.De alguma forma era como se eu acreditasse que em momento de perigo ele pudesse aparecer para me salvar, ou talvez me sentisse a própria Diana. Acho que fui uma das poucas pessoas que assistiu o filme com o Billy Zane mais de uma vez.
    Já a sua vilã é sensacional.Eu não tenho lembranças do que, ou quem, me dava medo quando criança.Mas desconfio que eu devia ficar um pouco temerosa de tal figura.

  5. Vasco Grilo diz:

    Pedro, Fantástico o teu medo. Curiosamente, o momento em que ela se transforma em dragão no final do filme corresponde ao meu primeiro contacto com o mal puro, aquele que se esconde ainda maior e mais terrível do que aquilo que parecia já ser na encarnação da bruxa má.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    A história do Fantasma fez-me raiva — pensava legitimamente que era brinquedo meu, como brinquedo meu é o Mandrake (esse é que é mesmo) e o estúpido do Buck Jones que mes fez ter a mania de ser sheriff (só escapo a ser GNR por ter partido para as colónias em missão civilizadora). E porque é que as tuas bruxas não incluem a Pfeiffer, minha bruxa tão favorita?!

  7. pedro marta santos diz:

    Deixa lá, Manuel. Eu fico com a Diana Palmer, mas tu sempre tiveste a Narda.

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