Mudar para ficar tudo na mesma

Seguramente parece. E pode bem ser que tudo isto seja mesmo verdade. Pode bem ser que Sócrates tenha mesmo uma especial dificuldade em lidar com a liberdade de expressão e que tenha alimentado o sonho de controlar a comunicação social. E se assim for, pode bem ser que, apesar do calendário político, do terrível momento económico e das intermináveis discussões formais e processuais em que o país vai enredar-se, o Primeiro-Ministro fique mesmo politicamente ferido de morte. O que não vale a pena é taparmos o sol com uma peneira e acharmos que a história acaba aí. O que não vale a pena é que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma. O problema, sejamos sérios, não é «apenas» um problema de protagonistas e muito menos é um problema partidário. Desenganem-se pois os que julgam que basta mudar de partido de governo ou de Primeiro-Ministro. O problema nem sequer se resume «só» a um problema com a comunicação social. Muito pelo contrário. O que o caso das escutas põe a nu é um problema generalizado, estrutural e de regime. Não entender isto é meio caminho andado para perpetuar este estado de coisas.

O «polvo» de que fala o jornal Sol está aí e está aí para ficar. O polvo chama-se, é sabido, uma escandalosa e crescente promiscuidade entre os poderes económico e político. O polvo, esse polvo que tanto é rosa como laranja, está montado para servir todos os poderes, quaisquer que sejam os seus protagonistas, qualquer que seja o partido no governo. Por razões que, de resto, são bem fáceis de entender. Desde logo, porque poucos governos (se é que algum) resistem à tentação de não usar em proveito próprio as estruturas de poder que os seus antecessores diligentemente montaram. Por muito que se grite na oposição, por muito grandiloquentes que sejam as proclamações que se façam, o apelo de uma bem oleada máquina de influência é simplesmente grande de mais para que não se tire partido dela quando mudam as marés. Nesta matéria raramente se anda para trás. E cada novo patamar é sinónimo de uma democracia mais frágil, mais aprisionada, menos substantiva. Depois, porque o poder económico que se deixa atrair para este jogo perverso de interesses não tem exactamente uma grande fidelidade ou uma enorme coerência ideológica. Hoje serve-se o PS, amanhã é-se do PSD desde pequenino. Pelo meio, se necessário for, jura-se amor ao PP, ao PC, ao Bloco.

A solução? A solução, chamem-me liberal furioso, é reduzir drasticamente o peso e a influência do Estado na economia. Já não o digo em nome da competitividade. Digo-o porque me parece evidente que se o Estado não chegar a todo o lado, se não decidir sobre tudo, se não for grande cliente, se não empregar meio país, se não usar «golden shares», se a sua infernal máquina burocrática não tiver, na prática, o poder de condenar à morte ou de elevar ao Olimpo empresas «inimigas» ou «amigas», estará quebrado este ciclo vicioso e sinistro que se arrisca a dar cabo do nosso regime democrático. Nesta matéria deixei, infelizmente, de acreditar no Pai Natal e não consigo vislumbrar outro caminho.

Comentários a “Mudar para ficar tudo na mesma” (21)

  1. Orcama diz:

    O problema está muito bem colocado. Serei sucinto para não infringir os “estatutos” do blog quanto a política, mas sempre direi:
    1. Seria necessário proceder a mais umas intercepções para perceber quem condiciona quem. Historicamente a “economia” sempre “produziu” a política que melhor lhe convém…
    2. Polvos há-os de todas as cores… vermelhos (bem tentaram), e até com as cores do arco-íris… eu diria que é mais uma Hydra…
    3. Ouvi ontem na SIC — programa de José Gomes Ferreira — ser dito por aí terem sido produzidas deliberadamente notícias falsas para justificar certa operação de recomposição de capital, entretanto gorada.
    3. Que não seja por considerações de oportunidade que não se observem os princípios, este é o grande falhanço de Abril. Assim haja alternativas, mas — drama — não as vejo. O sistema enquistou-se. É como disse o poeta:
    …Assim
    o fim
    Estava em mim,
    Túmulo e berço
    Do sempre engano
    P’ra onde vou.
    (in epitáfio a um capricho morto — Reynaldo Ferreira)

  2. Ámen!

