O Pedro Marta Santos não sabia porque não podia saber. Há quem coleccione selos, porcelanas da Companhia das Índias, os lindos bichos em prata de Luiz Ferreira, cromos de jogadores de futebol, diplomas. Eu colecciono palavras que me dão, que leio ou ouço, como se as lesse ou ouvisse pela primeira vez. E é mesmo a primeira vez. Às vezes é o som. Outras, o que evocam de memória e significado. Ou tudo junto ou só porque sim de não querer saber explicar mais bem. Estas, não é segredo, são algumas das que mais gosto. Mas também gosto muito de coisa e coisinhas, de diminutivos em inhos quentinhos de botas de bebés fresquinhos de bebezices. E advérbios em geral. Inventados em particular.
PASMOSA/O. Nem espumante nem espumoso. Espuma. Nem refresco nem gelado. Sorvete. Nem primeiro beijo nem primeiro amado. Amor. Nem inocência nem pecado. Espanto. Puro azul marinho molhado de sal, dentes de riso, branquinhos, e toda a sabedoria do mundo, pré literada, feliz: pasmosa.
AZUCRINAR. Os pais não azucrinam os filhos, os filhos não azucrinam os pais, os amigos não se azucrinam porque azucrinar é um verbo feminino com dois substantivos dentro: açúcar e limão em partes desiguais e aleatórias, e transitivo porque oxidado quando não há paixão. Isto é, as mulheres azucrinam a paciência aos homens por quem se apaixonam — ao resto do mundo masculino não apetece azucrinar. Porquê? Porque é uma resposta provocatória, feliz, risonha e mazinha, à vulnerabilidade abissal de amar. E geradora de tensão. Ai fazes-me gostar tanto de ti?! Então, vais ver o que eu te faço… E o que se faz? Azucrina-se! Esse decote é muito fundo, sobe-se o decote, encolhe-se a saia. Minha querida, que tal um peixinho com equilibrados legumes? Belas vieiras cobertas de queijinhos em béchamel e pimenta preta, ou não são elas bichos aquáticos e a pimenta não é praticamente um legume?! A um amoroso dar as mãos responde-se com um indecoroso pôr de mãos. A um beijo com sabor gostoso de pecado, com uma leve repreensão. Azucrinar… gosto.
Ps: e gosto tanto dos sons em azucrinar. O do cri risonho, entalado entre um u muito sério e um a aberto de impaciência.
SOALHEIRO. Há apartamentos pequenos, por fora de um bolor lento escorrido sobre a pintura de prédio um dia branco, húmidos de humidade em verdes cinzas até ao esfumado em cor de Sintra nas varandas que espreitam para outras varandas: vista para a vida fechada dos outros. Marquises de antes em retalhos de vidros quadrados, emoldurados a ferro, às vezes partidos. Perto da Defensores de Chaves há ainda um prédio assim: todo remediando a pobreza a um braço de distância da casa do lado, de tectos altos, rica da cave ao sótão, até empobrecer , ela rica, de ter sido vendida para embaixada antes do terminal morrecimento. Ele, remediado, chegado depois, ficou remediando a cartão os vidros em falta. Quando morrerem os inquilinos velhos, os proprietários ficarão felizes. E dos já proprietários humildes, virão, já vieram, herdeiros partilhar os lucros da localização, localização, localização, se forem vários, ou reformar a centralidade sem vista para os plátanos, se se sonharem a acordar no adormecimento habitacional de Lisboa. Eu pensava que, ao início, o amor de um homem por uma mulher era aquele prédio: soalheiro por dentro da timidez húmida de ser solar demais — o mundocéu aberto. A escorrer, por isso, verdes cinzas pelo lado de fora da marquise em Sintra, mais ciosa que fechada, o cartão no vidro, e o amor do homem impronunciando: és só para os meus olhos, lá fora a casa rica é nada, ninguém vê o sol que me ilumina inteiro, com três passos fazes uma cozinha e, com meia dúzia, a sala e o quarto, uma dia teremos uma como aquela, ninguém sente o sol que me aquece todo, se abro os braços a casa de banho é minha, escondes-te atrás da cortina opaca de plástico grosso, a água corre, devia tê-la pendurado transparente só para seguir no teu rasto de passos de Verão.
