Barbara Kruger, My Pretty Poney, 1988
Um velha short-story com meia e doze notas de rodapé
Aos quinze, ela foi a um show de rock.i E aprimeravistou-se amando um caraii da idade dela. Foram cinco anos de violentas convulsões. Como são os segundos partos, essa muda de pele. Ele foi para os Estado Unidos, por um ano. Intercâmbio cultural. E lhe deu um fora por MSNiii. Ela passou uma semana na treva do quarto. Sem livro, sem internet. Só com sua música e um jejum. Quer dizer, com a música deles. A mesma canção. De novo. E de novo. E depois silêncio. Profundo silêncio. Silêncio instalado após saber que não ia mais se matar. Seguiu vivente. Teve namorados outros. Poucos. Casos. Alguns a princípio. Depois muitos. Simultâneos. A rodo. Pulou de cama em cama com um percevejo.iv Cheia de mágoa até a raiz dos cabelos castanhos claros. Do delicado rosto com o sinal acima do sobrelábio esquerdo. Quanto mais maltratavam-na, caiam em seu gosto. Porém desgostava na carreira. Logo a seguir. Como se enjoa de um chá. Criou uma ciranda de mistério à volta de si em torno dos vinte e cinco. Uma espécie de vestido opaco que não deixa ver as formas. Chorava de noite. Sorria de dia. A desfaçatez passou a ser seu orgulho. Só conseguia transar sem estima. Por esporte.v Mecânica. Passatempo. Mero instinto? E lhe causava arrepio a possibilidade de voltar a sentir.vi Para um amigo fotógrafo posou vestida à grega segurando uma grande maçã mordida. Então começou a viver mais na internet que fora dela. Juntou-se a um grupo de visitadores de lojas de decoração: Le Décor du Fort. Mantinham blogues e intercâmbios. Visitações a lojas de grife e brechós eram muito mais esporádicas que o que viviam na virtuália. E por todos os poros virtuais lá estavam: redes sociais, transmissões em tempo real, jogos, frases de efeito, mensagens por celulares e entropias outras.vii Mil noites e uma socados em seus quartos apertando teclas. Trocavam fotos, canções, caprichos, sugestões de novos sítios.viii Havia zelos como os há entre amigos. Entre iniciados. Círculos de giz. E ela pairava acima de todos, como a única janela na parede de pedra chupa o olhar do passante. Como o quartzo limado de sol. Um diamante moreno claro desejado por homens e mulheres. Imponente em sua volubilidade. Quase uma gnosiologia, Le Décor du Fort. Eram ingênuos, opinativos. Felizes, no entanto. O gordo estudante de engenharia civil. O magro estudante de engenharia elétrica. A publicitária frustrada. A risonha apresentadora do telejornal. Quase todos.ix Ela não. Passaram os anos. Obcecada por casamentos, foi madrinha de uns dez. E quase foi do seu próprio. Casou no tempo certo. Viçosa, felina. Como um jaguar atravessando um rio. Mas mesmo depois de casada, ficou para tia.x A rigidez da dor desenhou-se então em seu rosto, sem mais criptogramas no dealbar da velhice. Separou-se. Como metade dos de sua classe e geração.xi Celibatou-se. Aposentou-se como assessora de imprensa da Assembleia Legislativa. Morreu magra e infeliz. De câncer no pulmão. Como morrem os tristes.xii Mesmo sem ter fumado um cigarro na vida. Um leve sorriso nos lábios ainda era a linha que podia, devia ter dito. Uma frase que reteve na ponta da língua. No vértice do fôlego. Anos. Nos artelhos aos flancos do teclado. Jamais pressionados, os caracteres que não se sequenciaram nunca para forma de sentença. Aquele não dito. Breve, decisivo. Que moldou seus lábios num sorriso leve quando o corpo enrijeceu. A única frase que devia ter dito. Mas não disse. Num brinquedo antigo e precário. Chamado MSN.
i“Shows de rock” seriam algo análogos aos nossos atuais drunkards, porém como bem menos interferência de comandos suprassensíveis, a imposição de uma música a um público passivo, não interativo, e a impossibilidade de contato via emissão cerebral.
ii“Cara” eslango brasileiro arcaico para “gajo”, “zola”, no Brasil de hoje. Em Portugal e Africanidade, “rapaz”, “cabra”.
iiiPrimitiva modalidade de comunicação pela “rede mundial” quando os “computadores” ainda eram acoplados a teclados com letras e caracteres. No início, ainda alâmbricos. Muito popular, sobretudo entre jovens, do início do sec. XXI da Era Comum.
ivO suficiente para ser odiada por metade das esposas e namoradas da, então, emergente alta classe-média, na Aldeota.
vDuvida-se da eficácia desta assertiva. Uma vez que havia uma veemente grau de paixão em alguns esportes de então, à exceção do críquete. Notadamente no futebol e no carnaval – que começou como algo lúdico, sem uma característica propriamente esportiva e restrito a alguns dias que precediam a Quaresma, no antigo calendário cristão.
viA acepção deste expressivo vetorial desinenciado é completamente distinto da nossa. No sistema moral de então preponderava uma sanção entre afecção e sexo(?). Embora isso quase sempre não se cumprisse fora dos códigos e da “razão tolerável”, para citar o téorico angolano Manuel Fonseca Mourinho.
vii“Redes sociais”, “transmissões em tempo real”, “jogos [eletrônicos]”, “mensagens por celulares” eram modalidades de comunicação pré-teledata, no que se chamava “internet”, ou “rede mundial de computadores”. Redes sociais eram avós das nossas talktos. Jogos eram ainda da fase eletrônica ou virtual, uma febre á época. Ao ponto de um casal da extinta Coréia [província da União do Pacífico] gastar doze horas por dia criando uma bebê virtual enquanto a filha de três meses morria de inanição. “Celulares” [“telemóveis”, em Portugal, província da atual Periféria Europaica] eram aparelhos de comunicação pré-teledata, manejados por… teclas pressionáveis, ainda desta vez. Sem nenhum comando de onda cerebral. Bastante precários e a funcionar com baterias recarregáveis de curtíssima duração.
viii“Sítios” [“sites” no Brasil e nos Estados Unidos pré–latinos] eram, na internet, precursora da rede infraespacial de teledata, os avós de nossas “tabs”. Funcionavam em grandes e desgraciosas geringonças que ocupavam imenso espaço e geravam uma descomunal quantidade de lixo intermitente. E mesmo os portáteis pesavam alguns quilos. Era “o computador”.
ixHá quem censure essa distância entre este “quase todos” e ao que se refere “felizes, no entanto”. Também suspeita-se que o “quase todos” possa estender-se a “eram ingênuos e opinativos”. Mas essa hipótese parece haver sido descartada pela maioria dos exegetas pós-contemporâneos.
xDescobriu-se que seu útero era atrofiado, não ancho o suficiente para envolver um feto.
xiSegundo dados do antigo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atual CGEBS (Conservatório de Geoestatística do Brasil e Suramérica), 46% dos brasileiros de alta classe-média nascidos na década de 80 do século sec. XX divorciaram-se. Uma estatística ainda bastante tímida, mas já encorajadora para a era Pre-Hecatômbica.
xiiDe acordo com o médico, professor universitário, escritor – jornalista televisivo, de espessa ressonância – Dr. Drauzio Varella, o câncer no pulmão estaria intimamente relacionado ao uso do tabaco, à excessiva introspecção, à depressão e às crises de pânico. Todos esses “sintomas psicossomáticos”,[*] por seu turno, associados à dificuldade de comunicação e relativa infelicidade ou insatisfação consigo próprio também entravam na pauta. Esta teoria, bastante propagada na primeira década do sec. XXI, chega a tirar riso. A televisão detinha, então, grande impacto sobre a população do país. O Dr. Varella fazia muito sucesso na extinta Rede Globo, cujo forte era o folhetim eletrônico, denominado de “novela”. O formato do folhetim vazava, no entanto, para o jornalismo, a crônica social, o comentário político, a documentaridade, etc. De fato, a teoria do Dr. Varella pode soar extremamente divertida nos diascorrentes. Pois todos sabemos que o câncer no pulmão, doença quase extinta, é provocado por substâncias que contém látex, como as gomas de mascar e o açaí, entre outras plantas resinosas ainda encontradas nas microreservas da Amazônia. Entravam também na composição das “sodas”, como no caso da popular e intragável Coca-Cola. Daí a razão da alta incidência de câncer no pulmão entre os xamãs indígenas ou os integrantes das seitas Santo Daime e União Vegetal, que, em seus rituais, ingeriam uma beberragem resinosa chamada auasca, cuja origem remete aos índigenas da selva peruana. O látex está na composição do papel. Suportedata por excelência do período. Também usado como envoltório do tabaco.
