
Este texto não saberá honrar com a devida qualidade as duas figuras a que me propus destacar neste nosso cemitério ideal. Não os honrará devidamente porque não os conheci em profundidade, porque no fundo não sei quem foram. Não os honrará com a devida imparcialidade porque o que me resta é a profunda e íntima marca que cravaram em mim. Um foi assassinado em 1995, o outro em 2003. E se ambos foram removidos da existência física antes do devido tempo, certo será que os dois tiveram uma vida cheia, com amplo tempo para moldarem o mundo segundo os seus ideais.
Não os conheço. De Rabin sabia dos seus esforços para a paz com a Palestina, do aperto de mão e do prémio Nobel. De Vieira de Mello, o consulado como administrador de Timor pela ONU, com o cheirinho da língua de Camões e o charme de um galã de Hollywood. Não sabia que Rabin fora duas vezes primeiro-ministro israelita e que depois do primeiro mandato se demitiu de presidente do Labour e se absteve de uma recandidatura após ter sido tornado público que a sua mulher tinha uma conta em dólares. Não sabia que tinha sido ele a comandar as forças israelitas nas mais importantes e decisivas batalhas daquela país. Vieira de Mello ficou com uma marca na cabeça, ao levar uma bastonada em Paris, no Maio de 68, foi intermediário nas negociações com os Khmer Vermelhos e correu meio mundo a tentar apagar fogos de crise humanitárias.
E no entanto não foram santos. Rabin teve mão de ferro na resposta à primeira Intifada e Vieira de Mello terá tido muitas das falhas humanas de um charmoso e burocráticas de um funcionário público do mundo. Nenhum homem é santo; pelo menos a tempo inteiro.
Disse que não os iria honrar devidamente, em parte porque o sentimento que tenho é o da imagem que em mim criaram. O de homens bons a lutar por uma boa causa, a tornar o mundo um lugar um pouco melhor. O de homens bons assassinados por aqueles que tentavam ajudar, por fundamentalistas. Um morreu em 1995, quando tinha treze anos, antes de ter conhecido o que era a morte de alguém próximo. O outro morreu em 2003, já eu tinha mais de vinte e amplamente familiar com o desaparecimento daqueles de quem gostamos. A morte destes dois homens, ou da imagem destes dois homens, deixou em mim o mesmo vazio que a partida de um familiar. É estranho, um pouco ridículo até; e no entanto foi o que senti.
Francisco Feijó Delgado

















Acho que conhecemos todos essa estranheza que nos faz um pouco ridículos até. A minha chama-se Churchill, às vezes penso nele como se fosse um dos meus mortos.
Um ponto de vista interessante, Francisco.
Gostei muito do texto.
Francisco, gostei muito da sua escolha e do seu texto. Porque tocam num ponto que me choca especialmente – a morte violenta daqueles que se dedicam a construir a paz. Horrorizaram-me os assassinatos de Ytzhak Rabin e de Sérgio Vieira de Mello, de que fala, do irmão Roger (de Taizé), mais recente, do Mahatma Ghandi, ainda nós dois não tínhamos nascido, entre tantos outros. Pela absurda e incompreensível brutalidade que representam. Diz-se que those who live by the sword shall perish by the sword. Que a violência atrai sempre mais violência. Mas nestes casos era justamente o contrário …
Francisco, curiosamente estava em Boston quando vi na televisão a notícia da morte de Rabin. Boa gente que devia estar viva, aquela de que falas aqui.…..
No te lo iba a preguntar, pero lo he nodtao. Esta letra, en mi opinif3n, es incluso mejor que la otra.A lo que iba. Cuando te pregunte9 si en tu trabajo ibas a entrevistarte con japoneses, ya sabeda que encontrarse a alguna iba a ser complicado, y que seguramente los que me1s habreda seredan marroquedes, franceses (vecinos) o de los paedses del este de Europa.No se como este1 la situacif3n alled en Tokyo, sobre lo de una estancia de corto/medio plazo, pero sabeda que lo que te ibas a encontrar aqued era bastante me1s diferente.Japf3n y Espaf1a son dos paedses muy diferentes.