Eu tenho uma pistola. De agrafos, o que é que estava a pensar?! É pesada, a danada, tão pesada que não se deixa pegar direitinha, sem apoio. Ora isto vem a propósito do quê? Do PEC, do que é havia de ser… e não é porque vá desandar a agrafar a classe política em geral e os gestores públicos em particular. É porque, sem me chamar Martha Stewart ou Bree Van De Kamp, tenho um defeito terrível que, nas relações pessoais e na economia doméstica, é uma qualidade: quando olho para uma pessoa ou coisa, nunca considero só aquilo que ela é, mas tudo aquilo que ela pode ser — tive uma epifania, acho que, mal comparado, é um feitio de alquimista. Adiante. Nas outras situações é mau porque induz, pode induzir, em erros de avaliação. Graves. Todavia nestas duas situações é bom. Não podia ser melhor.
A parte humana é obviamente fácil de entender: quando se vê uma pessoa no esplendor do seu futuro potencial, basta, no presente, na relação com ela, ir a direito em direcção a esse futuro, prevendo as dificuldades, para que a pessoa manifeste a sua capacidade no presente. E é uma felicidade.
Agora, a parte doméstica porque, nos dias que correm, convém gastar menos, no entanto, vivendo tão ou mais bem, ou mesmo, tendo uma vida melhor do que quando se gasta mais. É preciso olhar para uma moldura de loja dos trezentos e vê-la costume made para um quarto. Encontrar entre bases de candeeiro de feira de velharias, a talha que se restaura e folheia a ouro. Lembrar de quem gosta de bolachas de manteiga e quem prefere compota. Saber o que comprar e onde e a quem. E o que fazer com aquilo que se compra para que se dê, como direi?, o milagre da multiplicação do vinho e do pão, mas sem a parte do milagre. Enfim, esquecer o que não interessa: que há hipermercados que vendem o tomate a mais de dois euros o quilo. A verdade é que poupando, se tem liberdade para as pequeninas extravagâncias e para alguma generosidade — só falo, obviamente, daqueles que têm a satisfação das necessidades básicas assegurada. Mais do que tempo, o que é necessário é organização. No fundo, é a teoria do porco. Em toda a sua extensão quando possível. Quando não, o mais que se conseguir. Olhe, a teoria do meio porco e não se fala mais nisso. Eu não compro febras, compro um porco. Não compro secretos, não compro lombo, não compro linguiças, nem banha. Nem presunto. Compro um porco. Não compro carne cheia de antibióticos, criada a partir de ração de farinhas duvidosas, carne que encolhe no tamanho e no peso quando se cozinha e sabe a qualquer coisa vagamente porca. Compro carne de um bicho meio selvagem que anda pelos montados a comer bolotas e o que deve, tem uma vida santa e uma morte limpa. Ai um porco é muito grande, onde é que eu ponho tanta carne?! Diz você. Compre a meias com a sua irmã. A treias com o seu irmão e pais. A seias com as suas lindas amigas. E o que é que isto tem que ver com a pistola? Tudo! Fazer coisas é bom. Seja para nós, seja para os que amamos. Para os que não sabemos amar, também. Faz-nos sentir competentes porque nos dá competências. E fazê-lo acompanhado, é diversão de programa de festas. Até educação para a frugalidade e/ou criatividade, sem seca. E para a justa medida quando a vaidade nos dá para a hipérbole. O corpo é tão importante como a cabeça e é uma alegria utilizá-lo – não me estou a referir a exercícios de yoga ou manobras de outra natureza, que, concedo, é tudo também muito bom. E nem sequer é preciso ter jeito: vontade e prática, bastam. Para corrigir os erros, usa-se a tal da cabeça. Volto para lhe contar tudo. Pronto, conto só um bocadinho. Sabe o que é eu fiz? Já forrei uma cabeceira de cama, um sofá, uma fartura de bancos de cozinha. Não foi hoje. Se parecem projectos dignos de uma aula de trabalhos manuais? Essa é boa… Garanto-lhe que parecem ter vindo do estofador — de um estofador que admite pequeninas imperfeições do seu aprendiz que as disfarça com muito afinco. Isto para ficarmos pelos agrafos. Se fosse falar de candeeiros, abria uma loja de iluminação. Bem, quase. Teria, vá, uma prateleira numa loja de iluminação. Comida? Só lhe digo, na sexta-feira, uma querida amiga faz anos e eu vou levar para o pai dela bolinhos de gema de ovo. Se saírem mal, uma garrafa de belo tinto.

















Será que Sua Majestade admite — nem que seja, para já, só como hipótese, pragmática hipótese — abandonar o reino da Sardenha e vir para Portugal, Lisboa, governar o reyno que é agora gerido por um filósofo? Confesso que tinha adoptado o zen como filosofia política, mas vejo agora o meu erro. Her Majesty Eugénia ao poder. Já.
Manuel Zen Fonseca, estou em crer que o reyno de Lisboa, ó de mim!, não me quer: nem me dá abrigo para eu arranjar por lá governo quanto mais as chaves da governação..
Eugénia,
que excelente lição de economia. Muito mais do que doméstica.
Dava tanto jeito aos nossos maiorais senhorios terem algum ‘feitio de alquimista’.
Talvez venham cá espreitar e aprendam alguma coisa. Além do deleite da leitura.
Por mim, vou já roubar umas ideias.)
Teresa, menina fugidia! O Manuel é que tem fama de Mandrake, mas quem é que desaparece, quem é?!
Qual eu Mandrake, mal regressei e já estou a pedir socorro:
Socorro, este blog tem excesso de produtividade!
Precisava de magia para conseguir ler os textos que me faltam em menos de um mês.
Acho que isto é mais Hércules…pelo que já espreitei, não dá para aplicar economia diagonal!
Teresa!, ai ai! A dar argumentos ao silêncio de tantos.
Pois é, ai ai aquilo foi uma cabeça-no-ar a falar. Tenho de conseguir redimir-me rapidamente para desargumentar.
Tenho ‚religiosamente,guardados os panos que a minha avó fazia com os sacos de algodão que transportavam o arroz,a farinha…com as iniciais das marcas…bem dobradinhos,com lugar ameno numa gaveta da cómoda.Pois que o seu texto,brilhante como sempre,me transporta perfumes e atmosferas de memórias cada vez mais ténues ‚mas vincadas.