folhetim 11 — A Dor e o Nada

A Dor. É aterradora, violenta luz branca a torturar-me a sala da consciência. Desculpem se vos interrompo, acabou-se o narrador; sou, porque só eu posso contar a minha história, o narrador de mim mesmo. “Entre a dor e o nada”, digo, a pensar que a minha vida é um folhetim. E a Dor voltou. A Dor, som de uma bola de árvore de natal a cair, demente e lancinante. Vejo Sandeep a sair do carro, a correr como debaixo de fogo, na mata africana. E lembro-me. Lembro-me, porque a Dor voltou. Mansa, antes de ser violenta filha da puta. Estou lá em baixo caído a esvair-me em sangue, S. a segurar-me a cabeça e um Menino a dar-me beijos. Estou aqui em cima, a Dor atravessada na boca, nos dentes o ferro que põe o mundo a arder. Lá em baixo, não vejo, nem sinto, Nada; aqui em cima vejo-me, sinto a Dor e lembro, pela primeira vez lembro.

Francisco Xavier nasceu quando a mina rebentou e me rebentou todo. Ainda não sabia da Dor. E do Nada, nada sabia. Sabia de ti, Catarina, de te amar tanto que tive de te levar comigo. Um ano de casados quando a tropa me apanhou e comissão de combate em Angola. Estavas em Malange que era o mais perto que podias estar. No acampamento e no mato, Sandeep e eu fazíamos a guerra que queríamos fazer, a tentar que fosse o nosso o lado bom. Ele o indiano mais preto que conheço, eu a querer ser tão preto que conseguisse cheirar a catinga. A nossa guerra só seria a deles se nos fundíssemos com eles. Era a vez do Sandeep mas “Hoje vou eu no jipe da frente”, disse-lhe e ele riu-se, “Para dar sorte”. Fui e, agora que a Dor voltou, lembro-me: vejo fragmentos de mina e jipe a desfazerem-se no ar, o sopro da explosão, um vestido vermelho de chamas e eu, leve, leve, bola de árvore de natal, silenciosa, surda, suspensa antes de cair no abismo negro.

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Aquele que está ali na maca, sou eu. Ainda não estou morto. O capitão veio comigo no helicóptero. Há pouco percebi que quase chorou. Faz-se teso, homem a falar com os médicos. Desanuvia o horror com uma piada forte: “Ó doutor, foda-se, deste meu alferes agora é que se pode dizer que não vale um caralho”. E baixa a cabeça de vergonha, intranquilo.

Não morri, não se pode morrer quando a nossa missão é o mais infecto sofrimento. Acordei esquecido de mim, cabeça vazia, uma ferida vermelha entre as pernas. Desmembrado, lembrei-me: sou como Francisco Xavier, há um pedaço de mim que, de mão em mão e fiel defunto, anda por aí. Acordo outra vez, muitas vezes, aos berros no hospital militar: “Façam-me um relicário com as bolas e passeiem-me o membro, o decepado, em procissão”. No silêncio embaraçado da enfermaria, respondia-me o riso grotesco do Senhor.

É dois dedos abaixo do umbigo que começo a gostar muito mais de ti” dizias-me em Malange. E agora Catarina? Agora, sou Francisco Xavier, padroeiro dos meus relicários corpóreos e recuso a simples recordação do meu nome. Tinha um nome e não quero saber. Não quero, não consigo, não me interessa saber o nome que gritavas primeiro, antes dos pequenos roncos surdos, dos olhos tão fechados, dos dedos que me espetavas na carne, a anunciar que começavas a vir-te, a vir-te toda do tanto que gostavas de me foder, que te fodesse com tudo o que tinha dois dedos abaixo do umbigo. Plenitude, dizem. Alegria da carne, êxtase de músculos e ossos, um amor de magma, saliva e os cabrões dos beijos, chupados, loucos, de te arrancar o coração para dentro do meu peito. E agora estás aí, Sandeep ao teu lado, aos pés da cama de Francisco Xavier.

