PLENO: se alguém sonhasse o efeito que pleno tem em mim, na minha presença, punha-se logo vazio. Pleno, antes de cair nas bocas no mundo era uma palavra onde a tranquilidade se deitava antes de se escoar, o meio alto do céu todo surpreendido pela luz nocturna do sol guardada na lua cheia. Eu gostava. Agora tudo é pleno: ainda ontem, no link da imobiliária que me enviaram, estava um apartamento “pleno de luz”, para um anúncio que era como certas conversas, plenas de significado, onde era suposto que quem o lesse se sentisse pleno de vontade de o visitar — ou prenhe, ai prenhe!, prenhe também toca no si da oitava mais aguda dos meus nervos. A única justiça que me poderiam fazer ao pleno, no entanto, já me a fizeram – obrigada: é marca de leite. Da próxima vez que alguém me disser que se sente pleno, pergunto-lhe em serpentês, porquê, acabou de tomar a ddr de cálcio?
PERSONAGEM: o que raio se passa que desandou tudo a chamar personagens às pessoas?! Desde os jornalistas, mas só aqueles que são personagens da incomunicação social, aos comuns falantes, que querem ser personagens up to date do dia dia. Como ironia é do mais pobre e preguiçoso que pode haver. Há belíssimos personagens, personagens atormentados, há-os seráficos translúcidos e opacos vilões. Da próxima vez que alguém me disser, lailailailai a/o personagem, pergunto-lhe em serpentês: ai estava em palco da última vez que foi à ópera?
Ps: qualquer dia, em conversa e com ar seríssimo, a propósito da primeira destas pérolas que ouvir, e que só me dão vontade de desencarnar, faço uma frase fabulástica: é um personagem pleno de vida, mesmo profissionalmente usa de um registo simpático. E sempre tão cúmplice.. Não é?
Ps 2: Harakiri para um!

















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Eugénia, eu não tenho nada bom feitio. Passo-me com facilidade. Não com tudo, mas com coisas realmente específicas.
Fervo, como se diz em pouca água. Neste caso leite. Pleno. Aquele que tinha um anúncio que me punha de tal maneira transtornada que não conseguia desligar a televisão ou o som ou mudar de canal ou fugir a correr … Não, era de tal maneira mau que hipnotizava … Não se lembra? Estou em crer que não, a avaliar pelos seus simpáticos comentários ao dito leite …
Começava com um menino que com voz muito irritante anunciava, cantando claro, “gosto muito de brincar com o meu papá”, seguia-se a constatação, traquinas, de que, ao fim de escassos minutos de brincadeira “o papá coitado ja não pode com uma gata pelo rabo”, seguiam-se mais umas pérolas do género a anteceder a conclusão, melodiosa, “papá bebe pleno”, repetida ad nauseam. Tudo do mais compincha que é possível … E o pior é que aquele horror nos ficava na cabeça…
Por causa do anúncio e do muito que me irritava, deixei de beber o tal Pleno.
Por causa do seu post a música do menino não me sai outra vez da cabeça.
Acho que vou fazer um chocolate quente, a ver se me acalmo. Com Vigor, claro.
Ou então ver o anúncio do Pingo Doce no You Tube, as vezes que for necessário. Apesar de tudo, preferível …
Ó JOANA! Está lá, no texto, a justiça feita ao detestável pleno: o outro detestável pleno! Improcedente o seu serpentês..
Au contraire, plenamente procedente: estava a ir tudo tão bem e eu até estava a gostar tanto e zás! sai-me o maldito leite ao caminho! Depois, foi um horror de reminiscências penosas.
O que vale é que o chocolate quente estava óptimo e as torradinhas também ajudaram. Já retomei o meu registo de plena calma …
PS — No outro dia, quando batemos o record de comentários no post do PN (79) o sono era tanto que me esqueci de perguntar. Como adivinhou Teresa?
Pelo amor e admiração que a Joana mostra pela sua avó.
E foi mesmo por isso, Eugénia, que eu pus o nome dela — mas à Madalena, a menina grande. Essa minha avó e madrinha, a do Porto, que era uma pessoa extraordinária, e que eu adorava, morreu quase com 100 anos em 2006. Fantástica até ao fim.
A minha outra avó de que falo, felizmente viva, a materna, que mora aqui na casa ao lado, a das receitas e dos policiais tem um nome inacreditável e único. Fruto da poderosa imaginação do pai dela, um boémio, poeta e tocador de jazz, que ao que consta teve uma vida aventurosa no Brasil e que quando nasceu a primeira filha não teve melhor ideia que fazer um anagrama com as letras do seu próprio apelido: Longa virou Nolga. Uma cruz que a pobre carrega há 88 anos… Dele restam apenas algumas fotografias: era um homem lindo de morrer. Quando morreu, a minha bisavó, de desgosto que queimou tudo quanto era papel …
A história do nome Nolga é linda. Talvez uma das suas filhas queira dar-lhe continuidade.
(Pensei que Teresa era o nome dessa sua avó, e Madalena, que tinha referido, creio na sua lista, o nome da outra avó.)
Nem sabe a Eugénia como “pleno” pode ser uma palavra muito estimável. Não acredita? No dia em que eu voltar a ouvir que “o Benfica fez o pleno esta época”, não haverá mesmo outra que me soe melhor…
E, quanto a personagem, concordará comigo que é preferível à horrenda “indivíduo”…
Diogo, Diogo.. vil manipulação: pleno, mas só esse, é uma linda palavra.
Temos de tratar de arranjar outra que substitua essas duas desgraças, nem o personagem nem o indivíduo. E não venha cá atirar-me com o Jorge Jesus para me fazer mudar de ideias.
E ainda temos o sujeito…rss…
Já que o Diogo falou em Jesus, apesar de Jorge, aqui lembro a sua mãe, que era Maria, plena de graça.
Assim, sim.