Top Cat and the Italian piano player

Smalls Jazz Club. W 10th Street, New York City.

Este é um verdadeiro “Village joint”. Uma porta discreta, uma escada a pique. Um bar corrido à direita, 6 filas de cadeiras díspares, um pequeno palco elevado. Um piano à esquerda. Uma fotografia de Louis Armstrong na parede do fundo. Muito pouco espaço. No Smoking.

Aqui fui trazido pela primeira vez pelo meu amigo Fernando. Recordo que na altura não se serviam bebidas alcoólicas. Por lá, passaram entre tantos outros, Lee Konitz e Bill Saxton, mas também Slide Hampton, Jonathan Voltzok, Sam Barsh, David Budway e Spike Wilner. Se conheço os primeiros, não faço ideia quem sejam os últimos. Podem ser todos músicos famosos e editados, mas se o leitor conhece algum deles, tiro-lhe o chapéu. No “Smalls” tocam famosos e anónimos alike. Geralmente, durante o ultimo set do programa, os ditos anónimos começam a chegar com os seus instrumentos. Chegam encasacados e discretos. Por vezes vergados pelo peso do contrabaixo ou dos pratos da bateria. São eles os músicos que animarão o resto da noite. Conhecem-se e vão-se chamando ao palco alternadamente em longas sessões de improviso que podem ir até às pequenas horas da manhã. The real deal.

No passado Sábado, dia 23 de Janeiro, tocou o Harry Allen  e o seu Quartet. O line-up da banda era este: Tenor Sax: Harry Allen, Piano: Rossano Sportiello, Contrabaixo: Joel Forbes, Bateria: Chuck Riggs. Tocaram bem e muito. Originais e Standards. Ouvi e gostei muito.

Entre sets, fumando um cigarro cá fora, sentado num banco ao lado do porteiro, indago sobre a proveniência do pianista. Com um nome destes não me parece que seja um Italo-Americano de Brooklyn. Milaaan! — responde o porteiro lentamente, debaixo de uma enorme boina basca. Não resisto e voltando para baixo espero o final da actuação para o conhecer. Não só é um talento especializado em Dixieland, como é simpático, coisa que é rara num Milanês. Por pura cortesia elogia o meu Italiano. Já não consegue imaginar viver em Milão. Corrige-se. Não consegue sequer imaginar viver num sítio que não seja Nova Iorque. E confirma as minhas suspeitas. Em Milão não há um local decente onde ir ouvir Jazz de qualidade. A meio da conversa junta-se este senhor. Um verdadeiro Top Cat. Fala-se do ambiente caloroso que aqui se sente e da simpatia do público. Os dois combinam alegres tocar juntos um dia em Roma. Uma festa. Nos meus três Jameson’s com gelo tenho a tentação de confessar que em miúdo tocava harmónica mas contenho-me. Tocava pessimamente.

Despedimo-nos como velhos amigos mas deixo-me ficar mais um bocadinho.

Nesta cidade, é verdadeiramente difícil decidir ir para a cama.

Comentários a “Top Cat and the Italian piano player” (8)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Gostei muito, Vasco. Vou ler outra vez.

  2. nini diz:

    Consegue-se mesmo cheirar um bocadinho de NYC…

    • Vasco Grilo diz:

      Obrigado Nini, pelas suas kind kind words.
      Peace!

      PS: o cheiro de NYC é só mesmo aconselhável nos meses de Inverno.

      • Turmalina diz:

        É verdade Vasco…o cheiro no verão daquelas lixeiras, principalmente nos fundos dos bares e restaurantes é terrível…
        Mas voltando ao adorável post:
        Música excelente, tocada de forma magistral…obrigada pelo delicioso passeio no Village…

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Se passares pelo Sardi’s, no Theatre District, que deve cheirar a velho e decadente por todos os lados, bebe um dry martini no bar. É como se voltasses aos anos 50.

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