Todos os cineastas que não foram formados na escola do “plano fixo” de Ozu, Dreyer, Bresson, Oliveira e outros (como Haneke e Shyamalan, fiquei a saber pelo mestre PMS), perseguem o travelling perfeito. Num passado ainda não muito distante, em que a película ditava leis, a perfeição era, para muitos, sinónimo de minutos, de tantos minutos quantos a bobine permitisse sem um único corte na imagem. E, de preferência sem os truques que Hichcock, em resultado das limitações técnicas impostas pela duração de cada take, foi obrigado a usar em 1948 em The Rope nos mais longos (ainda que dissimulados) planos-sequência até então vistos no cinema. Para outros, o travelling de sonho significava simplesmente ultrapassar obstáculos aparentemente intransponíveis pela câmara. Como em dois dos mais prodigiosos momentos da História do Cinema: os três minutos iniciais de Orson Welles em Touch Of Evil (1958) e os sete minutos finais de Michelangelo Antonioni em Profissão: Repórter (1974). Ora vejam como, no caso de Welles, a câmara percorre um quarteirão inteiro sem trabalho de montagem, subindo e descendo edifícios até, e, em Antonioni (numa cena que demorou onze dias a concluir), sai pela grade de uma janela sem que se perceba bem como (eu sei mas não digo), vagueia por uma praça para depois voltar à janela. Claro que, numa e noutra cena, só podia mesmo acabar tudo em gente morta.
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Russian Ark foi filmado num único take.
Penso que devia incluir o sublime travelling final de Providence na sua lista.