A Casa do Rapaz de Veludo
Queridos Mortos

A casa de que vos vou falar já não é. Ardeu. Ou, talvez fosse mais correcto dizê-lo e por isso a trago a este cemitério, morreu. Porque as casas também morrem. Mas isso vão percebê-lo mais tarde porque eu não me quero adiantar. Ardeu portanto. Lenta mas inexoravelmente. Um fogo que tinha de ser e que a minha mãe previra. Talvez o cheirasse com o seu sentido apurado de mãe de menino doente, talvez o ouvisse crepitar ainda antes de ele rebentar. O que é certo é que ardeu. À nossa vista durante precisamente um ano. Segundo a minha mãe durante muito mais tempo. Costumava dizer que começou a arder há muitas gerações atrás. Desde o preciso momento em que as suas fundações ficaram prontas. Mas nisso, para ser sincero, nunca ninguém acreditou.

Tudo começou do tamanho inofensivo de uma mancha que, a princípio, mal se via. Uma mancha quase imaginária que começou a aparecer na parede do nosso quarto pouco depois do Natal desse ano. Foi o Rapaz que reparou nela e, confesso, chegámos a achar-lhe graça. A princípio tratámo-la com o respeito e a delicadeza com que costumávamos tratar, todas as manchas sem forma que cresciam nos nós da madeira do soalho da casa de jantar. «É cegonha». «É unicórnio». Inocentes, repetimos os jogos que víramos fazer à minha mãe, vezes sem conta, nas noites de Inverno daquela casa que para nós era princípio e fim de tudo. Mas a mancha foi-se espraiando, ainda meio fumo meio neblina, cresceram-lhe braços e tantos dedos que deixámos de poder contá-los. A princípio eram ossudos e angustiados. Frágeis e tão só implorativos. Cheguei a tocá-los como quem toca a mão de um morto que há de ser. Depois nodosos e cada dia mais saudáveis e cheios de vida. Como se a saúde de uns tivesse de ser a doença de outros. Vi-a, noite após noite naquela noite infindável que foi essa noite eterna, a fazer-se densa e a agigantar-se. A entrar-me pelo corpo dentro como se fosse corpo o meu quarto de menino. Como se fosse meu o corpo do Rapaz com quem em menino dividia o quarto. Vi-a fazer-se animal, primeiro micróbio e depois térmita. Misturar-se no meu sangue, que era também o sangue do Rapaz e o que sempre correra por entre os muros daquela casa, fazer-se cócegas, depois formigueiro até se transformar numa dor ensurdecedora que nos enlouquecia as veias e artérias desenhando cada vez mais extraordinários monstros negros nas paredes da casa.

 Foi-se fazendo enorme de roxa e negra. Cresceu para trás do armário que escondia uma porta que nunca soubemos para onde abria e voltou a aparecer do outro lado, junto à janela. Arrogante, contornou-a e passou a emoldurar a única visão que daquela casa se pode ter da extremidade do jardim onde o meu avô enterrara os cães (será preciso dizer que o quarto que era nosso fora também do menino que foi o meu avô?). Fez-se tão opressiva e tão sufocante que nos foi impossível esconder a angústia que teimava em espreitar por trás da brincadeira inocente. E sem que fosse preciso dizer uma só palavra, sem que precisássemos de abordar o assunto, uma noite igual a tantas outras deixámos de fazer o jogo dos animais para nunca mais repeti-lo.

A minha mãe fez então o que sempre fazia nessas ocasiões. Tomou conta das operações, mudou-nos de quarto e chamou um homenzinho extraordinário que chamava em todas as emergências e que dava pelo nome bizarro de Fernando-Faz-Tudo. Tinha um bigode nervoso e uns daqueles óculos sem função que usam as pessoas que só lhes espreitam por cima. E era, que me lembre, a única pessoa que conheci sem uma altura fixa. Pequeno e franzino quando ouvia as ordens da minha mãe, transfigurava-se quando lançava mãos à obra. E crescia, crescia até se transformar num homenzarrão de voz grossa e porte seguro. «Vivo para a minha arte», costumava dizer sem que nunca tivéssemos sabido exactamente qual era por serem tantas as que o ocupavam. Dessa vez a minha mãe encomendou-lhe raspagens, rebocos e pinturas («que queria o quarto pronto até Abril»). Aproveitou para mandar fazer uma daquelas limpezas épicas que nós costumávamos usar como pretexto para fugir de casa para não ver a destruição inapelável que deixava, por onde quer que passasse, o seu exército de criadas tão aterrorizadas como nós. Encomendaram-se dois tapetes novos (que os que cobriam a sala, coçados mas eternos, «estavam uma vergonha»), acordaram-se colchas estremunhadas do seu sono de arcas, arearam-se pratas esquecidas e até os pobres livros do escritório, por causa de um pó que mais ninguém via, saíram de uma ordem centenária que nunca mais foi possível reconstituir. Mas nós, pela primeira vez na vida, sentimos algum conforto naquela bagunça militarizada de panos, espanadores e frascos de líquidos tão espessos como improváveis. E deixámo-nos enganar com gosto por alguns meses.