    (polvo, polvo, só em salada e mesmo assim tem de estar muito bem feito e macio!)

    • Pedro Norton diz:

      Blondewithaphd: se não disser a ninguém digo-lhe eu a si que a melhor salada de polvo (e a melhor imperial) do país é servida numa barraquinha na praia da Aberta Nova em Melides. E já agora o melhor polvo à lagareiro é o do Faustino em Paço de Arcos.

  3. Ivone Gravato diz:

    Na mouche!!!

  4. pedro marta santos diz:

    Sem tirar nem pôr.

  5. António Eça diz:

    Eu gosto muito de contrapor à teoria das conspirações a conspiração das teorias. Mesmo que não signifique nada. Acho graça à imagem.
    Ao ler este texto, curiosamente o que me veio à ideia foi um ‘flash’ cinematográfico: a exploração da nave alienígena acidentada, em ‘Allien’ (1º), o seu interior quase gótico, e o momento em que John Hurt descobre o imenso berçário do animalejo.
    É, não é?

  6. Pedro Norton diz:

    Credo António Eça! No Allien só se safa a Ripley e mesmo assim com o bicho nas entranhas.

  7. Alberto Nogueira diz:

    O pior, não para ele, é que o polvo é particularmente inteligente e danado p’rá camuflagem…

  8. António Eça diz:

    Pois é, Pedro, com o bicho nas entranhas.
    Mas esse já é outro filme. no primeiro safa-se ela e o gato…

  9. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Pedro, é tudo verdade. No entanto, não é inevitável. E apesar de ter algumas particularidades muito portuguesas, este problema tem um espaço e um tempo próprios, que vão muito para lá de Portugal. Digamos que, de acordo com o teu post mais abaixo, antes da decisão final de Minos, estamos aqui sob a jurisdição de Éaco.
    A fotografia, além disso, lembra-me umas festas de anos, há muito tempo, em casa de um amigo da escola, nas quais víamos numa super 8 o filme das 20.000 léguas submarinas. E eu nesta parte ficava sempre muito aflito, até que, por fim, lá cortavam um tentáculo do bicho que se metia por todo o lado e era terrível. :)

  10. António Eça diz:

    Curiosamente tenho umas 20 mil léguas em primeira edição, de 1886, com estas gravuras e umas quantas rotogravuras a cores. É muito bonito.
    Estou muito de acordo com o que diz, Gonçalo: a questão, além das particularidades lusas, é visivelmente global — mas de consequências demasiado imprevisíveis. Mais um estremeção à Madoff & Cª (que fatalmente vai haver, os americanos já avisaram) e não sei se não será boa ideia ir viver para o campo, bem longe de tudo.

  11. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Não houve um Eça que já uma vez escreveu sobre isso?

  12. António Eça diz:

    É verdade, Gonçalo, tenho um profundo complexo de Jacinto. Que, diga-se passagem, começou muito cedo e na mesmíssima casa — como é natural.

  13. Manuel S. Fonseca diz:

    A cem por cento com o diagnóstico, pergunto-me se a, apesar de tudo clássica, terapêutica liberal responde hoje com a mesma desenvoltura com que respondia antes da desaforada liberalidade que esta crise demonstrou. Há, na experiência recente do liberalismo, um trauma que, como a volúvel raposa, se descarte com um balançar de ombros e um lindo “estão verdes!”

    • Pedro Norton diz:

      Manuel, sei bem que o liberalismo já teve mais adeptos. Mas resisto.

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Ali acima, na prosa, falhou qualquer coisa, mas percebe-se a “general idea”. Pedro, não rejeito que a terapia seja liberal, mas palpita-me que precisamos de incluir temperos. O que seja, não sei.

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