Um polvo é uma bicheza um bocadinho medonha, um bocadinho viscosa e muito feia — aqui está bem explicada a anatomia do animal. Se fosse gigantone, eu teria medo dele. Depois, é preciso ver que o danado, por conta de tanto braço e de deslargar tinta para ludibriar os seus perseguidores, presta-se à metáfora politicocriminosa e assins. Está a pensar no mesmo que eu, aposto, em… La Piovra, que é máfia em italiano de minisérie, e coisas no estrangeiro muito longe. Não?! Ó. Que espanto. O polvo metafórico é um bicho que se relaciona mal com outro bicho, porém utópico, o jornalismo de informação. No entanto, tem uma relação de codependência perversa com outra animalidade, desta feita, mitológica: a Hidra de Lerna que, toda gente sabe, tem um monte de cabeças que não pensam, apenas reproduzem o que a central cabeça dissemina, os tais dos mitos de desinformção que tanto podem servir ao, como destruir o, polvo. Em Lilliput, por exemplo, usa-se muito:
— agarra o Primeiro que é maricas, não fez o curso, é ladrão de outlet, asfixiou a MMG, e falou num restaurante!
— agarra a TVI que está a ofender o Primeiro!
— agarro já na Golden Share que é para veres quem manda…
— agarra-te ao jornal, que é quem manda e vê, mas é, se lês o segredo de justiça.
— deslarga o telemóvel que sai tudo em papel químico indestrutível e na primeira página!
— agarrem-nos a todos!, que eu não tenho liberdade de expressão… JÁ DISSE QUE NÃO TENHO LIBERDADE EXPRESSÃO! JÁ ESCREVI QUE NÃO TENHO LIBERDADE DE EXPRESSÃO! Ó DA GUARDA, PULHAS, DESLARGUEM-ME A LÍNGUA QUE ME QUERO EXPRESSAR!
Mais coisa menos coisa. Posto isto, vamos ao que do polvo interessa:
Vá ao mercado. À banca onde costuma comprar o belo peixinho. Compre uma dessas criaturas piovras, fresca, aí de 2 ou 3 quilos. Peça à senhora para limpar porque já chega de porcaria. Vá para casa. Já chegou? Passe a bicheza por água corrente. Jogue 3 dedos de água, um caldo Knorr e a própria da bicheza na panela de pressão durante 40 minutos, give or take. Não é pouca água não, não se arme em criativo que a piovra deita água que se farta. Num tabuleiro de ir ao forno, ponha um fundo de azeite e uma fartura de alhos esmagados. Barre o abuso do poder político, perdão, o polvo com massa de pimentão*, pimenta preta, pimenta branca, alho em pó, uma colher de café, de açúcar. E uma ou duas conchas da água da cozedura. Forno com ele. De vez em quando, regue-o com o próprio caldo. Vire uma, duas vezes. Quando comprou o polvo comprou batatinhas novas de tamanho médio pequeno? E porque é que não comprou? Ah, porque é orientada, tinha-as em casa. Então, não havia porque comprar mais. Muito bem, não quero cá desperdícios. Lave a batatas, com casca, em água corrente, até mais não. Coza as cabeças da Hidra, quer dizer, as batatas, com casca, em água e sal. Não pode deixar que cozam um segundo a mais. A menos, sim. Deve. Mas não é só uma entaladela. Retire-as e escorra-as. Dê-lhes uma trolitada leve com o martelo de cozinha. O suficiente para lhes abrir as cabeças a ver se lhes entra o juízo em falta. Faça uma fritura rápida em óleo bem quente – exactamente igual à das batatas fritas, mas com menos tempo. Escorra –lhes todo o óleo e passe-as por papel absorvente. Pique finamente alho fresco e salsa, deite sobre a parte aberta das batatinhas ajuizadas e regue com um fio de azeite. Sirva com o polvo. Coma tudo para ser um lindo menino inteligente. Se for menina, é linda e inteligente de certeza.
* A massa de pimentão que se vende no supermercado, não vale nada. Compre num mercado, de preferência numa localidade pequena, onde os próprios que a produzem, a comercializam. Ou então faça você mesma uma quantidade maluca, congele, e vá usando.
