Arquivo | Março de 2010


A cara e a coroa

Diz-lhe o Marquês de Soveral que era íntimo de D. Carlos e podia dar-se a estes à vontades: “Agora é que vai ser um fartote para os republicanos, a darem-lhe murros na cabeça para colar o selo”. Responde-lhe o monarca: “Mas primeiro vão ter que me lamber o cu.”

Néu

Começou com uma mensagem sobre o fundo azul do Facebook. E uma foto sua, que reconheço apenas. Depois, uma troca de palavras. Simpáticas. Abertas. Sorridentes. Não nos vemos há mais de 25 anos. Acho que andava na Turma C.

Hoje é pintora. Uma pintora daquelas que pinta quadros, apressou-se a esclarecer. Descobri que os pinta muito bem mesmo.

Gosto particularmente,

desta senhora que me chama,

by Néu Bebianno

deste piquenique à beira-rio,

by Néu Bebianno

deste confortável sofá em pele,

by Néu Bebianno

e desta janela para o mundo.

by Néu Bebianno


Anuncia-se exposição para breve.

Edifício sonoro

Afinal enganei-me e lá muito de vez em quando, o meu saudoso David Byrne ainda vai conseguindo fazer algo de original. Retiro por isso, algumas das coisas que disse aqui.

Volta David, que estás parcialmente desculpado!

