Algo de anormal

Varvara Stepanova, 1920

 

Apaziguados e Felizes

 

 

Até 2007 eram uma família estranha. O pai, a mãe, a filha de dezesseis anos. Até 2007 sempre tomavam café no Terraço de L’Italia aos domingos. Ou seguiam para os saraus do Ideal Clube. Ou ainda para banhos de mar no Porto das Dunas.

O pai era juiz. A mãe, professora universitária. A filha cumpria o segundo ano do segundo ciclo.

Tão próximos eram. Diferiam de outras famílias. Como se entre eles houvesse uma verdade não oblíqua, que era  medonha às demais. Se iam para casa de amigos no entorno, costumavam seguir a pé. Os três. Em conversas. Onde risos davam o tom. Ecoavam pelas ermas ruas do Meireles, com seus altos condomínios residenciais de luxo. E até os vigias, de suas elevadas, guarnecidas guaritas, entendiam que algo se passava de anormal entre aqueles três. Parafusos e menos.

Juízes não andam a pé. Nem mesmo ao volante de carros. Há choferes para tanto e placas oficiais nos veículos. Professoras universitárias não sorriem tão solto. Há Baudrillards para tanto. Adolescentes de dezesseis anos não vão bem assim com os pais. Há MSN’s.

Poucas categorias profissionais, no entanto, tão bem conhecem a alma humana quanto os vigias de condomínio. Especialmente os da Aldeota e os do Meireles.

E somente um ano depois.

Eles não mais tomavam café no Terraço de L’Italia. Não iam mais às tertúlias literárias no Ideal. Não mais banhavam-se no crespo mar do Porto das Dunas.

E, quando caminhavam juntos, o pai seguia à frente tocando um oboé. A mãe vinha logo atrás soprando um trompete. Seguida pela filha, que deslizava acima e abaixo a alavanca de um trombone de vara.

Os vigias, os condôminos da Aldeota, do Meireles olhavam para aquilo. E uma brisa de alívio refrigerava-lhes o espírito.

E sentiam-se apaziguados e felizes.

 

* * *


Comentários a “Algo de anormal” (1)

  1. manoel diz:

    caro ruy,

    adorei essa crônica (ou sei lá o quê). continuas preciso nas palavras. ótima observação.

    seria este o irmão mais novo do afetivagem?

    saudações,
    do bairro da jacarecanga.

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