
Whirlwind of Lovers, William Blake
Este que ali veêm é Minos, o sinistro juiz deste lugar. Dizem-me que arranca confissões dos mortos com uma destreza muito requintada. Não sirvas a quem serviu. Não sou de intrigas mas sei bem que é, também ele, filho da luxúria. E, já que aqui estamos, da taurina bestialidade que lhe deixou em herança a cauda sinistra que gosta de enrolar em jeito de sentença. Uma vez por cada círculo em que mergulhará cada irredimível pecador. A mim, calharam-me dois. Dois e um Vento tenebroso que nunca se cala e nunca se cansa porque é o eterno castigo pela transgressão da carne, que desafia a razão, e a submete, indefesa, à sua vontade. Sua, dele, como verão. Dissoluto? Pobre de mim. O único vício que aqui alimento é uma partidinha de canasta com Semiramis e duas pombas que são da sua criação. Lascivo? Nunca tentei um avanço, um avançozito sequer, em direcção à nasalenta Cleópatra. Libertino? Pois sim. Mas a verdade é que não foi a mim que Menelau acusou de comerciar com a bela Helena que por aqui ainda a asa arrasta. Nem eu tinha arcaboiço para tão homérico desígnio. Eu, aliás, de luxúria, pouco ou nada sei. Estou inocente, alvamente inocente. E se aqui estou, a penar depois de morto, por conta de desenfreados prazeres que não tive a sorte de conhecer em vida, é porque esse pérfido Manuel S (de Alighieri) Fonseca para aqui me atirou. Condenado a cumprir o eterno castigo que deveria ser seu. Seu, digo bem, porque é bom de ver, não era minha a marota mão. Nem tão pouco conheço a coxa de tão imprudente ou tão impudente Beatrice.

















Palpita-me que a luxúria vai ficar com a cauda a arder. Nem Cleopatra, nem Helena, diz o patrono com pose clássica. Como se não lhe bastasse, bestial Minos, o cortejo de ninfas que homérico e impudente devora!
Bem sei que não é de intrigas, Pedro, mas já que se iniciou e para que não haja obscuridades, deixe-me que lhe pergunte, em que circulo é que está colocado o Manuel para que tenha ficado tão indignado com a cauda da Luxúria ao ponto de lha querer pôr a arder? Algum círculo inconfessável, já se vê?
Deve ser mesmo inconfessável nini. Já perguntei aqui por ele mas tudo o que consigo arrancar são olhares escandalizados.
Mas nesta santa casa ninguém peca?!… Vaidosos, é o que é!
António Eça, não me interprete mal. Eu peco. