
Kamrooz Aram, “Cryptic Summit”, 2007
O sr. Manuel Fonseca pilhou-me uma ideia que eu há muito acalentava. Evocar a ignorância das minhas íntimas e nunca declaradas intenções será por certo desculpa suficiente neste mundo repleto de factos observáveis, mas não o ilibará no meu tribunal subjectivo.
Por isso, façam o favor de ler este post antes do dele, porque essa é a ordem justa.
Como escreveu Frank Herbert na abertura de “Dune” (quem? onde?): “A beginning is the time for taking the most delicate care that the balances are correct.” Ou seja, um livro começa pelo princípio. Duas coisas podem espantar nesta frase: que haja alguém que tenha a lata de registar uma evidência tão pedestre e que haja quem escreva um livro esquecendo esta evidência tão pedestre. Sou capaz de jurar que a segunda é pior que a primeira.
O modo como a narrativa se desencadeia compele-me, a mim leitor instável, a seguir em frente ou a largar o volume logo ali. Às vezes é mesmo em pé na livraria que tomo a decisão, o que faço levando pouco em conta o respeito pelo nome do autor inscrito na capa: as coisas hão de valer por si, ou não. Se tiverem paciência para continuar, partilho convosco um punhado exemplos vividos e confirmados de livros que arriscaram prometer mundos e fundos logo na primeira frase e me compeliram a escolhê-los on the spot.
Tenho o prazer de vos comunicar que as restantes páginas não desmereceram os votos iniciais
“Naquele ano coube a Martinho Dias Nabasco acompanhar o que restava duma família numerosa e abastada, ao cemitério da terra natal.”
Agustina Bessa-Luís, “A Ronda da Noite”
“Partimos então no jipe, o Paulino e eu, a caminho de Opuho, na Namíbia, pela fronteira de Namacunde, Sta. Clara… Essa foi a primeira viagem… A que estou a fazer agora é a segunda. Vim de avião até Windhoek, aluguei um carro, cheguei a Outjo ao cair da tarde de ontem, vou aqui ficar uns dias, esta é a primeira manhã. Estou a escrever num desses famosos cadernos de capa preta, quer dizer, num caderno feito para durar, para caber tudo nele.”
Ruy Duarte de Carvalho, “as Paisagens Propícias”
Com o livro comprei também um moleskine
“Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços.”
Nuno Bragança, “A Noite e o Riso”
“A Eufémia Troncha catava-o, fingia estalinhos insecticidas, fazia-lhe com a unha titilações, atritos suaves no casco da coroa, inventava para o nutrir e inflamar carícias e guisados, surpreendia-lhe o apetite com fricassés muito aromáticos, tinha meiguices e candonguices duma donzela que afaga os pombinhos entre os seios virginais, decotava o corpete dos vestidos para lhe escaldar o sangue, fazia trejeitos lascivos de gata que se rebola escandecida nos telhados – uma cróia velha com muita experiência sublinhada.”
Camilo Castelo Branco, “A Corja”
Por fim, a abertura das aberturas que tem o romance todo numa frase (mais o filme):
“Last night I dreamt I went to Manderley again.”
Daphne du Maurier, “Rebecca”
















Beleza simples e simples beleza (não parece, mas estou a citar o Godard) é o que leio no começo do Herbert, da senhora dona Agustina e de Lady Daphne. Gostei muito, mas faz favor de instalar o S. entre nome e apelido, caso contrário meto-te um processo (ou uma providência cautelar, tanto faz).
Gostei muito, e muitíssimo da ilustração. O começo de ‘A corja’ é um fenómeno, parece um quadro da Paula Rego.
Fantásticos, JNA, este seu texto e os seus beginnings. E os pássaros sobre muito verde.
Só não gostei lá muito do seu grand final … E por um único e ruim motivo: é um dos meus absolutamente preferidos começos! Ora depois de ontem o MSF ter terminado, também em grande, com outro dos meus absolutamente preferidos, o início do Pride and Prejudice, estou a ficar em stress …
Vou mas é escrever o post sobre os lindos começos antes que me precludam mais outro …
Até mais logo …
«(…) antes que me precludam mais outro …».
As coisas que eu aprendo neste blogue!…
Precludam!
António, qual é o problema do precludam? Não me diga que não faz um bonito efeito … dramático, claro!