Foi-se Fevereiro, veio Março e chegou Abril. As paredes do quarto foram-se fazendo brancas e cada vez mais luminosas, a vista da janela voltou a desimpedir-se, voltaram a pendurar-se os quadros e a cegonha-unicórnio desapareceu das nossas conversas. Por força de um silencioso acordo, o tempo suspendeu-se naquela casa imensa e voltaram a viver-se tempos felizes, de uma felicidade insensata mas intensa. A vida voltou a encher-se de rotinas herdadas da minha avó que as herdara da avó dela. As janelas abriam-se de manhãzinha «para deixar entra o ar», os tapetes batiam-se antes de acordarem «os meninos» e as portadas voltavam a fechar-se mal caía a noite. Os lençóis mudavam-se à Quarta e ao Sábado, sobre a mesa do almoço voltou a pontificar, imponente e vaidoso, sua eminência o Arroz Doce. Mas tudo não passou, já se vê, de um doce interlúdio. De um momento sensível e terno que, por breves instantes, fugiu da ordem inexorável do tempo e se apiedou de nós. Mas que, tal como estava escrito, se foi uma noite, pela simples razão que o incêndio tinha de ser. E deu lugar a um fumo muito mais fumo que alguma vez fora a cegonha-unicórnio.

Acho que dessa vez fui o primeiro a vê-lo. Numa noite de Junho em que a cidade inteira sufocava por baixo de um céu de chumbo. Dei por ele a despontar atrás do mesmíssimo armário do nosso quarto de rapazes. Também ele inocente a princípio, silencioso, quase frágil. Mas ao mesmo tempo com qualquer coisa de profundamente mais vigoroso e viril que o afastava, desde a concepção, da pobre cegonha derrotada pelas artes mágicas do inefável Fernando. Veio de noite. E vi-o a entranhar-se na memória do Rapaz e baralhar-lhe os sonhos. Vi, à medida que crescia e se tornava mais denso, desaparecer a minha roupa de rapaz e vi desaparecer a roupa do Rapaz. Vi desaparecer os soldados de chumbo e o velho frasco de esperança infantil que julgávamos perdido. Que eram dele, que tinham sido meus para voltarem a mim já depois de apagado o incêndio. Mas estou outra vez a fazer o tempo andar depressa demais. Vi-o, dizia, inundar o nosso quarto inteiro. Fui ficando sem ar como se o ar que faltava ao quarto me faltasse a mim também. Como se aquela nuvem negra de um negro mais negro que o negro da noite mais escura estivesse a fundir num único corpo o meu corpo de homem, o corpo do Rapaz e aquele quarto de onde se esvaía o resto da nossa meninice. Todos juntos num torresmo imenso feito granito, feito montanha. Vi-o e soube que tinha vindo para ficar. Que não haveria mais interlúdios. Que o tempo da ilusão e da esperança tinha acabado.

E naquele Verão previamente sonhado, o fumo voltou a invadir-nos as veias, voltou a fazê-las espessas e muito negras e voltou a encher de uma água muito escura e tépida todos os canos da casa. Ouvia-os ranger e ouvia o Rapaz chorar baixinho. Ouvia-o chorar uma dor imensa que era a dor da nossa casa. Ouvia-lhe as lágrimas espessas a correr para dentro para que «não te preocupes». «Não é nada e amanhã já passou». E eu ficava ali, deitado ao seu lado, tentando sentir a dor que era dele e era daquela casa mas sabendo que nunca poderia alcançá-la. Fingia dormir e fingia acreditar. E ele e a casa, para me consolar, faziam-se adormecidos e faziam-se crédulos. Mas o fumo crescia tão denso, tão espesso que era impossível dormir, muito menos ter fé.

À medida que a casa se enchia de fumo, à medida que as paredes se enchiam de fuligem, à medida que os móveis se cobriam de cinzas, a minha mãe redobrava de actividade. E com ela todo o seu exército de criadas, jardineiros, pintores e marceneiros arregimentados para uma operação de limpeza tão colossal quanto demente. Não que não soubesse que tamanho esforço era agora grotescamente inútil. Mas porque intuía que era esse o desejo mais profundo e ancestral daquelas paredes familiares. Queriam manter a sua dignidade de paredes limpas e caiadas até que o fogo consumisse as fundações doentes da casa e as derrubasse com estrépito. Até ao fim queriam manter-se paredes. E a minha mãe compreendia esse desejo profundamente humano que só as paredes de uma casa que foi feliz podem experimentar. E dava ordens, gritava, vociferava. E os móveis iam e vinham, as loiças saíam e voltavam a entrar dos armários, os quadros eram guardados para logo voltarem a ser içados. E todo aquele esforço parecia fazer-se matéria e confundia-se com o fumo a ponto de já ninguém saber dizer onde começava um e onde acabava outro.

