
John Everett Millais, Ophelia, 1851–52
“Tudo se paga? Pergunto baixinho e a medo. Ódio. Tem sido sempre o mesmo ódio. O ódio que vi proclamado por Moreira de Almeida, nestes termos: – Tenho-lhes ódio! tenho-lhes ódio! E como lhe observasse que para voltar à monarquia era preciso matar quinhentas pessoas, respondeu logo. – Matam-se. O ódio que vi nos republicanos de pistola no bolso – para matar, ou de carabina em punho, nas noites da República, quando o jornal estava para ser assaltado pelos democráticos. O ódio do João de Freitas – e o ódio dos que o mataram. O ódio que encheu de sangue o Terreiro do Paço no dia trágico que nunca mais esquece. O ódio a que Sidónio sucumbiu e que ia matando Camacho e Magalhães Lima. De toda a mentira avolumada se formou a atmosfera de morte. […] Quem me dera apagar a pavorosa fotografia de Machado Santos fuzilado, que O Mundo publicou, e as figuras do rei e do príncipe, que não me saem dos olhos!“
“Um dia destes (Maio 1915) João de Freitas disparou o revólver sobre o João Chagas, quando vinham no mesmo comboio para Lisboa, vazando-lhe um olho […] No comboio prenderam-no, agarraram-no e entregaram-no aos sicários que o mataram lentamente no Entroncamento. Cuspiram-no. Escarneceram-no. Arrancaram-lhe as barbas e torturaram-no até ao último suspiro. Por fim enterraram-no como um cão, por ordem do administrador de Torres Novas. […] a sua morte foi um verdadeiro martírio: até fel lhe deram a beber.”
- Raul Brandão in “Vale de Josafat”
Nunca gostei muito de Raul Brandão. A prosa encaracolada, com mais adjectivos que predicados. Todavia, as suas “Memórias” escritas no tom despachado dos diários, descomprometidas com a ideia que Brandão tinha de literatura, são um colosso de observação, recheadas de pormenores e particulares impublicáveis e, no seu tom desprendido e desiludido, tornam-se o relato mais agudo das primeiras duas décadas do séc. XX em Portugal. Nada do que ele escreveu alcançou tamanha dimensão, tanto acerto. Ler estas páginas hoje pode ser assustador.

















Não é só (re)ler Brandão que se torna assustador nestes tempos nossos. Num registo mais prosaico, passar os olhos pelas crónicas de um Eça ou de um Ramalho é também muito instrutivo…
Guerra Junqueiro também escreveu umas “coisinhas”… tudo somado…
E o que dizer da saga de António Granjo, ferido e preso na casa de Cunha Leal onde se refugiara, até ao bárbaro final no Arsenal do Alfeite?
A história da “noite da camioneta” é bem capaz de ser a mais trágica do século.
A história da “noite da camioneta” é bem capaz de ser a mais trágica do século. A vantagem de Raul Brandão é que esteve lá, na maior parte dos episódios da república.
Não resisto a deixar aqui, como contributo ao debate, este pequeno excerto de Eça de Queiroz:
https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=gmail&attid=0.1&thid=1264d467860356a3&mt=application%2Fvnd.ms-powerpoint&url=https%3A%2F%2Fmail.google.com%2Fmail%2F%3Fui%3D2%26ik%3D7b61a432a5%26view%3Datt%26th%3D1264d467860356a3%26attid%3D0.1%26disp%3Dattd%26realattid%3D0.1%26zw&sig=AHIEtbT552zxy6-DlLLZUyZCVfXLOKTU-Q