Vomitei rancor, raiva, revolta. A guerra que fiz, a tiro, à bomba, a fogo redentor, os mortos deles e os meus, comi-os, rasguei-os à dentada, meu alimento, só meu, contra os que não estiveram lá. “Crise de identidade” retorquiu o manhoso e fleumático psiquiatra. Estou aqui em cima, o meu outro corpo lá em baixo a levar beijos de um Menino, sinto a Dor e lembro-me. Vejo-me a agarrar o psiquiatra pelos colarinhos, estoiro-lhe a cabeça contra o vidro da janela, “Ah, filho da puta, cada tiro que dei nos cornos de um preto era a um branco como tu que eu queria matar. Matei-os para os livrar de ti, do teu cheiro de branco suado, das tuas falinhas mansas, da tua missa civilizada. Rebento-te os cornos e rebento-te o cu”. E penso que, afinal, não posso, não tenho como rebentar-lhe o cu, o que o riso grotesco do Senhor me confirma.

Pela tua mão, pelo meu pé, trouxeste-me de volta a casa. A tua abnegação dói-me. Só de pensar, dói-me também o Sandeep, “Meu irmão isto”, “Meu irmão aquilo”, a fingir que o mundo é uma manta confortável, que tudo passa e com tudo se vive. A vossa bondade dá frutos: dois dedos abaixo do umbigo, agora, só o pecado hediondo de uma existência antes da memória de ser. Os monstros são limalha incandescente na minha cabeça. Manipulo-vos, chantageio-vos, traio-vos para que me traiam. “Quero que tenhas os dois filhos que te prometi quando tinha o nome que não lembro.” Quero que os tenhas agora com o meu nome, Francisco Xavier, que não tos pode fazer. Reféns da vossa bondade, nem tu, nem Sandeep têm como recusar. Desta vez sou eu que estou aos pés da cama, reluzentes e tesas as ebúrneas nádegas empurram Sandeep para dentro de ti, e eu, Francisco Xavier, coroa de açucenas na cabeça, lírio na mão, aos pés da cama. Não gritas nenhum nome, só os pequenos roncos a anunciar o que sempre anunciaram, olhos imensamente abertos, um castelo a desfazer-se em cada uma das tuas íris verdes, o turbilhão e a nuvem de poeira a virem em direcção aos meus tão maus, tão magoados. Morri, morri sim, morri na cinza do teu olhar.

Fugi, fugi de mim, do meu mal e do mau que fico de estar ao pé de ti. Fugi, dizem, para procurar. Fugi, explico, para me perder. E agora, estou perdido entre dois corpos. Um lá em baixo, a cabeça reclinada no gordo regaço de S., a inútil azáfama de Sandeep a seu lado, e um Menino que só eu e S. vemos aos beijos na minha boca. O outro corpo aqui em cima, áscuas no peito, a Dor de me ver lá em baixo a sangrar, a Dor aqui em cima de me lembrar. Os beijos do Menino puxam-me para baixo. A boca dele, vulva rosa, quer, percebo, juntar-me. Repugna-me a energia áspera, atómica, do Menino. Prefiro o riso alarve, de água suja do Senhor. É o que trago nas veias, constelações do meu corpo. O corpo de baixo, o corpo de cima, entre a Dor e o Nada.

Fugi de mim, perdendo-me em tudo. No estuque ressurreccional dos conventos beneditinos, na fancaria mítica da Grécia, no patético esoterismo indiano, nos buracos selvagens, na devassidão de membros abertos, inventei-me Francisco Xavier. Inventei-me a orfandade, a morte dos meus pais vivos para na deles esconder a fuga aos dois filhos que tiveste, meus filhos que Sandeep te fez por cobrida procuração. Inventei que nem sequer meus pais eram, para esconder em tragédia de opereta a simples realidade de não serem meus os filhos que saíram da clareira obscura em que foi preciso ser outro a vir-se para que os tivesses.

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 Ontem á noite, Nova Iorque era uma cidade para o amor. Chegava do rio uma angústia nocturna. Deixei-me levar por essa falsa liberdade. Entrei no bar, a luz a queimar as paredes subreptícias, as mesas cheias, mãos nos bolsos a esconder a minha inquietação. A cantora negra abria e fechava os braços, a saia curta, as pernas jovens, alegres de serem tão novas, macias. Experimentei o esquecido sabor da ternura. As pernas da cantora comoveram-me. Aos olhos fechados voltaram-me imagens esquecidas. Há tanto tempo que não me queimava a polpa dos dedos. E das coxas firmes no palco, da saia que dela me devolve a redonda linha da nádega, chega-me o teu primeiro cheiro, Catarina, o perfume tão inocente do primeiro desejo, do lírico vulcão que me acendeste no peito, desse instante em que a eternidade era nossa e as mãos nos ardiam. As mãos nos bolsos, olhos espetados nas pernas jovens, caminhei até ao palco e, com a cantora, all i could was cry,  chorei.  Por um segundo, apenas um, deixei de ouvir o riso paquidérmico do Senhor. Disse: “preciso que voltes, Catarina, e que te vingues da vergonha deste fogo extinto.

