
o Caracol é o primeiro de pé, a contar da direita
Desejam saber porque motivo os três vezes mentirosos de Vila Nova da Rainha nunca mais voltaram a Vale do Paraíso a não ser um a um e a expresso convite?
Numa bela tarde primaveril de Domingo, no início dos anos 80, ia disputar-se o jogo de futebol entre o glorioso ADR e a turma do Vila Nova, a contar para o INATEL.
Naquele tempo não era compulsiva a presença de fardas no recinto, mas mesmo que fosse, tudo seria à mesma como foi, dado que os republicanos estão sempre mais dispostos a vigiar o assador de coiratos enquanto bebem umas mines sem álcool debaixo do telheiro do bufete, protegidos das ocorrências e da soalheira. Estava-se mais à vontade, portanto, e as mulheres assumiram a sua habitual posição estratégica atrás do guarda redes adversário para durante todo o jogo lhe relembrarem algumas curiosidades acerca da sua genealogia e da terra donde provinha.
O nosso central era o Caracol e se não era o mais fino jogador do planeta naquela posição, estou em condições de o propor como o mais resoluto. A sua enorme taxa de eficácia na solução das “ações atacantes adversárias” baseava-se num princípio singelo mas rigoroso: uma monumental biqueirada no esférico que num arco de triunfo se ia perder no meio das vinhas. Isto gerava invariavelmente duas reacções: a primeira era os velhos exclamarem “boa Caracol!” e maior honra não havia do que a aprovação daqueles sábios, alguns dos quais até já tinham estado no terceiro anel. A outra era o chilreio contente dos miúdos que se haviam posto ali de propósito para irem mil vezes à vinha procurar a bola e rematarem-na de volta.
Começou a partida e logo se viu pela sonsa disposição em campo e pelos modos patibulares com que atacavam a bola, o que pretendiam os de fora. Não passaram 5 minutos e a coisa turvou-se. O avançado deles desembestou numas fintas e em vez de se desviar da pata 44 do Caracol, como era de ciência certa entre todos os atletas das freguesias em redor, vai direito a ele e aplica-lhe uma cueca, deixando-o de perna alçada na atmosfera, após o que, com a sola da bota, dá um encosto mijadinho na pelota em direção à baliza. Nesta morava o Arménio Carreira que berrava muito mas tinha vergonha de se atirar ao chão para não se cagar, porquanto o esquentador da cabine era fraco e a ninguém apetecia duches de água fria.
Foi golo.
O pelado do ADR é uma caixa de fósforos e uma defesa de quatro homens em linha é um paredão compacto. Entrincheiraram-se os contrários durante a meia hora subsequente, rechaçando os nossos ataques cavalares com alívios irreflectidos e não poucas sarrafadas preventivas. A dado passo, o extremo do Vila Nova descarregou um chutão, obviamente para onde estava virado. Foi a bola direitinha à nossa caixa dos medicamentos. O impacto arrebentou os frascos de mercurocromo, o do álcool, o daquele linimento com um cheiro que parece um dedo a enfiar-se pelo nariz, e os de outros unguentos avulsos, ficando os fluidos todos misturados numa pomada vermelha. Uma bruta despesa, o que indignou o diretor/delegado/treinador/massagista do ADR. E a irritação propagou-se à multidão nas arquibancadas, ou seja, à malta que se juntava na beira da estrada rural paralela ao campo da bola.
Chegamos ao momento do jogo: numa disputa em que as canelas suscitam um interesse maior do que a bola, um besta deles atinge o nosso play maker, um rapaz crucial às evoluções táticas da equipa, pois chegava a conseguir três passes sem erro. Ei-lo a rebolar na poeira nas vascas da agonia, com o fito de comover o árbitro; eis que se aglomeram os jogadores à sua volta aos encontrões; eis que entra em campo o diretor/delegado/treinador, agora na qualidade de massagista; eis que, ao abrir a maleta, derrama a pasta vermelha no corpo do putativo moribundo.
Eis também que neste preciso momento aporta o Celestino à bandeirola de canto, vindo de passar a tarde a cegar uns tojos no campo e ainda descansando a foice no ombro. “Meu rico filho!” gritou, pois era o próprio filho quem via ali esticado no chão, coberto de sangue e rodeado pela matula forasteira a pontapeá-lo sem misericórdia. Foi o que ele disse que viu, mais tarde, no posto da guarda. E arremeteu uivando de foice em punho direito ao congresso de desportistas e atrás dele foi o povo, todos com puríssimas intenções conforme também declararam aos autos: uns para segurar o velho, outros para ver de perto o sinistro e outros para salvar o coiro das pedradas que entretanto começaram a voar.
Não foi nada disso que viram os poltrões de Vila Nova, pelo que resolveram zarpar de cena em pânico, à desfilada pelas vinhas fora, quebrando cepas e rasgando gavinhas, sempre a correr na direção do sol posto até à terra deles. Quando lá chegaram, esfacelados e rotos, tão grande foi o pavor que desorganizaram logo ali o clube só voltando a renascer o União, Desporto e Recreio de Vila Nova da Rainha já no séc. XXI.
Ainda hoje está no ADR, debaixo da vitrina das taças, um caixote de cartão com as roupas deles, à espera que as venham buscar.
















