Standa Navratil, The Chaste Virgin
A propósito da castidade
Depois da caridade, da fé e da esperança, a castidade talvez seja a virtude mais nobre.
Em parte por, ao não violar o mistério das coisas e seres, poder frui-los de um modo espontâneo e desinteressado. De um modo “pan-”. Com um profundíssimo grau de penetração e inteireza.
Assim, a verdadeira castidade é sensualíssima. Quer dizer, no senso de mediada pelos sentidos com plenitude e voragem de fluxo. É mais erótica que Giselle Bündchen esperando nuinha por você, na cama, com aqueles rotundos lábios em gomo a dizer “venha logo, please, ou seja desgraçado para o resto dos dias”. Ou que as duas bandas em semi-lua da bem delineada bunda de Viviane Araújo, à frente da bateria do Salgueiro, durante o desfile das escolas de samba.
Em verdade, a castidade não exige que se penalize a carne para purificar o espírito.
Do contrário, a castidade, de facto, está antes no corpo e nas formas. E é de lá que passa ao espírito. Porque não devemos esquecer, Leonardo dizia: “no instante da morte a alma chora, porque tem de se separar dessa maravilha que é o corpo”.
E, no entanto, a castidade está ainda em algo mais que sequer suspeitamos: atmosfera de uma tarde que nos lembra atravessar pela primeira vez uma praça na infância ao lado da colega que achávamos mais bela na escola primária. Isso conjugado a uma situação prazerosa, ainda a se viver, que se sabe: se vai viver – mas ainda não se deu a revelar. Sehnsucht. Porque na castidade, nada é público. Ou o tenta ser. Embora tudo o seja.
Seu estado nos empresta uma aura de beleza semelhante ao que se vislumbra no semblante dos heróis dos filmes de Bresson. Uma beleza que se vai construindo no convívio, no decorrer do tempo; e se dá a conhecer aos outros pela própria inconsciência nossa diante de nós mesmos, de nossos atos. Ao gerar um vazio preenchido pela graça. Sua leveza é tanta que pode ser intolerável à maioria.
Em verdade, as mulheres só se apaixonam, incondicionalmente, por homens castos. E o reverso é quase também verdadeiro.
Logo, castidade nada tem ou não a ver com sexo. Mas com a pureza do olho, das mãos e dos passos guiados por um especial senso de graça que, ao nos fazer agir, lega aos demais um prazer, uma carga de erotismo, sem passar exclusivamente pelo eriçamento dos pelos pubianos. Mas, por largas vezes passando também por eles. Porque não? Afinal, se somos filhos de Deus, e eles nos integram, também o são.
E é por isso que um homem casto raramente está sozinho. E é a ele que recorre o grupo ao tentar livrar-se de uma tarefa mais espinhosa. Mas ele, com a naturalidade de quem descasca uma laranja, resolve o empecilho para o grupo, com altruísmo, generosidade.
E castos dedos de libertino.
Não é à toa que o Apóstolo das Gentes dizia: “para o puro todas as coisas são puras”.
* * *

















É bonita esta castidade.
Não lhe parece Ruy, que a castidade, como qualquer outra virtude, só o é se for posta à prova.
Ruy, sempre comparei (também) a castidade a leve estremecimento que, como as asas de uma borboleta, pode desencadear tempestades sensuais. (E tão lindos os erguidos seios da menina que está na contraluz da janela!) Aliás, era essa, a contrario, a teoria de Klossowski que via na obscena maldade do Marquês de Sade sinais de uma santidade primordial. (E nem são tanto os seios, mas só o que deles é delicada proeminência!) A mesma teoria, note-se, que já Bataille sustentava quando falava de arrebatamentos místicos. (Que elegantes, as cónicas coxas da casta virgem!)
Mas que poética e mais do que inspiradora virtude…
“A castidade com que abria as coxas”
A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
sem mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.
Carlos Drummond de Andrade
(1902−1987)