Futebol no paraíso


o Caracol é o primeiro de pé, a contar da direita

o Caracol é o primeiro de pé, a contar da direita


Desejam saber porque motivo os três vezes mentirosos de Vila Nova da Rainha nunca mais voltaram a Vale do Paraíso a não ser um a um e a expresso convite?
Numa bela tarde primaveril de Domingo, no início dos anos 80, ia disputar-se o jogo de futebol entre o glorioso ADR e a turma do Vila Nova, a contar para o INATEL.
Naquele tempo não era compulsiva a presença de fardas no recinto, mas mesmo que fosse, tudo seria à mesma como foi, dado que os republicanos estão sempre mais dispostos a vigiar o assador de coiratos enquanto bebem umas mines sem álcool debaixo do telheiro do bufete, protegidos das ocorrências e da soalheira. Estava-se mais à vontade, portanto, e as mulheres assumiram a sua habitual posição estratégica atrás do guarda redes adversário para durante todo o jogo lhe relembrarem algumas curiosidades acerca da sua genealogia e da terra donde provinha.
O nosso central era o Caracol e se não era o mais fino jogador do planeta naquela posição, estou em condições de o propor como o mais resoluto. A sua enorme taxa de eficácia na solução das “ações atacantes adversárias” baseava-se num princípio singelo mas rigoroso: uma monumental biqueirada no esférico que num arco de triunfo se ia perder no meio das vinhas. Isto gerava invariavelmente duas reacções: a primeira era os velhos exclamarem “boa Caracol!” e maior honra não havia do que a aprovação daqueles sábios, alguns dos quais até já tinham estado no terceiro anel. A outra era o chilreio contente dos miúdos que se haviam posto ali de propósito para irem mil vezes à vinha procurar a bola e rematarem-na de volta.
Começou a partida e logo se viu pela sonsa disposição em campo e pelos modos patibulares com que atacavam a bola, o que pretendiam os de fora. Não passaram 5 minutos e a coisa turvou-se. O avançado deles desembestou numas fintas e em vez de se desviar da pata 44 do Caracol, como era de ciência certa entre todos os atletas das freguesias em redor, vai direito a ele e aplica-lhe uma cueca, deixando-o de perna alçada na atmosfera, após o que, com a sola da bota, dá um encosto mijadinho na pelota em direção à baliza. Nesta morava o Arménio Carreira que berrava muito mas tinha vergonha de se atirar ao chão para não se cagar, porquanto o esquentador da cabine era fraco e a ninguém apetecia duches de água fria.
Foi golo.
O pelado do ADR é uma caixa de fósforos e uma defesa de quatro homens em linha é um paredão compacto. Entrincheiraram-se os contrários durante a meia hora subsequente, rechaçando os nossos ataques cavalares com alívios irreflectidos e não poucas sarrafadas preventivas. A dado passo, o extremo do Vila Nova descarregou um chutão, obviamente para onde estava virado. Foi a bola direitinha à nossa caixa dos medicamentos. O impacto arrebentou os frascos de mercurocromo, o do álcool, o daquele linimento com um cheiro que parece um dedo a enfiar-se pelo nariz, e os de outros unguentos avulsos, ficando os fluidos todos misturados numa pomada vermelha. Uma bruta despesa, o que indignou o diretor/delegado/treinador/massagista do ADR. E a irritação propagou-se à multidão nas arquibancadas, ou seja, à malta que se juntava na beira da estrada rural paralela ao campo da bola.
Chegamos ao momento do jogo: numa disputa em que as canelas suscitam um interesse maior do que a bola, um besta deles atinge o nosso play maker, um rapaz crucial às evoluções táticas da equipa, pois chegava a conseguir três passes sem erro. Ei-lo a rebolar na poeira nas vascas da agonia, com o fito de comover o árbitro; eis que se aglomeram os jogadores à sua volta aos encontrões; eis que entra em campo o diretor/delegado/treinador, agora na qualidade de massagista; eis que, ao abrir a maleta, derrama a pasta vermelha no corpo do putativo moribundo.
Eis também que neste preciso momento aporta o Celestino à bandeirola de canto, vindo de passar a tarde a cegar uns tojos no campo e ainda descansando a foice no ombro. “Meu rico filho!” gritou, pois era o próprio filho quem via ali esticado no chão, coberto de sangue e rodeado pela matula forasteira a pontapeá-lo sem misericórdia. Foi o que ele disse que viu, mais tarde, no posto da guarda. E arremeteu uivando de foice em punho direito ao congresso de desportistas e atrás dele foi o povo, todos com puríssimas intenções conforme também declararam aos autos: uns para segurar o velho, outros para ver de perto o sinistro e outros para salvar o coiro das pedradas que entretanto começaram a voar.
Não foi nada disso que viram os poltrões de Vila Nova, pelo que resolveram zarpar de cena em pânico, à desfilada pelas vinhas fora, quebrando cepas e rasgando gavinhas, sempre a correr na direção do sol posto até à terra deles. Quando lá chegaram, esfacelados e rotos, tão grande foi o pavor que desorganizaram logo ali o clube só voltando a renascer o União, Desporto e Recreio de Vila Nova da Rainha já no séc. XXI.
Ainda hoje está no ADR, debaixo da vitrina das taças, um caixote de cartão com as roupas deles, à espera que as venham buscar.

folhetim 11 — A Dor e o Nada

A Dor. É aterradora, violenta luz branca a torturar-me a sala da consciência. Desculpem se vos interrompo, acabou-se o narrador; sou, porque só eu posso contar a minha história, o narrador de mim mesmo. “Entre a dor e o nada”, digo, a pensar que a minha vida é um folhetim. E a Dor voltou. A Dor, som de uma bola de árvore de natal a cair, demente e lancinante. Vejo Sandeep a sair do carro, a correr como debaixo de fogo, na mata africana. E lembro-me. Lembro-me, porque a Dor voltou. Mansa, antes de ser violenta filha da puta. Estou lá em baixo caído a esvair-me em sangue, S. a segurar-me a cabeça e um Menino a dar-me beijos. Estou aqui em cima, a Dor atravessada na boca, nos dentes o ferro que põe o mundo a arder. Lá em baixo, não vejo, nem sinto, Nada; aqui em cima vejo-me, sinto a Dor e lembro, pela primeira vez lembro.

