Os cavalos também se abatem


Há de ser o filme mais triste da história do cinema.
Nem será bem triste, porque a tristeza é coisa passageira e com lágrimas, líquido que seca depressa se lhe aplicarmos um lenço. Em The Misfits o que temos é melancolia, esse indefinível mas persistente pathos que no espírito se instala e endurece, irredutível aos piparotes da alegria e tantas vezes incapaz de estremecimento diante dos assaltos da ternura.
O que permite atribuir a The Misfits o estatuto de filme mais melancólico de sempre não é o desalento que o enforma e se desprende do primeiro ao último fotograma, mas aquilo que na sequência dele veio a acontecer e nele parece já tão manifesto. Dos três actores que o protagonizam, Clark Gable e Marylin Monroe morreram pouco depois e Montgomery Clift já não era aqui mais do que um espectro. Gable foi-se de ataque cardíaco 10 dias depois das filmagens. Marylin assistiu à estreia a caminho de uma clínica psiquiátrica e nada mais nos deixou além de fragmentos de uma obra inacabada. Clift faleceu quatro anos depois, precisamente numa noite em que The Misfits era exibido na televisão e as últimas palavras que o ouviram dizer foi “nem pensar”, respondendo à pergunta da sua empregada sobre se iria vê-lo.
A posteriori, e pelo modo como cada um faz evoluir a sua personagem, dir-se-ia que todos eles sentiram a presença eminente do anjo negro durante a turbulentíssima rodagem na planície desértica do Nevada, às portas de Reno.
Olhando para o filme como quem olha para trás, vemos acontecer algo muito pouco habitual e que é o grande interdito na arte de representar: não são os actores que se escondem na pele das personagens, são as personagens que transportam as questões de cada uma daqueles pessoas. As fadigas de Gay Landland são o próprio cansaço de Clark Gable, e a pose ausente de Perce era a exacta alienação de Montgomery Clift.
Sabemos hoje que a estentórica cena final de Marylin foi a última que lhe saiu do corpo. E sabendo isto, a nossa consciência vacila e perturba-se diante do desespero daquela mulher, quando pede ao endurecido cowboy Gable que poupe a vida dos mustangs como quem pede pela vida dos filhos. O que noutras circunstâncias acharíamos exagerado entendemos agora que é apenas verdadeiro. Já não é a pesada metáfora de Henry Miller sobre a morte da liberdade que estamos a ver, aquilo a que presenciamos é o fim da vida de Marylin Monroe mostrado por ela.
Hoje, só resta um punhado de mustangs em liberdade, graças a um programa de proteção da espécie.

Comentários a “Os cavalos também se abatem” (2)

  1. teresa conceição diz:

    Que texto tão bonito, Zé Navarro.
    Deixou-me assim melancólica e com vontade de rever o filme.

  2. Turmalina diz:

    Isso mais parece maldição de Macbeth.

Comentar