Grande Pedrada

Gosto muito de pedras. Grandes, brutas, escuras. Empilhadas em antas e dólmenes, dispostas em cromeleques e stone circles ou simplesmente erguidas, isoladas, no meio do campo, das árvores e do capim.

Encantam-me a sua simplicidade e despojamento. Fascina-me o forte sentimento que terá impelido homens e mulheres com meios tão limitados a esculpir e decorar, arrastar e rolar pedras enormes e pesadas, a dispô-las com rigor e precisão ali, naquele sítio e naquela posição. A apontar já para os céus, como, séculos depois, as catedrais góticas. Toca-me profundamente o que exprimem, de consciência da sua fragilidade e finitude e de abertura à transcendência, com entrega e esperança. Mas também o que envolvem de libertação de um quotidiano duríssimo, de elevação face ao mero objectivo de sobreviver, para olhar e compreender o mundo e nele deixar uma marca. A tornar esses remotíssimos antepassados tão próximos de nós.

Há muito que esta minha aficción me leva a percorrer caminhos de terra, pó e lama, a aventurar-me, de máquina fotográfica em riste, por matagais de ervas que faço por imaginar despovoados de insectos e de cobras, a suportar o olhar pasmado de rebanhos de ovelhas. Quase sempre no Alentejo. E durante anos a sonhar com Stonehenge.

Há tempos o meu irmão foi viver para Inglaterra. Quando me explicou-me para onde, eu não queria crer. O Google Maps confirmou-mo: perto, muito perto de Stonehenge. Deixei-o instalar-se e não tardei a aparecer-lhe, cheia de vontade de passear. Sugeriu Oxford e Windsor. Exigi Bath, because of Miss Austen. But first things first: Avebury e Stonehenge. Exibi mapas e resmas de prints. Acedeu, com a resignada sabedoria de quem já leva muitos anos disto.   

A parte do homework fora desconcertante, to say the least. Julgava eu que aquilo se visitava como o cromeleque dos Almendres: acesso livre (talvez pagando umas libras). O site advertia, porém, que para ir inside the stone circle teria que book in advance. Estranhei as horas: entre as 5 e as 8 da manhã (ou ao anoitecer). Mas mais ainda o regulamento de acesso, cuja leitura me era sugerida. Proibia, muito razoavelmente, que se trepasse às pedras e se escavasse o chão. Mas também que se celebrassem casamentos, se queimasse incenso ou outras substâncias, se acendessem fogueiras e se tocassem instrumentos musicais, desde que não acústicos. Permitia, contudo, que me apresentasse descalça. Também me era exigido que preenchesse um impresso, no qual, sendo o caso, deveria dar full details acerca da cerimónia que tencionava levar a cabo. Era tudo tão bizarro que telefonei para lá. A senhora explicou-me que as visitas normais decorriam a horas normais e apenas à volta do stone circle. Via-se tudo, tranquilizou-me. Vencida, não convencida, lá me resignei.      

Foi fantástico. Muito mais grandioso e belo do que eu alguma vez imaginara. Andei à volta. Várias vezes e nos dois sentidos. Fotografei. Fiquei a saber que algumas pedras, partidas à pedrada, vieram do País de Gales, em jangadas, pelos rios Avon e Frome. Impressionou-me a exacta orientação do conjunto em função dos pontos cardeais relevantes e o perfeito alinhamento das pedras do interior, de modo a captar e reflectir os raios do sol em certas épocas do ano. Vim de lá feliz da vida. Dreams come true, after all.

Voltei há meses. Faltavam dias para o solstício. Havia druidas, vindos de toda a Inglaterra e não só, acampados nos terrenos circundantes. À saída não resisti e fui vê-los, de perto. Sozinha, porque o meu irmão e filhas, que consideram muito embaraçoso este meu hábito de meter conversa, fugiram espavoridos para o carro. Eram uma simpatia, os druidas. Deixaram-se fotografar, explicaram-me quão great eram os festejos e os rituals que se iniciariam em breve. Contei-lhes do meu equívoco, na primeira visita. Silly me, quando afinal se via tudo e tão bem, assim de fora. Oh no! disseram logo. You have to go inside, next time. The stones are huge! Time seems to stop! And the silence, the echo! It’s really different, unique! You should come before sunrise! Vim de lá a pensar naquilo. E continuo encrençada.  

É este, afinal, o grande problema das pedradas. Por mais intensa que seja a dose actual, a próxima tem que ser maior. Huge. Seja. Eu depois conto.

Comentários a “Grande Pedrada” (17)

  1. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Legalize!

  2. António Benedito diz:

    Sócrates mente — Joana cumpre!
    Não me lapidou mas trouxe uma experiência telúrica em troca.
    Assim ganhamos todos — eu em particular…
    Mas o druida tem razão, o inner circle é que é. No meu tempo vendiam lá perto uns cogumelos curiosos.

    • Joana Vasconcelos diz:

      António, ainda bem que gostou deste texto, para o qual entre voadores e fumegantes dragões e pedradas de incenso foi dando o mote! Das vezes que fui a Stonehenge lamentavalmente não havia cogumelos desses .… contentei-me com uns nada alucinogéneos saco, marca de livro e iman para o frigorífico …

      PS — Por falar em cumprir promessas, continuo à espera de receber o conto passado na casa com sete janelas …

  3. Turmalina diz:

    Uau…adorei sua experiência!!! Tb sou de falar com todo mundo, ou melhor, “meter conversa”.É assim que se fala?
    Eu tb optaria pela visita ao interior, nem que fosse para sentar-me no meio do circle e observar o mundo de dentro prá fora.E consigo viajar bem nessas situações, naturalmente, sem predras nem cogumelos curiosos :o)

    • Joana Vasconcelos diz:

      É mesmo assim que se diz, Turmalina, “meter conversa”. É das coisas que mais me diverte — nas lojas, nas salas de espera do dentistas das crianças, nos taxis, onde calha. E que tantas vezes resulta em surpreendentes revelações e histórias curiosas ou tocantes e, sobretudo, nos dá a conhecer uma outra faceta de pessoas que, à partida, nos parecem tão banais …

  4. Vasco Grilo diz:

    Proponho fazer o próximo encontro tertúlico (telúrico?) descalços dentro do henge. Não sei porquê mas vejo o JNA de druida com louros na cabeça e a Eugénia com um saco cheio de Zimbro para nos preparar uma poção mágica.

    Grande texto Joana. Parabéns!

  5. António Eça diz:

    Ora, ora, Turmaqlina, até parece que os cogumelos são artificiais!…

  6. pedro marta santos diz:

    Obrigado pela visita, Joana. Está na minha lista de viagens prioritárias, ao lado de Chichen Itza e Machu Pichu.

  7. teresa conceição diz:

    Joana,
    que visita tão bem guiada! Soube mesmo bem.

    Entretanto, lembrei-me de outros modos de as pedras ali chegarem.
    Vou lá em cima mostrar:)

  8. António Eça diz:

    Joana! Caneco! Para onde o mando?
    Não sei meile…

  9. António Eça diz:

    Nã’ há nadica di nada…

  10. É mesmo um lugar extraordinário. E as termas de Bath também o são, de outra forma, é certo. Mas arrepia, aquela água ainda quentinha, quase dois mil anos depois.

    E se não foi, da próxima passe também por Salisbury e a sua catedral.

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