Francisco Xavier nasceu quando a mina rebentou e me rebentou todo. Ainda não sabia da Dor. E do Nada, nada sabia. Sabia de ti, Catarina, de te amar tanto que tive de te levar comigo. Um ano de casados quando a tropa me apanhou e comissão de combate em Angola. Estavas em Malange que era o mais perto que podias estar. No acampamento e no mato, Sandeep e eu fazíamos a guerra que queríamos fazer, a tentar que fosse o nosso o lado bom. Ele o indiano mais preto que conheço, eu a querer ser tão preto que conseguisse cheirar a catinga. A nossa guerra só seria a deles se nos fundíssemos com eles. Era a vez do Sandeep mas “Hoje vou eu no jipe da frente”, disse-lhe e ele riu-se, “Para dar sorte”. Fui e, agora que a Dor voltou, lembro-me: vejo fragmentos de mina e jipe a desfazerem-se no ar, o sopro da explosão, um vestido vermelho de chamas e eu, leve, leve, bola de árvore de natal, silenciosa, surda, suspensa antes de cair no abismo negro.

 ****

Aquele que está ali na maca, sou eu. Ainda não estou morto. O capitão veio comigo no helicóptero. Há pouco percebi que quase chorou. Faz-se teso, homem a falar com os médicos. Desanuvia o horror com uma piada forte: “Ó doutor, foda-se, deste meu alferes agora é que se pode dizer que não vale um caralho”. E baixa a cabeça de vergonha, intranquilo.

Não morri, não se pode morrer quando a nossa missão é o mais infecto sofrimento. Acordei esquecido de mim, cabeça vazia, uma ferida vermelha entre as pernas. Desmembrado, lembrei-me: sou como Francisco Xavier, há um pedaço de mim que, de mão em mão e fiel defunto, anda por aí. Acordo outra vez, muitas vezes, aos berros no hospital militar: “Façam-me um relicário com as bolas e passeiem-me o membro, o decepado, em procissão”. No silêncio embaraçado da enfermaria, respondia-me o riso grotesco do Senhor.

É dois dedos abaixo do umbigo que começo a gostar muito mais de ti” dizias-me em Malange. E agora Catarina? Agora, sou Francisco Xavier, padroeiro dos meus relicários corpóreos e recuso a simples recordação do meu nome. Tinha um nome e não quero saber. Não quero, não consigo, não me interessa saber o nome que gritavas primeiro, antes dos pequenos roncos surdos, dos olhos tão fechados, dos dedos que me espetavas na carne, a anunciar que começavas a vir-te, a vir-te toda do tanto que gostavas de me foder, que te fodesse com tudo o que tinha dois dedos abaixo do umbigo. Plenitude, dizem. Alegria da carne, êxtase de músculos e ossos, um amor de magma, saliva e os cabrões dos beijos, chupados, loucos, de te arrancar o coração para dentro do meu peito. E agora estás aí, Sandeep ao teu lado, aos pés da cama de Francisco Xavier.

Vomitei rancor, raiva, revolta. A guerra que fiz, a tiro, à bomba, a fogo redentor, os mortos deles e os meus, comi-os, rasguei-os à dentada, meu alimento, só meu, contra os que não estiveram lá. “Crise de identidade” retorquiu o manhoso e fleumático psiquiatra. Estou aqui em cima, o meu outro corpo lá em baixo a levar beijos de um Menino, sinto a Dor e lembro-me. Vejo-me a agarrar o psiquiatra pelos colarinhos, estoiro-lhe a cabeça contra o vidro da janela, “Ah, filho da puta, cada tiro que dei nos cornos de um preto era a um branco como tu que eu queria matar. Matei-os para os livrar de ti, do teu cheiro de branco suado, das tuas falinhas mansas, da tua missa civilizada. Rebento-te os cornos e rebento-te o cu”. E penso que, afinal, não posso, não tenho como rebentar-lhe o cu, o que o riso grotesco do Senhor me confirma.

