Pepitas de Ouro


Um amigo fiel é uma poderosa protecção; quem o encontrou, descobriu um tesouro.

Nada se pode comparar a um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor.

(Ben Sira, 6, 14–15)

Sempre me fascinou a actividade dos garimpeiros. Metidos na água, a peneirar areia, terra e lama, em busca de pepitas de ouro e de pedras preciosas.

Talvez por isso o garimpo me pareça uma excelente imagem do que sucede na nossa vida, naquelas fases menos boas ou realmente más que, mais tarde ou mais cedo, acontecem. Pouco importa a causa — uma doença grave, um divórcio, a perda do emprego, negócios que correm mal, insucessos, azares e desgraças de todo o tipo. Perde-se sempre. Às vezes muito. Laços que sentíamos indestrutíveis, projectos e planos que pareciam certos e seguros. E, pior que tudo, uma certa inocência, ao descobrir certas facetas de alguns (felizmente raros) daqueles com quem julgávamos contar (familiares, amigos, colegas, vizinhos) e que preferiríamos nunca ter visto. É assim, é verdade e não há como negá-lo.

Mas há também o outro lado. O bom. Do que fica nas nossas peneiras quando a água dos maus momentos nelas passa. Porque sempre fica qualquer coisa, mesmo quando tudo parece ter ido rio abaixo. As pepitas de ouro, as pedras preciosas que são a nossa família e os nossos amigos. Aqueles que sabíamos que nunca, nunca nos falhariam, fortes, dedicados e leais. E os outros, os que nos surpreendem e nos comovem, pela sua solidariedade e generosidade e, não raro, coragem. A revelar uma sua tocante bondade, mas também o quanto para eles importávamos, sem que porventura disso tivéssemos a noção.

É certo que é menos, muito menos do que aquilo que se tinha antes da tormenta. Será. Mas é tudo verdadeiro e é tudo infinitamente valioso. Como as pepitas de ouro e as pedras preciosas dos garimpeiros. E o resto? O resto é areia e lama. Não interessa e não faz falta.  

Comentários a “Pepitas de Ouro” (16)

  1. José Navarro de Andrade diz:

    Um filósofo de que gosto muito, Richard Rorty, escreveu que o único grande crime, aquele que está na origem de todos os outros é a crueldade, ou seja: infligir o sofrimento deliberadamente. Tenho que se cada um assumisse como norma de conduta evitar a crueldade a todo o transe, mesmo sabendo que o coneito é muito lato, embora saibamos detetá-lo empiricamente, o mundo seria bem melhor. Este teu post é um notável instrumento de combate à crueldade.

  2. Pedro Norton diz:

    Joana, o post é fantástico! qualquer comentário seria superflúo.

  3. Turmalina diz:

    Eu comento porque, para mim, o trabalho de um garimpeiro é somente lama e da mais funda e escura possível. Não consigo relacionar especificamente esta atividade à vida, apesar de ter entendido muito bem o seu raciocínio, porque aqui, acompanhando os noticiários, vemos que estes homens morrem levando consigo somente uma ilusão e muita miséria.Sou eu, sempre racionalizando demais…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Turmalina, o seu comentário tem para mim todo o sentido. Confesso que hesitei por segundos antes de recorrer a esta imagem, justamente pelas condições de miséria e de exploração que sei que marcam o trabalho destas mulheres e homens (e também pela polémica que em matéria ambiental o garimpo suscita).

      Mas a verdade é que acabou por prevalecer a forte carga simbólica que para mim têm a imagem do garimpeiro (como a do semeador das parábolas ou a da semeadora cunhada no verso das antigas moedas de 1 franco), fruto talvez de tantas histórias e descrições, passadas no Brasil e na Califórnia, no tempo em que eram bem mais e bem maiores as pepitas de ouro que se achavam.

  4. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Joana, como já lhe disse gostei muito deste seu post. Vinha, no entanto, pedir ao José Navarro de Andrade, no que julgo serei acompanhado pelo Pedro Norton, que desenvolvesse um bocadinho mais este ponto do pensamento de Rorty, que me parece poderá ser muito frutuoso, segundo o qual «o mundo seria muito melhor com um coneito muito lato.»

  5. pedro marta santos diz:

    Joana, o seu post tocou-me especialmente. Se bem que a vida me tenha ensinado a ser mais pessimista do que a sua mensagem, já que preciso muitas vezes de recorrer a um microscópio electrónico de varrimento para encontrar as pepitas…

  6. Joana Vasconcelos diz:

    Pedro, gosto muito de que tenha gostado.

    Quanto ao pessimismo que alega ter aprendido com a vida, talvez seja antes uma combinação de outras coisas, não necessariamente negativas — realismo, maturidade, bom senso. Que a mim muito bem calharia. É que o desmedido optimismo que desde que me conheço me caracteriza, apesar de ter indiscutíveis encantos, nem sempre funciona como virtude, bem pelo contrário. E o pior é que nada, desde o decurso dos anos a alguns sérios revezes por que fui passando, parece capaz de o atenuar…

  7. António Eça diz:

    Joana, sendo que o seu optimismo não pode ser tonto faz lindamente em sê-lo. Qualquer forma de optimismo é sinónimo de uma qualquer forma de fé, seja em Deus, na ciência, em si próprio ou8 todas juntas.
    Para mim a vantagem do seu texto nem é a beleza da imagem — é a sua verdade intrínseca, absolutamente sólida. Gostei muito, também sou muito assim. (E tenho uma filha Joana, uma realidade totalmente a despropósito)

    • Joana Vasconcelos diz:

      António, gostei tanto deste seu sentido e gentil comentário!

      E a propósito do seu despropósito, eu também tenho uma filha Joana. Se bem que a mesma insista (e invariavelmente consiga, na escola e tudo) em fazer-se tratar por Joaninha, “porque Joana é a mãe e porque quando me chamam Joana é sempre para me ralhar…”

  8. pedro marta santos diz:

    …E essa sua natureza é tão preciosa como as pepitas que descreve. Obrigado pelo seu texto.

  9. Joana Vasconcelos diz:

    Pedro, eu é que agadeço os seus tão simpáticos comentários, que ontem e hoje made my day! : )

  10. eu.ca.nao.comento diz:

    Há quem se reveja na figura da garimpeira, ou do garimpeiro; há quem se reveja na pepita, na pedra preciosa, na descoberta e na promessa. Mas também há quem se revê na água que passa, ou na areia e na lama que se descartam porque desprovidas de valor.
    Mas o valor, o valor resulta do olhar certeiro de quem sabe ver: “the eye of the beholder”.
    Ele há pepitas que escrevem tão bem…

    • Joana Vasconcelos diz:

      E ele há pepitas que afinal comentam! E que gordas e luzidias são! Como esta não conheço muitas!

      Tens a noção de que hoje finalmente atravessaste o Rubicão (rimou!)? Agora astreve-te a não voltar a aparecer e/ou a comentar, com esta ou outra veste …

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