Nenhuma glória

An Irish Airman Foresees His Death é o manifesto sereno de um herói pessimista. Tão desnecessária a vida, cada batalha, cada amor, cada ódio. Nenhuma glória, só a morte,  a inócua morte.

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W.B. Yeats escreveu-o em 1918, deixando que na voz do aviador ecoasse o conflito amargo do nacionalismo irlandês ao serviço, durante a I Guerra, da Grã Bretanha. Deixo aqui uma tradução livre esperando a tradução do Ruy Vasconcelos que respeite e restitua a estrutura e o esquema rítmico dos 16 versos com que Yeats tão bem tratou a língua inglesa.

UM AVIADOR IRLANDÊS ANTEVÊ A SUA MORTE

Sei que vou encontrar o meu destino
Algures, no céu, entre as nuvens;
Não odeio os que combato,
Não amo quem defendo;
O meu país é Kiltartan Cross
Os pobres de Kiltartan, o meu povo,
Desgraça, fim algum lhes trará,
Nem mais felizes os fará.
Nenhuma lei ou dever me obrigam a lutar
Nem políticos, nem o aplauso da multidão,
Um arrepio de prazer apenas
Lançou-me no tumulto entre as nuvens;
Pesei tudo, tudo me veio à mente.
Os anos a vir parecem-me em vão,
Em vão os anos passados.
Espelho desta vida, esta morte.

Comentários a “Nenhuma glória” (3)

  1. Ruy Vasconcelos diz:

    Manuel, Venturoso, aí segue algo um tanto apressado. Mas, ao menos, não ficar indiferente ao vosso desafio. O desafio é um ponto de honra entre os “cantadores” ou “repentistas” no Nordeste do Brasil. De modo que não vou furtar-me a ele:

    ‘Um aviador irlandês antevê sua morte’

    Sei que encontrarei meu fado
    Algures, entre as nuvens em tramo;
    Meu inimigo não é odiado,
    Os que guardo, não os amo;
    Minha terra é o Passo de Kiltartan
    Meus conterrâneos são desvalidos,
    Fim qualquer lhes encurta a lã,
    Ou os deixa antes mais abatidos.
    Dever ou lei não me instiga luta,
    Nem homem público, turba inflamada,
    Só essa pulsão de deleite, devoluta,
    Conduz-me o assalto na trama nublada;
    A tudo contrapeso, trago em mente,
    Os anos para trás: desperdício de sopro,
    Desperdício de sopro, os anos à frente.
    Em contrapeso desta vida, este malogro.

    fica, então, este malogro, a rimar com sopro… rs

    um abraço “rijo”,

    do ruy

  2. Orcama diz:

    Grande e certeiro repto. Poética e fadada resposta.
    Está visto. Os Vasconcel(l)os aqui deste blogue não são de levar “desaforo” para casa, como por aí se diz.
    Façam-no mais vezes, para prazer nosso.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Ruy
    circunstâncias várias que não têm o menor interesse atiraram-me para os serviços mínimos de frequência do blog. Faço vénia à pronta resposta e à sua espontânea tradução. Mas Larkin é família sua pelo que também não se pode pôr muito vaidoso. O Ruy esteve lá em Hull? E, diga-me, há tradução brasileira da obra dele? Se não tem RV como tradutor, vou ter de me zangar consigo e dizer-lhe duas ou três coisas. E o que é que pensa da correspondência dele com o Amis pai? E da biografia do Motion? Li tudo, o que me levou um terço da minha vida (admiro os tipos que conseguem ler isto e o dobro em 15 intensos minutos, mas nisso eu sou um tanso!), pelo que a sua opinião pode salvar uma vida.

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