Pela tua mão, pelo meu pé, trouxeste-me de volta a casa. A tua abnegação dói-me. Só de pensar, dói-me também o Sandeep, “Meu irmão isto”, “Meu irmão aquilo”, a fingir que o mundo é uma manta confortável, que tudo passa e com tudo se vive. A vossa bondade dá frutos: dois dedos abaixo do umbigo, agora, só o pecado hediondo de uma existência antes da memória de ser. Os monstros são limalha incandescente na minha cabeça. Manipulo-vos, chantageio-vos, traio-vos para que me traiam. “Quero que tenhas os dois filhos que te prometi quando tinha o nome que não lembro.” Quero que os tenhas agora com o meu nome, Francisco Xavier, que não tos pode fazer. Reféns da vossa bondade, nem tu, nem Sandeep têm como recusar. Desta vez sou eu que estou aos pés da cama, reluzentes e tesas as ebúrneas nádegas empurram Sandeep para dentro de ti, e eu, Francisco Xavier, coroa de açucenas na cabeça, lírio na mão, aos pés da cama. Não gritas nenhum nome, só os pequenos roncos a anunciar o que sempre anunciaram, olhos imensamente abertos, um castelo a desfazer-se em cada uma das tuas íris verdes, o turbilhão e a nuvem de poeira a virem em direcção aos meus tão maus, tão magoados. Morri, morri sim, morri na cinza do teu olhar.

Fugi, fugi de mim, do meu mal e do mau que fico de estar ao pé de ti. Fugi, dizem, para procurar. Fugi, explico, para me perder. E agora, estou perdido entre dois corpos. Um lá em baixo, a cabeça reclinada no gordo regaço de S., a inútil azáfama de Sandeep a seu lado, e um Menino que só eu e S. vemos aos beijos na minha boca. O outro corpo aqui em cima, áscuas no peito, a Dor de me ver lá em baixo a sangrar, a Dor aqui em cima de me lembrar. Os beijos do Menino puxam-me para baixo. A boca dele, vulva rosa, quer, percebo, juntar-me. Repugna-me a energia áspera, atómica, do Menino. Prefiro o riso alarve, de água suja do Senhor. É o que trago nas veias, constelações do meu corpo. O corpo de baixo, o corpo de cima, entre a Dor e o Nada.

Fugi de mim, perdendo-me em tudo. No estuque ressurreccional dos conventos beneditinos, na fancaria mítica da Grécia, no patético esoterismo indiano, nos buracos selvagens, na devassidão de membros abertos, inventei-me Francisco Xavier. Inventei-me a orfandade, a morte dos meus pais vivos para na deles esconder a fuga aos dois filhos que tiveste, meus filhos que Sandeep te fez por cobrida procuração. Inventei que nem sequer meus pais eram, para esconder em tragédia de opereta a simples realidade de não serem meus os filhos que saíram da clareira obscura em que foi preciso ser outro a vir-se para que os tivesses.

 ****

 Ontem á noite, Nova Iorque era uma cidade para o amor. Chegava do rio uma angústia nocturna. Deixei-me levar por essa falsa liberdade. Entrei no bar, a luz a queimar as paredes subreptícias, as mesas cheias, mãos nos bolsos a esconder a minha inquietação. A cantora negra abria e fechava os braços, a saia curta, as pernas jovens, alegres de serem tão novas, macias. Experimentei o esquecido sabor da ternura. As pernas da cantora comoveram-me. Aos olhos fechados voltaram-me imagens esquecidas. Há tanto tempo que não me queimava a polpa dos dedos. E das coxas firmes no palco, da saia que dela me devolve a redonda linha da nádega, chega-me o teu primeiro cheiro, Catarina, o perfume tão inocente do primeiro desejo, do lírico vulcão que me acendeste no peito, desse instante em que a eternidade era nossa e as mãos nos ardiam. As mãos nos bolsos, olhos espetados nas pernas jovens, caminhei até ao palco e, com a cantora, all i could was cry,  chorei.  Por um segundo, apenas um, deixei de ouvir o riso paquidérmico do Senhor. Disse: “preciso que voltes, Catarina, e que te vingues da vergonha deste fogo extinto.