FUNDAMENTE. Um destes dias vou-me embora. Fecho a porta e não olho para trás. Hão de crescer as heras sobre o tempo, os fios de água da humidade hão de entrar pelo telhado, juntar-se aos fios de lágrimas presos dentro das paredes que se hão de abater fundamente como nunca tivessem existido, os dias dos homens estivessem por criar e a pureza vegetal acabasse de parir os primeiros animais e a invenção dos ninhos. Fecho a porta e não olho para trás: devolvo ao mundo pré-adâmico o chão das cinzas, devolvo-o à vida e não olho para trás. Faço o caminho, o único caminho, um destes dias, saio ainda de noite para chegar com a primeira luz, antes dos candeeiros públicos se desligarem da vigília, antes da agitação cantada das penas escondidas nas árvores, antes da agitação dos carros. Chegarei, um destes dias, com o mundo muito quieto para saber que chego, para fazer um postal com a hora exacta antes de abrir a porta da tua casa, ter um gato de rua como testemunha de que não sonho, abrir a porta da tua casa a uma hora demasiado cedo para beber café, para se estar composto de coração arrumado. A hora certa para te encontrar de calças de pijama, amarrotado da cama, descaídas no elástico, t-shirt com cheiro de sono, doce do sono, quente de sono, olhos inchados de sono e para me dizeres com toda a impassível naturalidade, e um sorriso leve: pareceu-me ouvir-te entrar, ainda é muito cedo, vem deitar-te. Onde moras, meu amor?


















Grande texto, menina Eugénia. E também gosto de azucrinar (dizer e fazer).
Obrigada, menino Pedro. Quem havia de dizer que era um azucrinador?..
Que coleção deliciosa! Mas de qualquer forma, são lindos os sapatinhos, não são?
Pasmosa eu não conhecia e acho que não a usamos por aqui.Ficamos pasmos com isso ou aquilo.
Azucrinar conheço muito bem…
Já para Soalheiro tive de recorrer ao dicionário…e que lindo significado!!!
Fundamente acho que aqui é profundamente…
Adoraria ler mais palavras da sua coleção :o)
Merci, Turmalina.
Fantástico, Eugénia. Gostei absolutamente do AZUCRINAR …
E o prédio? Qual é? Para que lado fica? Passei parte da tarde — sempre que me distraía do insuportável trabalho que, maçada e contrariada, me ocupava — a pensar no dito …
O azucrinanço é fundamental, Joana, ainda bem que gostou dele em verbo.
É o prédio ao lado da antiga embaixada do Japão.
Já sei qual é! Fiz uma pesquisa rápida na net e vi!
Eugénia, durante anos a minha carrinha do colégio parava em frente da casa bonita e do prédio, para sair uma menina de que nunca mais soube nada … era pouco antes da nossa “paragem” como diziam …
A casa foi recuperada há já uns anos atrás. As marquises e o prédio foram pintados.
É o Clube Militar Naval ou coisa assim, não é? Apesar de morar perto, já lá não passo há uns tempos. Toda esta zona esteve em versão guerra de trincheiras — ainda por cima móveis, para tornar a coisa mais excitante — e com o trânsito todo de pantanas por causa das obras do Metro. Finalmente, de há uns meses para cá vai-se regressando à normalidade.
É sim, Joana. No número 26 da Defensores de Chaves. O CMN alojou-se lá depois de sair do Marquês.
Eugénia, a ideia de coleccionar palavras é fantástica. Tenho uma para a troca que vai muito bem com azucrinar: encalistar. Em minha caa significava mais ou menos a mesma coisa mas era dito de pai para filho.
Merci, PN. Trocamos cromos.
EV, pasmoso, juntamente com inenarrável, era um dos mais dilectos qualificativos do João Bénard. Não conheço ninguém que os use com tanta propriedade.
Já agora e a despropósito, a primeira vez que ouvi o termo azucrinar foi na legendagem brasileira de um filme mudo, ou russo ou alemão.
Inenarrável é linda palavra. Fico com ela. Usarei, decerto, com menos propriedade, mas com igual gosto.
às vezes uso, uma e outra. Fico logo corado, como se fosse apanhado a roubar cerejas na mercearia.
Isso é bonito, Manuel Fonseca.