- Fotografia de Pedro Norton*
UM DIA, O MUNDO
Um dia, vi num tapete a árvore, disseram-me, da vida, toda em floração e, contra natura, em simultâneo fruto, doce fruto, provado ao alto por duas aves do paraíso, um tapete bordado para a oração, disseram-me, e eu acreditei que debaixo dos joelhos, em cada ponto, se construíam as vontades mundo, perfeita árvore contra natura. Um dia, o mundo foi um tapete de oração que eu pisava: uma rua com chão em cubinhos de pedra calcária, branca azul vermelha, bem assentes debaixo dos pés, podia-se caminhar sobre ele, mundo, uma oração. A cada passo abria-se, da geométrica e bem calcetada ordem, a germinação do futuro bordado, e quente, ao fundo, a terra escura, na humidade, exalava o desejo dele futuro. Às vezes, mesmo os pássaros abriam as asas e nem a arrumação apertada das pedras lhes continha o voo. Às vezes, até as caravelas enfunadas pelos passos, os pássaros adiante, aqueles pássaros rebeldes de pedras voadas, cheios de destino, e nem o apertado das pedras continha o caminho delas adiante: caravelas carruagens puxadas por pássaros abriam a cada passo o desenho da geométrica ordem até ao futuro bordado do mundo. Um dia, o futuro. As mãos pequeninas dão-se às mãos grandes dos pais, bem medida a palma contra a palma, tanto muito de diferença por crescer, um dia, mãos grandes iguais não se dão a ninguém, um dia, o mundo as mesmas pedras, mas encardidas pela pressa, nenhum voo entre as aves presas, nenhum caminho: caravelas de cenário pisado. E das montras de vidros altos, já só espreitam manequins, ninguém faz adeus porque ninguém parte para plantar uma árvore contra natura onde dois pássaros, sobre as quatro estações, vivam.
* prova da reincidência na rapinagem aqui — mea culpa, mea culpa e lailailai..


















Excelente escrita.Eugénia a cerzideira.
Obrigada, Maria.
Cerzir, e eu nunca o tinha pensado, é talvez a mais adequada descrição do objectivo de quem escreve: que não se vejam as costuras do texto. É difícil encontrar tempo certo, vertido no ritmo, reduzir as palavras até que sobrem as justas, dizer o máximo escrevendo o mínimo. Gosto muito de escrever textos onde as palavras se organizem de forma a reproduzir a estrutura da deriva dos pensamentos em confluência com o exterior. Às vezes corre bem. Outras ainda não.
Entre um alinhavo e outro percebe-se o ritmo e a coesão num casamento perfeito…que vai nos levando como que pelas mãos…
Merci, Turmalina.
Não me ocorre nada que mereça ser dito, mas gostei do texto e do comentário ao comentário.
Outras ainda não. É exactamente esse o sentido que os angolanos dão ao desconseguir.
Obrigada, Orcama, fico contente.
Então, eu que erro para um dia acertar, erro angolanamente, desconseguindo. Gosto da leveza.
EV, já lhe disse,pode rapinar à vontade. O menino (?) jesus agradece a companhia do seu texto. gostei muito.
Creio que rapinarei, PN. Obrigada por consentir.
Eu gosto de fotografia. De fotografia objectivamente diferente: da que interpela, da revela, da que se impõe. Nestas, gosto do diálogo com: tentei fazê-lo com o Araki.
Das poucas fotografias que conheço suas, gosto muito, são outra coisa distinta daquilo que conhecia, são intensamente narrativas.
Gosto tanto, quando me ausento por uns tempos, de regressar e ter assim um texto-quadro para olhar e ficar a flutuar em cada canto e só depois começar em queda livre com todas as palavras a amparar-me uma a uma todas juntas.
Teresa, não me diga coisas assim bonitas que sou muito mariquinhas!
(Obrigada, fiquei contente.)