Carla Lopes, nossa leitora brasileira, quis, respondendo a evocação que o Gente Morta fez por ocasião do passamento de José Mindlin, um fanático apaixonado do livro e dos livros, deixar aqui uma encantada homenagem a que nos juntamos com igual admiração.

Em 28 de Fevereiro deste ano encerrou-se mais um capítulo de uma linda história de amor.
Jose Ephim Mindlin (1914 — 2010), deixou orfãos, principalmente, os livros que tanto amava. Em seus 95 anos de vida, leu aproximadamente 6 mil livros. Sabendo que sua paixão pelos livros começou aos 13 anos, quando ganhou de uma tia a coleção História do Brasil, do Frei Vicente Salvador, ele leu praticamente um livro à cada 5 dias.
Filho de um casal de judeus russos que resolveu “fazer a América” na cidade de São Paulo, aos 15 anos foi contratado como repórter do Estado de São Paulo, dirigido na época por Rangel Pestana, que era muito amigo de seu pai. Durante a revolução de 1930, por ser um dos únicos na redação que falava inglês, ficou responsável por passar informações, por telefone, aos revolucionários no Rio de Janeiro, driblando assim a censura.
Deixou o jornalismo em 32, quando ingressou na Faculdade de Direito.Logo nos primeiros dias de aula do quinto ano conheceu Guita, com quem viria a se casar alguns meses depois.Com ela compartilhava a paixão pelos livros.Era a própria Guita quem restaurava os livros que Mindlin adquiria. Em 2006 ele enviuvou, depois de 68 anos juntos.
Ainda como advogado, na época da Segunda Guerra, conseguiu transformar vistos temporários para turistas em permanentes, assegurando assim a vinda de diversas famílias de refugiados judeus.
Era amigo pessoal e leitor fanático da obra de Guimarães Rosa, a quem chamava de “almofadinha”. Aos 32 anos, em sociedade com Claude Blum, fundou a livraria Parthenon, em São Paulo, especializada em livros raros. E assim iniciou sua busca por obras raras para sua biblioteca particular. Ele dizia: ” Se você tem o dinheiro para comprar esse livro, compra, porque o dinheiro volta, mas esse livro pode não voltar”. Nesta sua paixão por livros chegou a esperar 20 anos para finalmente adquirir a primeira edição de O Guarani, de José de Alencar.
Questionado pela reportagem do jornal A Folha de São Paulo, em 2004, se existia um livro preferido em meio a tantos que colecionava, Mindlin disse que uma das características da bibliofilia era a poligamia. “Não há como dizer prefiro este ou aquele”, afirmou. Mas considerava duas obras em especial, como sendo livros da vida de qualquer pessoa: Memórias Póstumas de Bráz Cubas, de Machado de Assis e Grande Sertão: Veredas, do amigo Guimarães Rosa.
Mindlin deixou de presente para o futuro um acervo com aproximadamente 40 mil títulos, entre obras da literatura brasileira e portuguesa, relatos de viajantes, manuscritos históricos, periódicos, livros científicos e didáticos.

Livros indicados por Mindlin:
As mil e uma noites
Bagagem — Adélia Prado
Le Grand Meaulnes — Alain Fournier
A Peste — Albert Camus
Os Três Mosqueteiros — Alexandre Dumas
A Ilha dos Pingüins - Anatole France
Sermões — Antônio Vieira
A Torre do Orgulho — Barbara Tuchman
A Flor do Mal — Baudelaire
Adolfo - Benjamin Constant
Decameron — Boccacio
Grandes Esperanças — Charles Dickens
O Amanuense Belmiro — Cyro dos Anjos
Robson Crusoé — Daniel Defoe
Jacques, o fatalista — Diderot
Crime e Castigo — Dostoiévisk
Os Maias — Eça de Queiroz
O Morro dos Ventos Uivantes — Emily Brontë
O Tempo e o Vento — Érico Veríssimo
Tom Jones — Fielding
O Processo — Franz Kafka
Cem Anos de Solidão — Gabriel Garcia Marquez
Casa Grande e Senzala — Gilberto Freire
Vidas Secas — Graciliano Ramos
Grande Sertão: Veredas — Guimarães Rosa
Minha Vida de Menina — Helena Morley
O Lobo da Estepe - Herman Hesse
Comédia Humana — Balzac
Orgulho e Preconceito — Jane Austen
Confissões, origem da desigualdade - Rousseau
A Biblioteca de Babel — Jorge Luis Borges
O Guarani — José de Alencar
Menino do Engenho — José Lins do Rego
Lord Jim — Joseph Conrad
Rayuela — Julio Cortazar
Triste Fim de Policarpo Quaresma — Lima Barreto
Os Lusíadas — Luis de Camões
Memórias Póstumas de Bráz Cubas — Machado de Assis
Em Busca do Tempo Perdido — Marcel Proust
Macunaíma — Mario de Andrade
Don Quixote — Miguel de Cervantes
Cartas Persas — Montesquieu
A Carta Escarlate — Nathaniel Howthorne
Diálogos — Platão
O Quinze — Rachel de Queiroz
O Ateneu — Raul Pompéia
O Vermelho e o Negro — Stendhal
A Montanha Mágica — Thomas Mann
Guerra e Paz — Tolstói
Conversa na Catedral — Vargas Llosa
Os Miseráveis — Victor Hugo
Eneida — Virgílio
Orlando — Virginia Woolf

















Confesso que não li pelo menos 30 desses livros, apesar de conhecer o conteúdo de muitos.Mas sempre é tempo… e num país com tantos analfabetos e também os analfabetos funcionais, o hábito da leitura é imprescindível.Obrigada Manuel Queridíssimo Fonseca!