
Onde é que foi? No Chiado, Tejo em baixo, ou no Porto, Santa Catarina? Sei que tinha parado de chover, o sol aberto aquecia o primeiro dia de Fevereiro e a esplêndida menina tentava, entre de e como, mover o coração materno. O que disse pareceu-me quase clássica literatura que nenhum Plano Nacional de Leitura deveria desdenhar. Humilde, reproduzo:
«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu coração?
— Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher que tem amigas com vestidos de seda.

















Isso é romance, Manuel!
Eu sei Turmalina! Mas que raio de coisa é a vida que não esse ou outro romance?
Liiiindo! Mas, MSF, é preciso matizar. Mesmo nesta hipótese quase académica de tão redutora, tudo vai verdadeiramente do número dos vestidos … Eu diria que tende a ser feliz uma mulher com um vestido 36 a 38 — seja de que tecido for — mesmo que tenha amigas com vestidos de seda 44 a 46. E que estas de bom grado trocariam a seda pelo resto. Naturalmente que a hipótese inversa será mais complicada. Mas lá diz o povo, mais vale rico e com saúde, que pobre e doente …
Manuel, também tenho uma história engraçada com uma expressão que ouvi no Porto, de um marido para a mulher, que olhava a montra de uma loja. Mas terá que ficar para um jantar, que aqui não a posso contar.
Gonçalo, bora aí, vamos lá marcar que a vai uma grande fome neste Cemitério.
Joana,
Pormenores de fita métrica e balança vai de ter de os discutir com o romancista e o romancista não sou eu. Quem será? Turmalina, Joana, querem ajudar-me a decifrar o mistério? Eugénia, Teresa, posso contar convosco? Mr. Orcama, Monsieur Eça? Caros bloggers de tão bom coração, quem será?
Mas como, Manuel de Seda Fonseca, se o Grande Camilo é Gente Morta?
Joana, assim não vale, arrumou o Grande Desafio em 5 segundos. Ando eu para aqui a esforçar-me…
Ah, era o CCB? Então a sena deverá ter-se passado mais para as bandas de Cedofeita…
Prendada Afilhada, pela Páscoa terá confeitos…
Pardon: cena s.f.f.
MSF, eu confesso: recorri à providencial intercessão de São Google, que nunca me deixa sem resposta
Padrinho, a sua bênção, antes de mais. Parecem-me bem os confeitos, embora eu prefira chocolate (sem ser o dos ovos). Eu lhe farei chegar o raminho, no apropriado domingo.
Joana, batota?! Vai ser camilianamente castigada, de cabeça, coração e estômago. Ah, vai, vai.
Pois, pois
E onde está o regulamento a dizer que não se podia recorrer a todos os meios disponíveis, ao domingo e a esta hora? E onde está a norma do aludido regulamento que diz que em caso de batota una o castigo é camiliano e triplo? Tudo isto me parece muito irregular. Para
Tenho direito mas é a um prémio! E não tarda a uma indemnização, pela ansiedade que as suas ameaças me provocam.
Cara Joana Vasconcelos,
Acaso desconhece as Ordenações “Manuelinas” e o seu artº último: em caso de dúvida aplica-se o artº 1º: O Chefe tem sempre razão.
Estimado Padrinho, não fora essa sua qualidade e mais a veneração que ela me impõe e eu dir-lhe-ia que suspeito que as ditas Ordenações há muito não vigoram entre nós e que o Manuel a quem peertencem, embora igualmente Soberano, era, acho, outro. Mas não o farei.
Apenas lhe peço que interceda em meu favor junto do punitivo MSF. Visto que confessei, mereço atenuante. Porque o castigo é, diz ele, camiliano, parece-me justo o degredo — Seychelles, Ilhas gregas, uma coisa assim. Onde não chova.
PS — Fui cuscar aquele site de onde tirou o Grande Desafio e gostei muito!
Esteja descansada que farei proposta que ele não poderá recusar, se bem me entende… Mas apenas Ilhas Gregas ou Maldivas, para ficar mais perto da acção do Folhetim… e só de lá houver internet banda larga. Sim, não será com o meu concurso que irá subtrair-se do nosso convívio sem as devidas garantias. :)
Entretanto deixo-lhe aqui outro poema de António Jacinto, na voz dolente de Ruy Mingas:
http://www.youtube.com/watch?v=f7CPHC0hZHA
Belíssimos! Gostei de tudo — do poema, da interpretação e do vídeo. Fantástico o contraste entre as impressionantes imagens e as bagas vermelhas, tão bonitas. Aquilo é café? E o que quer dizer monangmbé?
O Grande Desafio
Antônio Jacinto
Naquele tempo
A gente punha despreocupadamente os livros no chão
ali mesmo naquele largo — areal batidos dos caminhos passados
os mesmos trilhos de escravidões
onde hoje passa a avenida luminosamente grande
e com uma bola de meia
bem forrada de rede
bem dura de borracha roubada às borracheiras do Neves
em alegre folguedo, entremeando caçambulas
… a gente fazia um desafio…
O Antoninho
Filho desse senhor Moreira da taberna
Era o capitão
E nos chamava de ó pá,
Agora virou doutor
(cajinjeiro como nos tempos antigos)
passa, passa que nem cumprimenta
– doutor não conhece preto da escola.
O Zeca guarda-redes
(pópilas, era cada mergulho!