Mesmo no vendaval do Vodka Room vi logo, vertigo que fosse, que eras tu. O cabelo loiro não disfarçava a memória da tua franja morena. Chamares-te Catherine e vires do Zimbabué não escondeu a forma como levas o dedo médio aos lábios e veladamente lhe acaricias a polpa com a língua. Só não sabia como, resignada, cumpririas a vingança, a redenção.

Agora sei, a bala que tenho a flutuar-me nos pulmões, diz-me. Os beijos do Menino desenharam-me na testa a pedra. Bem podias dizer, Senhor “És Pedro, e sobre esta pedra edificarei um reino de tormento e escuridão.” Sou Pedro e tenho de escolher entre a Dor e o Nada. Entre juntar ou separar o corpo de baixo e o corpo de cima. O Menino vai voltar a colar-se-me à boca num beijo, sedento da minha Dor. Penso, e é a última ironia: “Vai mas é beijar o caralho.” Abro a grande válvula da alma, o inferno que me sorva, escolho o Nada. Sou Pedro e nunca mais ouvirei a gargalhada obscena do Senhor.

The End

Comentários a “11 — A Dor e o Nada” (33)

  1. Pedro Norton diz:

    Fantástico! Eu sabia que o nosso Francisco Xavier ficava em boas mãos.

  2. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Manuel, meu querido Manuel, não sei o que dizer. Li tudo sem tempo, sem esforço. Muito bem escrito. Muito sentido. Mas muita raiva também. E muita raiva — sem deixar ver a tristeza em baixo dela: dez dedos acima do umbigo, transportando-se depois para o corpo todo.
    Tive um tio Francisco Xavier, morto na Guiné, por uma mina. Nunca o conheci. Morreu antes de eu ter nascido, pouco depois de nascer o seu segundo filho. Lembrei-me dele, no entanto, ao ler-te. Obrigado.

  3. Vasco Grilo diz:

    Manel, gostei muito de tudo e fiquei com tanta vontade de mais. Brilhante! Parabens!

    Nota: Sempre que vos apetecer dar mais uma volta no carrousel, contem comigo.

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Brutal, Manuel Fonseca! Gostei muito.

    Eu também vou no carrossel com o Vasco.

  5. Joana Vasconcelos diz:

    Fantástico, Manuel! Enough, às vezes, é mesmo enough! Acredito que o nosso Francisco Xavier terá finalmente encontrado, não o Nada, mas a Paz que tanto lhe faltou, na vida e na própria morte.

    Bora lá, Vasco, Eugénia, Demais Mortos, mais uma voltinha!!!

  6. teresa conceição diz:

    Tocou-me tanto, Manel.
    E logo agora que estou a caminho da Guiné.
    Foi um lindo presente.

    Portem-se bem até eu voltar :)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Boa viagem Teresa! Vai ficar completamente desligada? Ou consegue aparecer de vez em quando?

      • teresa conceição diz:

        Obrigada, Joana!

        Vai ser difícil ligar-me.
        Vou para os Bijagós, com muito trabalho entre ilhas.
        Se existirem geradores para os computadores, se a net funcionar, vou tentar.
        Vou ficar cheia de saudades e curiosidades.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Teresa, já vai? Não se desblogue. Faça boa viagem e tenha uma boa Páscoa.

  7. António Eça diz:

    Muito bom!
    Mas criaste-me um problema, Manuel: o de ter de ler tudo para trás — porque ainda não o fiz…
    Tenho um complexo preguiçoso que me diz para não ler aos bochechos uma coisa que pode ser lida por inteiro. Do género deixa para amanhã o que podes fazer hoje.
    E agora estou curioso, claro.

  8. Turmalina diz:

    Ah.…acabou.…mas foi de forma magistral, ou melhor, divinal, ou ainda celestial !!!

