Aqui vai, Pedro, tarde e a más horas:
1 — Hunger, Steve McQueen, 2008: um filme sobre as consequências da Fé na mente e, sobretudo, no corpo (neste caso, a fé num ideário tão justo – o combate pela independência da Irlanda do Norte – como de métodos e recursos inomináveis – a luta armada do IRA).
2 — Letter From an Unknown Woman, Max Ophuls, 1948: uma das obras-primas do imperador dos travellings.
3 — Seven Chances, Buster Keaton, 1925: mais um delírio visionário, matematicamente encenado, de um dos grandes artistas do século XX.
4 — Lat den ratte komma in (Let the Right One In), Tomas Alfredson, 2008: a surpresa, e a fita que “Twilight” gostaria de ter sido (mas se o fosse, lá se perdiam 200 milhões de espectadores).
5 — Gran Torino, Clint Eastwood, 2008: ainda há mais alguma coisa a dizer sobre o senhor Eastwood?
6 — Culloden, Peter Watkins, 1964: a batalha do derradeiro sonho de auto-determinação dos highlanders escoceses contra as tropas britânicas do Duque de Cumberland, filmada como um documentário televisivo dirigido a quatro mãos por Robert Capa e W. Eugene Smith. Magnífico.
7 — Once, John Carney, 2006: o melhor musical – doce e intimista – dos últimos anos.
8 — Redbelt, David Mamet, 2008: um grande filme sobre o mais mametiano dos temas: a identidade no labirinto ético.
9 — Standard operating Procedure, Errol Morris, 2007: Abu Ghraib pelo autor de “The Thin Blue Line” e “The Fog of War”.
10 — Un Conte de Noel, Arnaud Desplechin, 2008: uma vertiginosa visão familiar, surpreendente no realizador do chatíssimo e largamente incompreensível (e incensado pela crítica portuguesa) “Rois et Reine”.
11 — Hard Candy, David Slade, 2005: e se a vítima virasse predador? Com a maior revelação feminina do cinema americano dos últimos anos, Ellen Page.
12 — Entre les Murs, Laurent Cantet, 2008: a escola como príncipio – ou fim – da civilização.
13 — The Mist, Frank Darabont, 2008: um filme inclemente, com epílogo de fazer gelar o sangue, por um cineasta habitualmente bondoso (“The Shawshank Redemption”).
14 — Be Kind Rewind, Michel Gondry, 2008: depois de “Eternal Sunshine of the Spotless Mind” – para mim, um dos filmes da década – novo triunfo de Gondry (que prefiro a Spike Jonze).
15 — The Big Knife, Robert Aldrich, 1955: foto a preto e branco (mas com todas as gamas de cinzento) de Hollywood, poderosamente actual.
16 — L’ Avocat de la Terreur, Barbet Schroeder, 2007: visita à mente de uma das personagens mais sinistras – e fascinantes – da França da segunda metade do século, Jacques Vergès, o advogado de defesa de, entre outros, Djamila Bouhired, Klaus Barbie e Carlos, o “Chacal”.
17 — Petulia, Richard Lester, 1968: esquecido pelas “Histórias” do Cinema, do excelentíssimo Richard Lester, é o filme que Godard gostaria de ter dirigido nos States mas nunca foi capaz de fazer.
18 — Il giardino dei Finzi Contini, Vittorio De Sica, 1970: datado, de extrema melancolia, continua, a espaços, belo como os ciprestes de Rada in Chianti.
19 — Thieves’ Highway, Jules Dassin, 1949: nunca tinha visto, e só pecou por chegar tarde. É melhor do que o “They Drive By Night” de Raoul Walsh (baseado nos mesmos textos de A. I. Bezzerides e muito mais “cotado”).
20 — Le Fantôme de la Liberté, Luis Buñuel, 1974: ninguém foi independente e libertário no seu ataque à burguesia como Buñuel (talvez Pasolini, mas os talentos não se comparavam).
21 — Frailty, Bill Paxton, 2001: um grande thriller psicológico, à moda antiga, com visita angustiante pela infância, do actor habitual de James Cameron e Kathryn Bigelow.
22 — El Aura, Fábian Bielinsky, 2005: outro thriller, desta vez existencial, poderosamente ritualista, por um dos melhores realizadores argentinos.
23 — Peter & the Wolf, Suzie Templeton, 2006: a clássica fábula – e a clássica peça de Prokofiev – numa animação dramática em stop-motion.
24 — Scaramouche, George Sidney, 1952: um dos meus filmes de aventuras preferidos, embriagado pelo optimismo coreográfico tão próprio a George Sidney. E tem Eleanor Parker…
25 — Peter Ibbetson, Henry Hathaway, 1935: um filme visceralmente surrealista, o que é raríssimo. A modesta descoberta do ano.
26 — Interview, Steve Buscemi, 2007: a verdade da mentira, a partir de uma peça holandesa de Theodor Holman, num “remake” do filme assinado por… Theo van Gogh.
27 –Lancelot du Lac, Robert Bresson, 1974: Bresson no seu ascetismo esmagador, onde cada palavra é a queda de um reino (e a ruína de um coração).
28 — Two Lovers, James Gray, 2008: “Little Odessa”, a primeira fita de Gray, continua a ser a melhor, mas esta história de aprendizagem das amarguras do amor relança-o no bom caminho.
29 — Mrs. Miniver, William Wyler, 1942: o discurso final do padre, com o sol a entrar pelo tecto da igreja em ruínas, foi mandado traduzir para alemão por Churchill, impresso em panfletos e lançado sobre as terras do Reich como demonstração do inabalável espírito britânico.
30 — I’m a Cyborg but that´s OK, Chan-wook Park, 2006: De um romantismo por vezes caótico, mas os filmes de Park são sempre de visitar.
30 — My Enemy’s Enemy, Kevin MacDonald, 2007: Quem era Barbie, o carniceiro de Lyon? Uma resposta metódica, sem maniqueísmos.
30 — Boarding Gate, Olivier Assayas, 2007: confesso que não é grande coisa mas – vá lá saber-se porquê – gosto de tudo que Assayas faz.
And that’s it.


















Tks Pedro! Amazon, here I go!
ps: o teu nº2 está, para não exagerar, no meu top 10 de sempre.