
Se quiserem uma data, diria que foi em 1960. Foi este o ano em que acabaram os homens no cinema.
Já em 1959 as coisas não tinham corrido bem e sobejaram sinais do que estava para chegar. Hitchcock maltratou Cary Grant de todas as maneiras e feitos, com supina crueldade, em North By Northwest; Hawks anunciou o finnis tempore do western em Rio Bravo, cercando John Wayne ao fundo da rua, na companhia de um bêbado, Dean Martin claro, e de um velho desdentado, Walter Brennan, ainda mais óbvio. Pior ainda fizeram Billy Wilder e I.A.L. Diamond em Some Like it Hot, quando obrigaram os tesudos Jack Lemmon e sobretudo Tony Curtis, a percorrerem o filme travestidos de mulher, com a burra da Marilyn a fazer deles – tão espertos que se julgavam… – gato sapato.
Mas foi em 1960 que Visconti nos entregou Allain Delon e os seus irmãos, na conta de 3, e o magnífico John Sturges não conseguia resolver o assunto com menos de 7 pistoleiros. Um homem sozinho e sem ajuda já era de pouca serventia, pequeno demais para o ofício de herói. Para quem precisar do simbólico, recorde-se que 1960 foi também o ano em que a figura de John Wayne soçobrou de vez nos escombros do Álamo, um fiasco de filme, de engenho, enfim, de homem.
Mas a prova mais segura de que 1960 é a estaca certa, saiu das mãos da dupla Billy Wilder / I.A.L. Diamond e chamou-se The Apartment. Foi aqui mesmo que se extinguiu no cinema a ideia de homem que todos os homens queriam ser.
Temos então o pobre Jack Lemmon aguardando numa esquina, à chuva. É a própria imagem da desolação, aquele homem constipado, ansioso por uma canjinha que o acalente. Como se pôs ele em tal situação? Foram a tibieza e a cupidez, irmãs gémeas nos frouxos, que o conduziram ao hábito servil de emprestar o seu apartamento ao chefe da repartição, para que este pudesse gozar as amantes, a troco de uma vaga promessa de promoção. Outro motivo assaz materialista animava o C. C. Baxter de Lemmon a praticar o torpe aluguer, pois era com esse dinheirinho que pagava a renda de casa. Ficamos desde logo a perceber que o volumoso Fred McMurray, o boss, irá tratar Lemmon como um trapo até ao fim do filme.
A única luz que no pusilânime C C. Baxter se acende é de uma subtilíssima atração pela rapariga do elevador. A ascensorista é Shirley MacLaine, a dos olhos arregalados e franja rala, feições de amplitude eslava e atitudes com o seu quê de desconcertado, mais do que desconcertante. MacLaine que vinha de ser uma puta com a candura absoluta dos idiotas aos pés de Frank Sinatra, nesse melodrama dos melodramas que é Some Came Running, apresenta-se como uma figura intangível, porque indiferente e sem importância. Que emoções se adivinham numa ascensorista?
O contacto entre ambos dá-se quando Baxter, podendo finalmente regressar ao seu apartamento, numa das noites de aluguer, vai dar com ela semi-suicidada. Fred McMurray acabara de anunciar-lhe a retirada e McLaine ficou desprovida quer de amante, quer, também ela, de esperança numa promoção lá no escritório.
O resto do filme é ver como se enlaçam ou sobrevivem duas almas perdidas no seu próprio oportunismo e submetidas à impiedade dos mais fortes.
O Baxter de Jack Lemmon é uma figura patética, um fraco digno de comiseração, mas nunca o vemos humilhado, nem nos rimos dele. Porquê? Porque sabemos que aquela poderia ser a nossa figura, que estamos sempre a um milímetro de nos tornarmos naquela criatura se baixarmos a guarda por uns minutos. A esta consciência de si, não há alívio em descobrir que afinal Mclaine é moça de sentimentos, quase enternecedora na sua vontade de os recalcar para evitar ferir-se, quase irritante por não saber distinguir entre a bondade e a complacência. Todas as mulheres se fazem perigosas aos olhos dos homens apoucados.
E esta sensação de alarme que nos atravessa e nos põe entre o dó e a amargura, é obra do génio de Wilder & Diamond, os grão-mestres do funambulismo emocional de alta voltagem, sempre a um instante do sarcasmo mas sem tropeçar na crueldade, sempre a roçar a sordidez, mas sem resvalar para a complacência. Quando Wilder & Diamond nos convidam para dançar, já sabemos o tango que nos calha: no primeiro passo lamentamos o protagonista, no segundo compreendemo-lo, no terceiro temos pena dele, no quarto identificamo-nos com ele. É aqui que rodopiamos.
The Apartment patenteou que estava acabado o cinema de homens que se definiam por aquilo que faziam, à boa maneira de Hawks. Já se haviam apresentado os rapazes agrestes, tão densos como as células, incapazes de conterem as lágrimas e moderarem a voz, ainda mais abstratos que os hollow men de Ford, a fazerem-se trágicos só porque temperamentais. A receita para a infelicidade masculina de Lee Strasberg, decalcada das técnicas de Stanislavski, tirou do forno James Dean, Marlon Brando e Montgomery Clift. Só Paul Newman teve inteligência para sair do redil, ao descobrir que um módico de insolência e azul salvaria a imagem da sua virilidade.
Mas já era tarde demais para que no cinema voltasse a haver homens à homem.
















E nem Paul Newman, abandonado esse módico em telhado de zinco quente…
Está bem visto, tinha-me escapado. Mas sejamos indulgentes, o homem era um ídolo da NASCAR o que sempre dá algum crédito.
Com Paul Newman eu sou perfeitamente capaz de ser indulgente.