Mesmo no vendaval do Vodka Room vi logo, vertigo que fosse, que eras tu. O cabelo loiro não disfarçava a memória da tua franja morena. Chamares-te Catherine e vires do Zimbabué não escondeu a forma como levas o dedo médio aos lábios e veladamente lhe acaricias a polpa com a língua. Só não sabia como, resignada, cumpririas a vingança, a redenção.

Agora sei, a bala que tenho a flutuar-me nos pulmões, diz-me. Os beijos do Menino desenharam-me na testa a pedra. Bem podias dizer, Senhor “És Pedro, e sobre esta pedra edificarei um reino de tormento e escuridão.” Sou Pedro e tenho de escolher entre a Dor e o Nada. Entre juntar ou separar o corpo de baixo e o corpo de cima. O Menino vai voltar a colar-se-me à boca num beijo, sedento da minha Dor. Penso, e é a última ironia: “Vai mas é beijar o caralho.” Abro a grande válvula da alma, o inferno que me sorva, escolho o Nada. Sou Pedro e nunca mais ouvirei a gargalhada obscena do Senhor.

The End

O fim do folhetim: preview

Se um dia destes for na rua e alguém me perguntar, “Diga lá porque é que gosta do seu blog?”, já tenho algumas boas razões para dar como resposta. Porque tem um cemitério de queridos mortos, é a primeira. Porque as autoras são muito lindas e ainda mais talentosas, porque os autores são mais educados e cavalheiros do que um aristocrata do século XIX, porque há posts do Brasil, de Boston, de Milão, de Cabo Verde, da Sardenha, da Guiné, de Hong Kong. Gosto muito porque os leitores podem fazer tudo, comentar, corrigir os autores, até escrever posts por vezes. E gosto ainda mais porque a confiança é tão grande que às vezes um post se converte num chat e fica ali uma multidão em conversas de meia-noite, o que inclui saudosas College Reunions.
Estas originalidades, e devo estar a esquecer-me de outras, não fazendo mal nenhum porque a seguir já me corrigem, tiveram durante as últimas dez semanas a companhia de um folhetim. Começou com o episódio “O Caçador do Tempo” da Eugénia e teve no passado sábado, escrito pelo Pedro N, o décimo, com o sugestivo título “Agora e na Hora da Nossa Morte”. Digam lá quantos blogs é que têm um folhetim colectivo, ah?
Pois bem, o folhetim vai acabar. Cabe-me a mim juntar as pontas, o que farei esta noite, antes das 8 para não estragarmos o negócio às televisões. Recordo que o folhetim tem seguido o périplo de Francisco Xavier, um homem que perdeu a sua identidade. Francisco, nome que o protagonista sabe não ser o seu, é ou foi casado com Catarina, de quem terá tido 2 filhos, e na busca obsessiva do nome parece ter descoberto que talvez não seja filho dos seus putativos pais. O melhor amigo de Francisco é Sandeep, embora não saibamos onde e como se conheceram e o que forjou a devoção que um ao outro dedicam. O périplo de Francisco na busca de si mesmo situa-o, no primeiro episódio, na Índia, fazendo-o seguir depois para a Grécia e para Nova Iorque. Sabemos que viveu em Lisboa e há referências subreptícias a eventual passagem dele por Angola e pela cidade de Malange.
Em Nova Iorque e durante um jantar com uma linda loira, Francisco acaba de levar um tiro. Jaz no chão, exangue mas ainda quente. Há batalhas no céu por ele. O carro de Sandeep travou agora mesmo, a fundo, à porta do restaurante. Vai começar o último capítulo, avisando-se as almas sensíveis de que a linguagem é chã e o que se vai ver não é nada bonito. Então, até já e não digam que não avisei.

