Mr. Allen afinal não morreu


Gostar ou não de Woody Allen foi, durante mais de duas décadas da minha vida, a fronteira decisiva, a linha que dividia a humanidade em duas partes. Essa era a pergunta cuja resposta fazia toda a diferença entre a empatia ou falta dela. Um “não” acabava inevitável e rapidamente por me levar a virar costas educadamente, com um qualquer pretexto inventado na hora. E um “sim” poderia até marcar o princípio de uma bela amizade. E ninguém escapava a este crivo. Nem sequer uma dama com (outros) atributos que entrassem pelos olhos dentro me fazia demover deste meu princípio inabalável. Muito pelo contrário, se estava no ar algum clima de sedução, os avanços acabavam logo ali caso se instalasse a mais leve ponta de desconfiança de que a rapariga não compreendia o humor inteligente de Mr. Allen. É claro que, para qualquer convicto admirador ou detractor seu, a qualquer resposta com pretensões a ser levada a sério caberia ser extremada quanto baste, nunca limitar-se um simples “gosto” ou “não gosto”. O meio termo nunca foi credível em Woody Allen. Nele, ou se amava ou se odiava. Para merecer o meu respeito, ou se conheciam todos os seus filmes da primeira à última cena, sem excluir os bergmanianos, ou se debitava logo uma mão cheia de citações, ou, no mínimo, se apresentavam sinais exteriores de algumas das suas neuroses. Pouco interessava que os filmes se sucedessem, a uma cadência de um ou dois por ano, uns iguais aos outros. E que obras-primas como Annie Hall, The Purple Rose of Cairo, Hannah and Her Sisters e Deconstructing Harry já fossem rareando. Assistir regularmente a um novo filme de Mr. Allen era um hábito de que a minha higiene mental, constantemente bombardeada por humor de baixa categoria que parecia vir de todo o lado, já não prescindia.

Quem me lê perguntará certamente porque escrevo eu no passado. Pois bem, porque esse meu apego a Woody se desvaneceu em certo momento bem localizado no tempo. O da noite, há pouco mais de um ano, em que vi Vicki Cristina Barcelona. O filme que consumou a maior traição que alguma vez um artista fez a admiradores seus. Neste mundo em que tudo parece estar à venda, se havia alguém que eu julgava incorruptível na sua arte, era Mr. Allen. E mais me convenci disso quando proclamou aos sete ventos que, em prol da sua independência como autor e para o preservar da pressão cada vez mais intensa dos estúdios americanos, abandonava a sua NY de sempre, cidade que tanto lhe deve a ele, para rumar à Europa, onde reencontraria a paz de espírito que lhe permitiria manter a sua liberdade artística em risco. Ao longo de três anos e três filmes (Match Point, Scoop e Cassandra Dream´s), Mr. Allen não comprometeu (embora o primeiro fosse pouco alleniano e o segundo e terceiro estivessem muito longe do seu melhor). Mas, ao quarto ano e quarto filme na Europa, acabou mesmo por fazer aquilo que nunca se suspeitaria que alguma vez pudesse fazer na Big Apple, se tivesse permanecido junto daqueles que, segundo ele, o queriam corromper. Vendeu a alma ao diabo da forma mais infame. Movido pelos muitos milhões oferecidos pela Generalitat da Catalunha, vendeu a alma e todos os seus princípios a Barcelona, prestando-se a realizar um guião turístico travestido de cinema. Negou a sua arte para se rebaixar ao estatuto de um qualquer publicitário a quem encomendaram a venda de um produto da forma mais fácil e eficiente. E, se a bela Barcelona agradeceu, e a igualmente bela Penélope Cruz também (com o seu Óscar que deverá certamente mais à máquina de marketing da Generalitat do que a Allen), o Cinema, esse, foi relegado para papel secundário, com o argumento (eufemismo de folheto turístico) mais desenxabido, forçado e previsível que Allen alguma vez escreveu (e a dúvida permanece se terá sido mesmo ele ou um criativo publicitário). Ao sair da sala de cinema, percebi que acabara de assistir a muito mais do que um mau filme, que testemunhara o próprio Allen a assinar a sua certidão de óbito como Autor.

Estava então Mr. Allen no estado de Gente Morta em que eu o tinha deixado desde essa noite quando estreia o Whatever Works (Tudo Pode Dar Certo). Hesitei antes me decidir a dar-lhe o benefício da dúvida. Mas a minha vontade de o ressuscitar no meu imaginário falou mais forte. E lá acabei por fazer as pazes com Mr. Allen. Ele voltou a ser igual a si próprio. Não lhe pedia que deslumbrasse, bastava que voltasse a ser ele próprio. E a verdade é que o alter ego Larry David (a personagem Boris Yellnikov) conseguiu ser mais igual a Woody Allen do que o próprio seria capaz. Talvez por ter consciência de que soaria a falso fazer dele próprio um ano depois de ter deixado de ser ele próprio. Embora tenhas perdido a capacidade de dividir o meu mundo em dois, estás perdoado, Woody. 

Comentários a “Mr. Allen afinal não morreu” (8)

  1. Vasco Grilo diz:

    Diogo, ainda não vi o “Whatever Works” e por conseguinte, para mim o Woody continua num muito precário estado de saúde.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Veja, Vasco, vai ficar tão contente que terá vontade de cantar Happy Birthday enquanto lava as mãos.

      • Vasco Grilo diz:

        Curiosa esta imagem Eugénia. Diria quase sinistra. Não sei porquê mas quase saída de um filme do David Lynch.…

        • Diogo Leote diz:

          Vasco, é o que dá insistir, com aquela idade, em enfiar-se em filmes “noirs” com “femmes fatales” do quilate de uma Scarlett ou de uma Penélope. Estava visto que acabaria nas mãos do diabo.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Radical Diogo,

    Tem a noção do horrível constrangimento que este seu texto inflamado e maniqueísta provoca nas leitoras e – até agora – virtuais comentadoras deste blog?

    Ao declarar que a mera afirmação de um desgosto pelos filmes do Woody Allen é suficiente para votar a mais deliciosa interlocutora à desqualificação e ao ostracismo. Ao aplicar o mesmo destratamento à mera hesitação ou à insuficiente demonstração de um gosto declarado (que pelos vistos presume, até prova em contrário, inconsistente e infundado). Mas, pior, muito pior, ao erigir como condictio sine qua non da sua atenção, primeiro, e eventual admiração, depois, uma arrebatada declaração de devoção pelo dito Woody Allen… Por acaso meditou na situação dilemática e embaraçosa em que nos coloca a todas?

    É que se a primeira e a segunda hipóteses são realmente desagradáveis, que dizer da terceira? Das imediatas suspeitas de ocultas, reservadas não cinéfilas intenções que recairão sobre uma pobre incauta que se afoite a vir dizer que é fã do dito Allen desde pequenina.

    Valha-me Deus.

    E é tudo o que tenho a dizer. Evidentemente.

    • Diogo Leote diz:

      Joana, tem toda a razão, eu não sabia o que fazia naqueles tempos em que reduzia o mundo a duas cores. Se soubesse o que sei hoje, digo-lhe que até agradeceria que não me viessem louvar o Mr. Allen…

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Diogo, não incluiu Love & Death, que entre nós foi Nem guerra nem Paz, nas obras maiores do WA. Protesto!

  4. Diogo Leote diz:

    Eugénia, o Love and Death é de 75, nessa altura ainda não tinha idade para galantear damas!

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