Fiquei vários dias sem acesso ao computador, coisa que dicilmente pode ter sido notada pelos meus virtuais amigos deste blog. Televisão, vi também pouca, tendo ficado francamente impressionado quando vi hoje a notícia sobre os muitos casos de pessoas que, na Grécia, se suicidam por terem de entregar a sua casa ao banco. E tenho pensado nisso.
Olho os peixes no aquário das minhas filhas, os quais morrem se lhes falta a água. Penso nos homens que morrem se lhes falta o ar. E pergunto-me que ar foi este que tão terrivelmente faltou, e falta ainda, na Grécia — e no Ocidente em geral.
Porque me dói saber que alguém se mata por perder quatro paredes. Se tiver família, filhos e irmãos e pais; se tiver amigos; se tiver vizinhos; se tiver uma comunidade onde viver, não se há-de matar. Eles o ajudarão.
Temporariamente, dificilmente, sem dúvida, mas o mais importante são essas relações que conseguimos construir debaixo de um tecto sustentado por quatro paredes. É por elas que vivemos. São elas a nossa casa.
Desculpem-me a franqueza neste assunto, que é horrível, mas se estes homens se matam é porque não têm família, nem amigos, nem vizinhos, nem comunidade. E foi isso, talvez, o que perceberam, quando lhes tiraram as suas paredes. Sózinhos, perdidos, morreram.
Neste sentido, talvez valha a pena pensarmos, para além de todas as banalidades que se têm pensado para manter controlada a crise, que homens e mulheres queremos ser. Nós. Todos nós, que somos muito iguais aos gregos.
Porque desde a era das revoluções que a esquerda e a direita têm conjugado os seus esforços para anular as famílias e as comunidades, única verdadeira rede que interiormente sustenta a sociedade.
E não vale a pena enganarmo-nos com as centenas de amigos com que vamos virtualmente comunicando nas — agora assim chamadas — redes sociais. Se só elas ficarem quando perdermos a nossa casa, também nós, talvez, sózinhos, perdidos, morreremos.
















Não há muito tempo recebi este pensamento:
É preciso passar-se pelo melhor e pelo pior para conhecermos os nossos amigos. No melhor, conhecemos a sua quantidade. No pior, a sua qualidade.
Nesta minha breve jornada conheci quase que meia dúzia de pais de família que se mataram. Um porque perdeu tudo no poker, outro descobriu uma doença terminal, outro porque faliu e um quarto que nem sei porquê. Todos esses deixaram esposas ou ex-esposas e filhos, alguns pré– adolescentes ainda. E todos tinham amigos de qualidade, que quem sabe, talvez, estivessem um tanto distantes.Na verdade eu não entendo a motivação para tal atitude.Uns dizem que é coragem, outros que é covardia…eu não sei. Amo tanto a vida que não consigo compreender tamanho disparate, que aos meus olhos, será sempre injustificado.
Oracama, esse pensamento é fantástico. E digo-lho eu, que hoje conheço bem a qualidade dos muitíssimo poucos amigos que tenho.
Turmalina, tem toda a razão. Também não percebo. E ainda bem. Porque uma coisa é certa: tudo o que, seja bom ou seja mau, consegue entrar na cabeça e no coração de um homem, conseguirá também, dada a ocasião, entrar na cabeça e no coração de um outro.
Cara Turmalina,
Eu penso que é devido à visibilidade do insucesso, que conduz directamente à vergonha e ao desespero. Daí para a frente, é uma lotaria, não havendo, quase sempre, amizade que lhe valha.
A família e os amigos é que verdadeiramente são as nossas redes. Como aquelas que seguram os trapezistas quando a pirueta que arriscaram não sai bem ou quando, na execução de um número mil vezes repetido, inexplicavelmente a mão falha ou o baloiço não está lá para agarrar. Redes que quando são intensamente entretecidas, não só aparam a queda como lhe transformam o impacto num forte impulso para uma graciosa viravolta, que permite sair airosamente da situação e arrancar uns aplausos do público, enquanto, de novo, se sobe lá para cima, para retomar o número no ponto onde a coisa correu mal …
Gonçalo, gostei tanto que acho que vou fazer um post lá em cima!
PS – Estou realmente impressionada. Isolamento total do mundo, como São Jerónimo na sua gruta … a escrever o folhetim, I presume? ;)
Já li o seu post lá em cima, Joana. Também gostei muito. Nota-se sempre quando falamos daquilo que nos toca e que de algum modo somos. Quanto ao isolamento, não se impreessione. O meu computador de casa foi literalmente ao ar (graças a Deus voltou ontem à noite com tudo lá guardado) e profissionalmente estou numa fase complicada e transitória. O folhetim lá virá. Na última badalada, para quem vier a seguir ainda apanhar o sapatinho.
Caros
Joana adorei essa imagem do trapezista.
Podíamos até fazer um filme com ela. Um frizz aqui, um slow motion ali, pois o tempo, tal como a vida, é completamente subjectivo e portanto elástico.
Gonçalo gostei muito do que escreveu e fez-me pensar… será verdade?
Será que não se pode ser eremita dentro das suas 4 paredes?
Eu conheci gente que se matou e, aparentemente, tinha tudo para ser feliz, incluindo família, amigos, amores, carreira e até dinheiro.
E conheço gente que vive feliz, não tendo família ascendente, descendente ou colateral e apenas uns amigos light.
Talvez dependa da elasticidade da própria cabeça. Talvez dependa sobretudo da elasticidade do próprio coração capaz de amar o inanimado e de se sentir amado por um simples raio de sol.
Who knows… é tudo muito subjectivo
Sílvia, obrigado pelo comentário. E o ponto é mesmo esse. Quem ama não se mata. Vive para os outros, podendo esses outros ser de várias espécies. Assim teremos o eremita, que vive só no seu amor a Deus; e um Francisco de Assis (para imitarmos a Joana), que vive em comunidade no seu amor a todos os seres. E ruísse aqui e agora a porciúncula, de que ele tanto gostava, que ele não haveria de, por isso, deixar de amar.
Gonçalo,olhe que se morre de amor.E de melancolia.
Sívia, ainda bem que gostou. Eu também gosto sempre muito dos seus comentários. E concordo em absoluto com o que diz sobre o tempo.
Gonçalo, gosto de saber que gostou, e também muito do São Francisco de Assis, cuja atitude de radical despojamento, que o tornou tão livre e tão centrado no essencial, faz para mim cada vez mais sentido.
Maria, é bem verdade. Mas talvez consigamos concordar e dizer que a expressão mais correcta seria morrer de desamor!?