Kreisler


“Aqui está encerrada el alma de .….”

A 10 de Novembro de 1910, no Queen’s Hall, London a London Philharmonic Society estreou o Concerto para Violino de Edward Elgar. O próprio Elgar dirigiu a orquestra e o solista foi o lendário Fritz Kreisler. O concerto tinha sido prometido a Kreisler, anos antes quando o violinista o pediu a Elgar, e é dedicado a ele. A estreia, com os dois em palco, foi um sucesso.

Apesar de ser o seu instrumento de formação, Elgar não ousou publicar nenhum concerto para violino antes de se tornar um compositor de relevo, mas em 1910 Elgar era já considerado como o maior compositor britânico da época. No entanto, quando escreveu este concerto, já não mais tocava o violino.

Há algumas semanas, tive a oportunidade de ver Nicolaj Znaider na Boston Symphony tocar este concerto. Apesar de já ter ouvido bastantes obras sinfónicas, não me sinto minimamente qualificado para descrever ou qualificar o concerto. Limito-me a dizer que foi uma actuação formidável de um concerto belíssimo — embora não tenha desalojado do primeiro lugar da minha lista de concertos para violino o de Brahms. Impressionante e estremecedor foi também o facto de Znaider ter tocado com o Guarnerius del Gesù de 1741, “ex-Kreisler”, o mesmo usado pelo próprio Fritz Kreisler na estreia de 1910.

[1] A fotografia é de outro Guarneri, o “Kreisler”, ca. 1730 — Library of Congress
[2] Violin Concerto in B minor, Opus 61 — Programa do Concerto — Boston Symphony Orchestra

No gesto de espanto, o nome

Edward Hooper, Rooms By The Sea, 1951

 

 

 

 

Teu Nome

 

 

o que diz a palavra à palavra

o que diz o teu nome

o que declina sílaba a sílaba

a sibila e lê minha sorte

e depois some

 

submersa no oceano

a distância sem fim

que nos separa

toca a areia fina

os pés de alga

como se apara

no gesto de espanto

o nome, as exatas sílabas, a iara

 

que tanto mais cobre

de água o que antes

era seco como passa

alva duna em semi-lua

óxido sobre cobre

 

se diz o teu nome

o teu nome só diz

pelas correntes

do mar oceano

e repete e rediz

mas nunca se descobre

 

o nome que me guiava

entre bredos de praia

escamas de camurupim

mercearia em cintra

pátios de gaudí

canoa em camocim

letra ao giz sobre lousa verde

 

o teu nome

o teu nome de guerra

que antes era:

 

 

 

* * *

O vilão que há em mim

Confesso que cheguei a duvidar da minha sanidade mental, pouco depois da estreia de Natural Born Killers nas salas de cinema, corria o ano de 1994. Ver o filme três vezes em menos de duas semanas é registo que pode assustar qualquer um.   Quando já ponderava a ida ao “psi”, eis que a raiz do mal se apresenta clara a meus olhos, com o nome do argumentista maldito que deu a Oliver Stone aquele que, para mim, é o mais irresistível casal de vilões (com o devido respeito por Bonnie e Clyde) que o Cinema produziu: Mickey e Mallory Knox. Sim, se em certo momento senti crescer o vilão que havia em mim, o grande culpado foi Quentin Tarantino, com aqueles diálogos que criou para os arrasadores Woddy Harrelson e Juliette Lewis. Como explicar a alguém de bom senso o júbilo que experimentava com a euforia assassina de Mickey e Mallory? Como conseguir conter a falta de pudor em querer estar do lado deles, mandando às malvas a noção de bem e mal que julgava ter solidamente incrustada em mim?