** Não, não me esqueci do sal: entre o próprio do animal, a massa de pimentão e o Knorr, fica comme il fault.
*** Estas batatinhas também vão lindamente com bacalhau assado no forno.


















:)
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Ps: é uma estreia sinalética. Estou uma modernaça. Qualquer dia escrevo K em vez de que.
Divino!!!
E me fez lembrar de um feriado na praia…
Depois de um dia inteiro de pescaria, trouxeram-nos um polvo enorme.O detalhe principal é que minha cunhada não tinha panela de pressão lá. Passsado o lanche da tarde com a casa cheia e as crianças devorando tudo pela frente, fui para cozinha cuidar do pobre animal. Lavei-o de cabo à rabo, diversas vezes, tirando toda mínima areia de suas ventosas.Ele foi para o panelão lá pelas 20:30h.Passou uma hora, duas, três…todo mundo indo dormir e eu e a cunhada lá firmes, tentando vencer a dureza do polvo pelo cansaço.Enquanto isso a jogatina de cartas corria solta para aplacar o sono.Já era de madrugada quando ele amoleceu.O bicho foi servido no almoço do dia seguinte com molho vinagrete e muito cheiro verde.Não sobrou um tentáculo para contar a história :o)
Saladinha de polvo é muito bom. Por aqui acrescentamos à vinagrete, batatinha cozida em pedacinhos pequeninos e, às vezes, alho fresco picado.
Cara Eugénia de Vasconcellos, que mais hercúleos trabalhos tem na sua agenda? fico curioso.
Garante que não provoca indigestão? Entrego-me nas suas mãos… Lá vou eu também banquetear-me com o octópode…
Distante Turmalina: o “polvo” daqui é mais duro de roer… e tende a saltar da panela para fora…
Caro Orcama…por aqui também encontramos esses outros “polvos” difíceis de digerir…aquele até que era peixe pequeno…rss.…
Tem razão, Turmalina, é bicho que dá em todas as costas.
Caro Orcama de Amacro,
As batatinhas, tem razão, dão algum trabalho, mas nada de especial, é mais atenção que outra coisa.
Nenhuma indigestão, e é fácil de fazer e saboroso de comer.
Eugénia, gostei da sua receita swiftiana. O alho fresco e salsa são originalidade nossa.
Merci, Manuel Fonseca. Lilliput pode ser tentacular, mas come-se benzinho por lá.
Estava a ver que ninguém falava da salsa, imprescindível no molho verde.
Aqui temos uma versão do inteligentíssimo e versátil cefalópode assado no forno de lenha com arroz do mesmo — coisa divinal, muito bem tratado no restaurante Veleiros, ao Cabo do Mundo. Aliás, ali tudo é bom.
Muito aconselhável a quem não conhece.
(;D)-|–O<
Nem pergunto…
… não queria estragar a coisa (é a deusa a brilhar, imparável e pantagruélica), mas tenho de falar nisso, sorry…
Além da criatividade (beleza!) do supra espraiado, além da maravilha que é um pitéu destes (é, é…), há o coiso. O animalzinho…
E este, soube pela bendita-danada da ‘National Geographic’, é inteligentíssimo. É curioso e vivaço, tem um sentido de humor especial (brincou às escondidas! — eu vi!!) e acha piada a interagir com os humanos!!!
(sim, também fiquei para morrer…)
Pronto.
A modos que estraguei tudo.
Para mim, sim (snif…)
Ponho-me a pensar na bicheza vivinha-da-silva e toda feliz e fico como o pano da paixão.
É que não tarda, nem sequer vegetariana!
Já li um estudo sobre as couves em que… bem, OK, vou-me embora…
snif…
Margarida, console-se: nós também somos inteligentes, temos sentido de humor e, se calhar, somos as galinhas, vacas, polvos, couves e bacalhaus dos vírus.
Eu sabia que o polvo era espertinho, agora que a couve chorava baba e ranho no caldo verde!…
Olha se um dia me dá a melancolia do bacalhau! Estou tramado.
Nunca me dá a melancolia da vitela quando estou a comer o belo bife do lombo. Mas gosto de ver as lindas vacas e bois no pasto.