[*] O conceito “sintoma” ainda era usado nas escolas e na prática da paramedicina.
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Fiquei na dúvida: de que é que gosto mais, da narrativa ou da sua desconstrução (passe o palavrão) em notas de rodapé tão romanas?! Fiquei na dúvida: o que é que me assusta mais, o presente em que me revejo ou o implacável futuro que nos disseca.
ps– Um texto perturbador e, ainda por cima, com a expectativa de outro, a aparecer até ser meia-noite nos trópicos e nos Queridos Mortos, se é que o cearense e futurista autor não se “olvidou”!
Ah, as melhores notícias. Há morto a caminho, nesse éter que mal separa o Brasil de Portugal.
E, muito a propósito, ps ii — nas divinatórias notas do Ruy, as referências ao reyno de Portugal e reaggiornamednto europeu são uma delícia que tocaram fundo o meu exaltado patriotismo.
Na nota de rodapé do texto em questão, o autor afirma que o uso da substância ayahuasca é causadora de uma alta incidência de câncer de pulmão entre seus participantes. Gostaria de saber quais as evidências científicas em que o autor se baseou para fazer tal afirmação??? O uso do sacramento ancestral deve ser respeitado, e as pessoas que quiserem critica-lo devem no mínimo estar respaldados por pesquisas científicas sérias, e não afirmações levianas do tipo “todo mundo sabe…”
Caro Ruy, é sempre um gosto feliz ler os seus bons textos.
Delicioso!
Porque é que o Ruy não escreve mais? À beira dele (como se diz na minha terra de ventanias e disposições melancólicas), somos todos iniciados.
Um bom texto a perturbar o dia. Gostei muito, Ruy.
Fabulosos, o conto e — sobretudo — as notas de rodapé!
obrigado, amigos d’além-mar, pela leitura. pedro marta, gosto mto de seus textos assim como do lirismo da joana. lessa, estamos lidando com ficção, em nenhum momento pessoalmente quis menosprezar ou faltar ao respeito com os que entrevêem na ‘ayahuasca’ — que simplifico a grafia para ‘auasca’, como ouço na boca dos brasileiros — um vetor para se atingir a espiritualidade. ñ há nada de “científico” por aqui… aos demais, teresa, eugénia (a irrequieta), benedito e ao nosso editor, manuel, agradeço pela leitura e observações.
Sou fã de muitos escritores deste Cemitério. E hoje fico feliz por conhecer mais um. Adorei o texto, ele é dinâmico e vai nos envolvendo num crescente. É rápido, prático e eficiente.Deixou-me a pensar…
Ah, as notas de rodapé são ótimas e não precisam de explicação :o)
Eslango.
”eslango”, como vc destaca, Scheeko, é uma adaptação para o português de ‘slang’. como se isso pudesse se dar no futuro, onde estão postas, no dispositivo do conto, as notas. gosto dessas contaminações. elas alargam a fronteira do idioma. como a palavra ‘futebol’, p. ex. ‘futebol’ faz algum sentido ainda na transliteração para o alemão ‘fussball’. mas em português, não. ela não é nada etimológica, no senso castilço da coisa. é a pura sonoridade enforma à palavra. aliás, costumo a grafar e-mail por ‘imeio’, p. ex. por que não?