folhetim 10 — Agora e na Hora da Nossa Morte

Seria esta a forma da morte? Seria este o cheiro da morte? Seria esta a cor da morte? Nada de túneis? Nada de ofuscantes luzes brancas? Nada de revisitar naquele último instante todos os instantes da vida? Onde estava aquele voo derradeiro? Aquele voo para olhar, à distância, o seu próprio corpo sem vida? Era isto, a morte? Um buraco fumegante a rasgar-lhe a cabeça e nem um assomo de dor? O mesmo corpo de sempre? A mesma alma maldita fazendo-se pequena, cada vez mais pequena, mas incapaz de libertar-se da prisão ainda quente que era aquele monte de vísceras que continuava a ser ele?

Francisco sentia-se mirrar a cada instante. Um mirrar singular, é certo. Porque o corpo continuava o mesmo. Arrefecia, fazia-se duro de tão amarelo, mas não perdia volume, não perdia tamanho. Era só ele, Francisco Xavier, que parecia fazer-se matéria dentro da própria matéria e que regredia para a mais absoluta profundidade do seu ser. Estava morto e nunca fora tão corpo. «Merda!». É isto a Morte?

Uma gota de água solta-se da raiz do Mundo e vem desfazer-se com toda a brutalidade do Génesis na sua testa ensanguentada. Depois outra. E mais outra. Grossas, negras, viscosas. Lá fora (fora do corpo? Fora de si?) o restaurante deixa inundar-se naquela escuridão aquosa e os gritos dos clientes, pouco a pouco, vão-se afogando numa massa única de indizível solidão. Escrevi restaurante? Não deveria ter escrito. Aquelas paredes que escorrem fuligem e sangue são – Francisco está absolutamente certo disso – as paredes da Igreja da Transfiguração de onde, em verdade vos digo, nunca chegou a sair.

«Duas vezes terás de morrer até encontrares o teu nome inteiro». É S. quem lhe segura a cabeça e é o menino, o menino fugido de Botticelli, quem o beija na fronte. Francisco está mudo. Imóvel. Feito corpo perdido no seu próprio corpo. A água primordial continua a chover.

«Tens medo?». Francisco quer dizer-lhe que sim. Que tem medo. Medo de não voltar a ver os filhos. Medo de nunca vir a saber de que foi feito o seu sangue. Medo de perder Catarina e de possuir Catherine. Mas está sufocado dentro de si e tudo o que ouve é a gargalhada obscena do Senhor. «Tens medo?» repete o menino. Mais uma gota, mais um riso alarve.

«Tens medo?». Desta vez é Sainte-Foi que, a um canto, esboça um sorriso trocista. A água negra e fétida chega-lhe à cintura e cala, ainda mais calada, toda a saudade do mundo. Francisco quer chorar mas no abismo visceral onde se deixou perder não há espaço para lágrimas. A saudade faz-se, ela também, corpo e matéria e é mais uma vez a grotesca gargalhada do Senhor que rasga o silêncio da Igreja.

«Tens medo?». Não há uma ponta de maldade na voz do menino. Mas do altar levanta-se agora um querubim num voo frenético, esse sim, todo feito de escárnio e troça. Os pelicanos aplaudem, histéricos. Todos peito, todos sangue. José de Arimateia sai do seu torpor milenar e vem boiar para o colo do Senhor. «Tens medo?». Mais risos, mais aplausos. E a chuva negra que não pára de se chover.

«Tens medo?» Que sim, que sim, está cheio de medo. Mas o pânico é todo silêncio e Francisco está perdido no labirinto do seu corpo afogado. «Tens medo?». O menino volta a beijá-lo e só então se faz simultaneamente Pai, Mãe e Caim e Abel – seus filhos. E o beijo cresce de escuro e, feito caranguejo, escreve-lhe na fronte o símbolo que é o seu nome antes de voltar a desaparecer em sangue. Durante alguns segundos tudo se faz nada e o Mundo deixa de girar. Até que o Senhor volta a estremecer, gordo, imenso. Com duas braçadas de paquiderme nada até ao altar. Um esforço de criação. E eis que se ergue daquela água escura e que as paredes voltam a crepitar naquele bzzzz estaladiço.

«O sacana do menino está a beijá-lo! De quem foi a ideia de trazê-lo cá para baixo? Perdemos o controlo desta merda! A puta da Babilónia está aí contigo? Diz-lhe que ligue ao Matuschek! Depressa!». Sandeep só teve tempo de travar a fundo.

Comentários a “10 — Agora e na Hora da Nossa Morte” (9)

  1. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Gostei!

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Amen! Fantástico o carrossel de sensações em que roda, corpo e mente, o pobre Francisco Xavier.
    E deliciosos os pormenores. Gostei especialmente das gotas de água negra e dos pelicanos histéricos…

  3. Turmalina diz:

    Muito, muito, muito bom e intenso. O último parágrafo ficou sensacional.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Pedro, você saiu-me um bom Pierrot le fou. Bem podia ter morto, de morte matada, o raio do Francisco. “Tens medo”, ó se tenho, um medo do caraças. O que é que eu lhe faço agora?!

  5. teresa conceição diz:

    Pedro, gostei muito. Da criação do ambiente e da respiração cinematográfica do texto. Vivi intensamente este bocadinho de filme.

    Manel, ía jurar que o tinha ouvido dizer que o último a escrever tinha a vida facilitada, era só agarrar as pontas e já está.

  6. vasco grilo diz:

    Manel, so’ ha’ uma saida. E’ telefonar ao Terry Gilliam e pedir-lhe um conselho de amigo. Afinal e’ chegada a hora de dar um sentido a’ vida ao nosso FX!

    Grande capitulo,Pedro Eco!

  7. Pedro Norton diz:

    Obrigado Turmalina, Joana, Teresa, (ladies first) Gonçalo, Manuel e Vasco. Ainda bem que gostaram e ainda bem que me emprestaram este Francisco Xavier. É divertida esta sensação de brincar aos Deuses. Mas a hora do Apocalipse aproxima-se e é o Manuel de por um mínimo de ordem neste colectivo delirio. Fica em boas mãos, o nosso Francisco!

  8. Pedro Norton diz:

    «é o Manuel que tem que por um minimo de ordem». O computador comeu-me as teclas.

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