O Verão veio e voltou a ir-se como todos os verões antes e depois desse. E com o Outono apareceram as primeiras labaredas. Invisíveis mas perversamente destruidoras. Eu tinha vivido, como ficou dito, aquele fumo inesquecível de que nunca mais esqueci o sabor a peste. Esse fumo cobarde e insidioso que apareceu feito bruma e se foi fazendo líquido espesso até tudo afogar. Mas foram as labaredas que me queimaram a alma. Foram essas cruéis labaredas intestinas que marcaram o sorriso do Rapaz com uma tristeza de cinzas. Foram elas que consumiram com uma lentidão e uma imobilidade sádicas a sua imagem de Cristo sorridente que guardava a alma da casa e que para a maioria de nós, durante aqueles doces meses de ilusão que antecederam o Verão, ainda significou uma última e enganadora esperança. Foram elas que vieram dizer-nos que Cristo não ri e foram elas que, pela primeira vez, fizeram a casa chorar. Com aqueles estalos de carvalho e aqueles gemidos de mármore que só uma casa antiga sabe chorar. Foram elas que por todo o lado espalharam uma dor pétrea e muda de tão indizível. Foram elas, paradoxalmente não foi o fogo. Porque o fogo, esse infinito cobarde, nem chegou a vir. Não engoliu a casa nem a desfez em cinzas. Não apagou a dor com uma dor mais lancinante numa combustão fulgurante e terminal. Nunca verdadeiramente se mostrou e o incêndio, propriamente dito, nunca chegou a ser. E nós, pais, irmãos e demais mortos familiares, dilacerados entre a certeza do fim e o doce prazer de viver mais uns dias à sombra daquela casa uterina, nunca desejámos que viesse. Suportámos, unidos num só corpo feito de pedra, sangue, madeira e vísceras, o crepitar manso das invisíveis labaredas por Outubro e Novembro adentro. Assistimos, extenuados, à lenta decadência daquela casa que fora o corpo e a memória da nossa meninice. Vimos o seu rosto fazer-se negro apesar dos carinhos insanos da minha mãe. Assistimos à combustão paralítica de cada móvel, de cada objecto, de cada história. Ouvimos o estalar de cada vidro, de cada saudade. Vimos inchar e vimos deformar-se cada artéria, cada veia, cada vaso daquelas paredes. E vimo-las desistir, uma atrás da outra, até que, numa tarde transparente de Dezembro, a casa deixou de pulsar por completo.

Eu nunca experimentara antes e nunca experimentei depois uma angústia e uma dor mais concretas. E até então não podia imaginar que a saudade se podia fazer de pedra.


Pedro Norton

Comentários a “A Casa do Rapaz de Veludo” (23)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Gostei muito, Pedro, às vezes gosta-se mais bem sem grandes explicações. Merci.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Pedro, gostei muitíssimo. Desta história, que dói do princípio ao fim. E da força, intensidade e beleza com que no-la contou. Parabéns.

  3. Vasco Grilo diz:

    Pedro. Um abraço.

  4. teresa conceição diz:

    Que história, Pedro. Fiquei virada para dentro, de comovida.
    Gostei muito.

  5. Renata diz:

    Escusado dizer q chorei do princípio ao fim. Está lindo. Obrigada.

  6. Isabel Lopo diz:

    Só você para lhe fazer uma homenagem tao bonita!Um Beijo

  7. Mª Amália Abrantes diz:

    Linda história, Pedro. Tão linda quanto triste!
    Pode ser pretensão minha mas sinto mm que também vivi nessa casa. Beijos

  8. Diogo Leote diz:

    Pedro… comovente. Grande abraço.

  9. José Navarro de Andrade diz:

    O que mais me impressiona é teres conseguido escrever assim sobre isto. Ser tão preciso e generoso, em cima de um vazio tão grande.

  10. pedro marta santos diz:

    As casas da nossa infância são gigantes que nos assombram a vida inteira.

  11. vitor abrantes diz:

    A casa de que o Pedro falou ainda o é. Eu ainda entro muitas vezes nela.

    Um grande abraço

    vitor

  12. Teresa Font diz:

    Que grande descoberta foi para mim esta página, entre farmvilles e outros que tais.
    E que bem que se escreve aqui.
    Obrigada,
    TF

  13. Patrícia Anahory Villarinho diz:

    Pedro, Querido Amigo, só agora soube e li esta maravilha. Gostava – Gosto — muito do Teu Rapaz de Veludo e gosto muito de ti. Obrigada por existires (apesar de ‘longe’).
    Revi-me, também, no meio do fumo, da saudade de pedra, da pedra da saudade… Um grande beijinho da tua sempre amiga, Pat

  14. Pedro Norton diz:

    Obrigado Patricia!

Comentar