A dezasseis anos de distância, depois de bem enterrados Mickey e Mallory, já não me pesa a consciência pela minha deriva por terras do mal. Encontrei até uma forma de explicar àqueles que não passaram pelo mesmo o encantamento pelo killer instinct da dupla. Dou-lhes com a fabulosa banda sonora do filme e com a cena do casamento improvisado na ponte. Como ninguém fica indiferente nem a uma nem a outra, absolvem-me logo do meu pecado.

 

Muitos vilões depois – e alguns memoráveis e também de Tarantino como a parelha (outra) Vega/Winnfield (Travolta/Samuel L.Jackson) de Pulp Fiction e o culto, sofisticado e poliglota Coronel Hans Lada (na magistral interpretação de Christoph Waltz) de Inglorious Basterds – já só ambiciono, em matéria de patifarias, chegar aos cinquentas e dedicar-me a umas brincadeiras em estações de caminho de ferro e em cemitérios (nada de confusões com o nosso). Como na segunda adolescência dos caros Amici Miei Ugo Tognazzi, Phillippe Noiret e Adolfo Celi. O que eu gostava, com a idade deles, de me divertir assim.

 

 

P.S. E, agora que já se faz tarde, diz-nos então, meu caro Francisco, onde moram os teus heróis e vilões.

Cruza!

Ruy de Vasconcelos, o nosso Jardel, aquele que voava entre os centrais, fez-me lembrar uma história verídica, passada nos anos oitenta do futebol de salão nortenho, actividade oficial e federada (antes das modernices do futsal), num pavilhão desportivo dos arredores de Guimarães:

O jogo está perto do fim, o cérebro do meio-campo de uma das equipas ganha a bola e o mais expedito dos atletas do seu time, um tal Rogério de barriga já uns centímetros à frente do resto do corpo torneado, lança-se em louca correria pelo flanco direito, pronto a receber o passe perfeito para salvadora finalização. “Cruza!”, grita, “Cruza!”, para que o Platini de Pevidém lhe entregue o esférico rumo à glória, “Cruza!”, sempre com o pescoço torcido para trás, a fitar o Platini enquanto corre desalmado, “Cruza, caralho!”, e bate com a testa na parede do fundo do pavilhão.

Rogério teve que ser assistido por um adversário, enfermeiro no hospital de Braga.

Esperemos que tal desgraça nunca aconteça ao nosso ponta de lança, predador africano da grande área, Manuel Saviola Fonseca.


Fotografia

Não é nada que já não tenhamos visto quando nos olhamos ao espelho. Mas, às vezes, vale a pena deixar que sejam outros a fazer-nos a fotografia. Podem ver aqui o resultado. E os lindos traços são estes:
Os portugueses não estão tão mal como os gregos e a degradação real da economia portuguesa não causa, apesar de tudo, pânico no mercado: a dívida é menos pesada, 90% do PIB contra os 123% da Grécia.
E sim, Portugal já está a fazer reformas. Cortámos na despesa (?), segurança social e reformas, dizem. Ah, e temos serviços estatísticos que merecem a credibilidade da comunidade internacional. Nenhuma esperança é no crescimento: olham para nós e dizem que não temos competitividade, que somos demasiado dependentes da exportação para a vizinha Espanha e que o endividamento das famílias (105% do PIB) e das empresas (134% do PIB) é inquietante. Olham para nós e não acreditam na retoma da procura interna ou dos investimentos. Fazem-nos a fotografia, olham para nós e não acreditam. Nem mesmo em 2013.

ps — Imperdoável. Não disse, mas digo agora: a extraordinária fotografia é, evidentemente, de Gerard Castello Lopes. Mais fotografias aqui.

Tuva #2

Afinal a Joana Vasconcelos sabe cantar. E como canta. Consegue cantar contemporaneamente, não uma, mas quatro notas de cada vez. Usa uma técnica muitíssimo complexa e antiga, que só os habitantes de Tuva e da alta Mongólia são capazes de executar.

Aqui fica uma exibição do seu amigo e mentor, o gargântico, Kongar ol Ondar.