Aí rapage — gritava em delírio a garotada)
Hoje joga num clube da Baixa
Já foi a Moçambique e no Congo
Dizem que ele vai ir em Lisboa
Já não vem no Musseque
Esqueceu mesmo a tia Chiminha que lhe criou de pequenino
nunca mais voltou nos bailes de Don´Ana, nunca mais
Vai no Sportingue, no Restauração
outras vezes no choupal
que tem quitatas brancas
Mas eu lembro sempre o Zeca pequenino
O nosso saudoso guarda-redes!
Tinha também
tinha também o Velhinho, o Mascote, O Kamauindo…
– Coitado do Kamauindo!
Anda lá na casa da Reclusão
(desesperado deu com duas chapadas na cara
do senhor chefe
naquele dia em que lhe prendeu e lhe disparatou a mãe);
– O Velhinho vive com a Ingrata
drama de todos os dias
A Ingrata vai nos brancos receber dinheiro
E traz pro Velhinho beber;
– E o Mascote? Que é feito do Mascote?
– Ouvi dizer que foi lá em S. Tomé como contratado.
É verdade, e o Zé?
Que é feito, que é feito?
Aquele rapaz tinha cada finta!
Hum… deixa só!
Quando ele pegava com a bola ninguém lhe agarrava
vertiginosamente até na baliza.
E o Venâncio? O meio-homem pequenino
que roubava mangas e os lápis nas carteiras?
Fraquito da fome constante
quando apanhava um pinhão chorava logo!
Agora parece que anda lixado
Lixado com doença no peito.
Nunca mais! Nunca mais!
Tempo da minha descuidada meninice, nunca mais!…
Era bom aquele tempo
era boa a vida a fugir da escola a trepar aos cajueiros
a roubar os doceiros e as quitandeiras
às caçambulas:
Atresa! Ninguém! Ninguém!
tinha sabor emocionante de aventura
as fugas aos polícias
às velhas dos quintais que pulávamos
Vamos fazer escolha, vamos fazer escolha
… e a gente fazia um desafio…
Oh, como eu gostava!
Eu gostava qualquer dia
de voltar a fazer medição com o Zeca
o guarda-redes da Baixa que não conhece mais a gente
escolhia o Velhinho, o Mascote, o Kamauindo, o Zé
o Venâncio, e o António até
e íamos fazer um desafio como antigamente!
Ah, como eu gostava…
Mas talvez um dia
quando as buganvílias alegremente florirem
quando as bimbas entoarem hinos de madrugada nos capinzais
quando a sombra das mulembeiras for mais boa
quando todos os que isoladamente padecemos
nos encontrarmos iguais como antigamente
talvez a gente ponha
as dores, as humilhações , os medos
desesperadamente no chão
no largo — areal batido de caminhos passados
os mesmos trilhos de escravidões
onde passa a avenida que ao sol ardente alcatroamos
e unidos nas ânsia, nas aventuras, nas esperanças
vamos então fazer um grande desafio…
Fonte: betogomes.sites.uol.com.br
Grande desafio Mr. Orcama. Eu joguei, esse mesmo, muitas vezes e voltei sempre nas farras de donana. E voltava agora mesmo. Joguei de pulas contra bumbos, meninos contra cachicos, de todos irmãos da vilalice contra os da vilaclotilde. E em São Domingos levámos 9 a 0 do musseque. E, a mais jovem estreia de sempre em amadores a pagar, marquei o penalty de 11 a 1 contra os betinhos da baixa que um dia vieram aos maristas: bola para um lado guarda redes para outro, e o jogo acabou porque eles se sentiram humilhados. E eu gostei e gostava: das palmas das quitatas . dos risos delas distraídos e sempre a pensarem noutra coisa que não era a coisa em que nós estávamos a pensar. Sempre?
Penitencio-me pelo longo espaço ocupado pelo poema. Todos os do A. Jacinto são longos. Mas desta não resisti. Com a alusão ao Grande Desafio, não me contive. Ainda bem que despertou entusiásticas recordações. Eu previa. E quanto às quitatas, embora de risadas distraídas tinham olhos camaleónicos… especialmente para marcadores de penalties…
“…que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.” Do poeta brasileiro Manoel de Barros
Encantamento este observado somente nas poesias e romances. O que uma mulher repara nas outras, mais até do que os homens, são as medidas, não importando se for na chita ou na seda…aí a matemática é cruel.…
E quanto ao glamour dos vestidos , acho que começou lá por volta de 1600 com a fábula de Charles Perrault, ou ainda num conto chinês de 860 A.C., sobre a borralheira que desejava ir ao baile do castelo. Do que adiantaria uma sapatinho de cristal sem um vestido de acordo?
Oh Turmalina,
Eu não me atreveria a afirmar que os homens não reparam assim tanto nas medidas. Seres práticos observam precisamente cada centímetro e respectivas proporções. Valorizam pois, mais o conteúdo do que o continente…
J. L. Borges diz: “Creio que as mulheres dão demasiada importância às coisas fúteis e superficiais, e sobretudo a elas mesmas. Julgam as coisas uma por uma e além disso receiam fazer sempre um mau papel.” in Biografia verbal.
Caro Orcama, mas em nenhum momento pensei que vocês não reparassem nas medidas femininas…é que os homens podem até perdoar uns centímetros à mais aqui ou ali mas as mulheres não, são implacáveis no julgamento alheio e pior ainda elas mesmas. E cá entre nós acho que os homens preferem a experimentação à observação.
Eu, como muitas leitoras daqui, já passei da idade de dar tantos tratos à bola. Já me distancio um bocado da mulher de Borges, mas confesso que já fui fútil assim aos 15 anos.
Os homens não perdoam é uns centímetros a menos.