
No meio de Hamlet há aquela peça que encena dentro da peça que vemos, o drama do príncipe poltrão. É um momento utilizado na escola para ilustrar a técnica do mise en abyme. Assim é também o futebol: um eloquentíssimo mise en abyme daquilo a que chamamos “vida real”, encenado por 22 rapazes de calções, mais 3 ladrões sem casaca, rodeados tanto por um punhado de mulheres com um prodigioso léxico de insultos (caso do A.D.R.) como de 40.000 uivantes em ira ou alegria.
Para ilustrar esta analogia peço que considerem o caso Djaló, Yannick Djaló.
Fadaram-lhe um futuro auspicioso e o menino, sonhando fintas mirabolantes e golos de bandeira em noites europeias, foi logo cortar o cabelo à campeão, e furar as orelhas de diamantes, que em futebol é o emblema dos predestinados.
Mas da potência ao ato vai um abismo, que nem os filósofos árabes medievais, nem os coevos monges cristãos que lhes pilharam o pensamento, conseguiram resolver; pelo que o tempo passava e o destino tardava. E se debaixo da bondosa tutela de Derlei ainda Djaló teve uns minutos de ser capaz de qualquer coisa acima da vulgaridade, quando íamos ao deixa-lá-ver-melhor já lá não estava nada digno de estima. E as coisas foram indo assim, ou seja, cada vez pior. Em campo exibia demasiado uma pose petulante, aparentando preocupar-se mais com a estética do que com os resultados, como se fosse um poeta da Assírio, propondo umas corridinhas em pezinhos de lã amarelos, sem consequência.
De modo que estivemos nisto até à semana passada. E de repente, sem alerta prévio, quem era aquele acelerador de partículas em campo? Era o Djaló, a romper, driblar, rematar. E tudo isto com uma convicção e uma certeza dir-se-ia que “evidentes”, como se nada tivesse sido de outra maneira.
Como se explica tão drástica metamorfose, tamanho salto quântico da noite para o dia? Os crentes, que sabem sempre o que dizer, exclamarão: “Milagre!” Ou então: “mistérios da Divina Providência” que é o que avançam quando precisam de não explicar o que dizem. Os ludopedistas, que tendem a ser deterministas, declamarão razões como se já soubessem antes o que só repararam depois. Mas na verdade a explicação é só uma: não há explicação.
O irrompimento do novo Djaló, que em nada o velho deixava antever, é semelhante à maior parte daquilo que nos sucede na vida – apenas acontece. And that’s that.

















Zé, as tuas considerações aplicam-se também ao outro jogador que, de vedeta, só teve a pose o ano passado. O Miguel Veloso, claro. Com a diferença de este ter acordado bem mais cedo e ser, convenhamos, muito melhor jogador do que o Yannick (embora tenha o defeito inverso do Yannick: é irritantemente lento por vezes, enquanto o Yannick é rápido demais para a bola noutras).
Explicação? Para além daquelas que a razão desconhece, haverá uma bem palpável: a imaturidade conjugada com as más companhias. Quanto a estas, quase que aposto que os rapazes deixaram de confiar o seu destino àquele empresário que começou como tradutor de russo.
Mas está-se a esquecer de um pormenor que não julgo pequeno, Yannick aparece sempre nesta altura da época, quando se fala em empréstimo ou cedência, lá está o rapaz a fazer a diferença, lembra-se do jogo que fez a época passada frente ao SLB (5−3) para a taça de Portugal? Depois chega o defeso, a pré-temporada, começa a época e do Yannick nada, até que se aproxime a Primavera…
Grande texto, JNA. Como se costuma dizer, a luz é boa mas também encandeia.
O que António de Almeida diz é, sem dúvida, um pormenor a considerar. É capaz de faltar ao Djaló umas certas ganas de lutador, que só surgem quando se sente em perigo.
Nada incomum — embora no futebol isso costume ter preço certo: a rua.
Agradeço, muito sinceramente, os vossos comentários. Mas continuo sem perceber, como se pode estar “out” e “in” em tão pouco tempo. Algum de vós, olhando para a vossa vida, conseguiria tal feito? Eu não. Mass o ponto é esse: aceitar que há coisas que não se compreendem.
Graças aos céus que não percebo nada de futebol (tirando as agruras do Borussia e do Benfica…).
Meu caro Zé. Não consigo gostar do Djaló. Não recebe bem a bola. Não finta os adversários. Falha os passes e os remates. É um atraso de vida. Posso não perceber muito de futebol, mas sou sportinguista (espero que se note) e não gosto do Djaló. Ainda por cima tem pinta e é rápido, pelo que promete… o que faz com que a desilusão seja ainda maior.