Uma short, uma very short story, aliás.
Insónia em Puducherry, 2009

Fotografia de Pedro Norton*

Estava ali de pé, encostado à janela, de frente para alegria do sorriso da actriz do poster publicitário, de olhos postos nos seus, refulgente de ouro e vermelho sangue cheio de vida como se fosse preciso anunciá-la grande e impressiva: esta é a vida. À direita, na rua, ela sim, vida, decorria sem sequer dar por ele, numa mínima escala porque espreitada do alto e para lá da encenação que usa dos símbolos para representar — pois, fazer presente — tudo o que lhe falta, e devolvendo-lhe a sua exacta dimensão no lugar das coisas, pela média do que estava à sua esquerda e à  sua direita. Tela. Carne. O ar condicionado tinha tido vontade própria, gelada, desligado, assim, pela janela aberta entrava noite  quente cheia dos passos comuns que a habitavam lá fora, e o eco deles. Quente. Sentou-se no extremo inferior da cama, pousou os cotovelos nas coxas, já próximos dos joelhos, as duas mãos a segurar, do próprio rosto, o sono que não se deixava adormecer, criança excitada. O colchão, mole, cedeu. Na beira desconfortável, como as pessoas que usam só a pontinha das cadeiras porque se sentam com jeito de quem pede desculpa, nem notou o desconforto, ele não, encostava-se  para trás, mas ali, à beira, igual aos outros que a pediam. Desculpa porquê? Da janela entreaberta via agora só a estrutura que suportava o outdoor: o avesso da rapariga jovem de felicidade, iluminava para dentro da insónia infantil. O avesso. Desculpa porquê? Pensou com voz clara. A rapariga risonha do cartaz, apetecia dançá-la, ou ir de mãos dadas. Ir. Na penumbra  húmida de calor, a respiração profunda da mulher deitada sobre o lado, a sua, elevava um mínimo o braço dobrado sobre o peito e o ombro. E novamente os baixava. Os dedos tocavam na alça fina da t-shirt lilás quase escondida pelas pontas dos cabelos claros.  O avesso iluminava para dentro.  As raparigas risonhas dos cartazes, quando entristecem, a vontade é resgatá-las e levá-las para onde o riso se ouça.

 

* indecentemente rapinada aqui.

Comentários a “Uma short, uma very short story, aliás.” (9)

  1. Pedro Norton diz:

    Fico muito honrado com a indecente rapinadela.

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Vá lá, sempre é melhor do que arracnar-me as minhas lindas orelhas.

  3. Orcama diz:

    …e que que despêro. Uma no outdoor, lá em cima, desejada e imperscrutável, outra possível na noite quente, mas dormindo… Vou vestir-me e perder-me na vida e no riso da rua de todos os resgates…

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Mas todas as mulheres dormindo, um dia foram a desejada e imperscrutável — que raio de palavra indizível, Orcama!, enrola-se na língua duma pessoa -, n‘est ce pas? Resta saber porque desceram do outdoor.

  4. António Eça diz:

    Um dia e por vezes vários. Então quando se tem horário doméstico de guarda-nocturno e mulher-a-dias, como já me aconteceu…
    E afinal despêro é o quê? Falta de pêro? Terá o pêro fugido sem dizer nada? Desespero por falta de pêro não me parece razoável.
    Um enigma!, caro Orcama.

    • Orcama diz:

      Ora eça meu caro António. Despêro foi o que me aconteceu entre uma impossibilidade e uma improbabilidade. Ainda bem que apareceu aqui pela rua de todos os engates, perdão, resgates. Venha daí ver que pêro nos aparece. Se não, até pode acontecer encontrarmos alguém conhecido de câmara fotográfica na mão, fixando os risos da noite quente…

  5. Turmalina diz:

    E quando entristece a mulher deitada ao lado? Seria possível levá-la para onde o riso se ouça?
    Mais uma vez, sendo extremamente repetitiva, digo que são lindas suas palavras, tão tristes e tão lindas…

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