  9. pedro marta santos diz:

    Só tu, Manel, conseguirias coser e completar esta enorme manta de retalhos cósmicos, hieráticos e pagãos. E num estilo sem concessões, muito bem esgalhado. Vou só ali reler o “Trópico de Cancer” e já volto… Um abraço.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Pedro, matar um personagem é um trabalho sujo , mas alguém tinha de o fazer. Não vi outra maneira que não fosse, e atendendo a que é de Pedros que estamos a falar, começar pelo que menos falta lhe fizesse. A grande questão está agora em saber qual o apelido deste Pedro. Há neste blog, e como diria um amigo meu espanhol, “presuntos implicados”. Cabe-lhes pronunciar-se sobre a questão do capanço.

  10. Manuel S. Fonseca diz:

    Aos nossos queridos visitantes Luciana, Turmalina e Eça, protesto os meus agradecimentos por tanta gentileza.
    À Eugénia, Teresa, Joana, Pedros N & MS, Gonçalo, Vasco, mil perdões pela pouca-vergonha, desaforo, indecências e outros escândalos que ali em cima ficaram ditas com todas e tão sujas letras. Prometo poesia e violinos nos próximos posts.

  11. pedro marta santos diz:

    Como diria o meu velho amigo Paulo Armandino, que gere há anos o departamento de materiais da Leroy Merlin da Maia, “menos falta lhe fizesse, o caralho!” — reporto que estou, apenas, a manter-me na linha estilística do espantoso relato rítmico, manuelino, do capítulo final.

    Na viçosa masculinidade que, dissimulado, todos os dias planto neste blog — a linguagem do comentário, sei, é muito pior do que qualquer parágrafo de Michel Houellebecq — juro, jurado, que deste Pedro nada houve no final episódio “castrato” de Manuel Só Movo o Pescoço Fonseca.

    Resta um, só, apenas, o dos ignobeis posts hermafroditas. Surgirá?

    • Joana Vasconcelos diz:

      Primeira Negação de Pedro (Mc 14, 66–72, Mt 26, 69–75, Lc 22, 56–62, Jo 18, 15–18)

      A segunda não deve tardar …

      Noto que este blog começa a sintonizar com o espírito da época, ainda que por ínvios e tortuosos caminhos…

    • Pedro Norton diz:

      Quando Pedro fala de Pedro diz mais de Pedro do que de Pedro. Que é como quem diz: não foi a mim a que, à cautela, chamaram Marta.

  12. António Eça diz:

    Isto ainda vai acabar à estalada…

    • Pedro Norton diz:

      A culpa é do Manuel Tulius Detritus Fonseca. Mas neste blog ninguém anda à estalada. Prefiro passar por … aleijado, vá.

  13. pedro marta santos diz:

    O meu lado feminino regozija com os encómios. Conhecem a poesia de Caroline Norton? Aconselho a todos os Pedros. Vale a pena.

  14. pedro marta santos diz:

    Aleijados beberemos um santo espumante.

  15. pedro marta santos diz:

    …E Tulius Detritus, depois da bomba antónia de ontem, refugia-se no silêncio, o safado.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Venho esclarecer a douta opinião pública que nada tenho a ver com a controvérsia acima. Prova disso, aqui vos deixo votos de santa páscoa, esperando que o milagre da ressurreição possa propiciar, na hora do Juízo Final, o encontro dos Pedros com os respectivos apêndices. Cuidado com as trocas em todo o caso.

  16. António Eça diz:

    Mas o gajo que punha toda a gente verde e em zaragata não era o Caius, Caius Detritus? Assim maneirinho como o Manuel, sempre a espalhar veneno?…

  17. António Eça diz:

    BOA PÁSCOA A TODOS!!!!

  18. Diogo Leote diz:

    Manuel… mas que final sensacional! Tão perfeito, tão avassalador, tão brutal, que até poderia ser, só ele, o folhetim.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Brutal concordo se for de escrito à bruta! No mais, Diogo, agradeço a simpatia, cuja maior justificação, estou seguro, se deve ao facto de nos termos visto livres de Francisco Xavier, não do adorável santinho, está claro, embora tenhamos ficado com um grave problema para resolver entre dois dos membros (salvo seja) do blog. Estou em crer que vai ser preciso aconselhamento jurídico e passagem pela barrra. O que é que acha, Diogo?

  19. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Por mais que se afirmem mortos, não contem comigo para tentar recompor alguns dos membros deste blog. É que, como diz a Joana, até atendendo à época: e se lhes dá para ressuscitar!?

  20. antónio eça diz:

    Exacto, Gonçalo. Era o pi-pi-pi-alho!

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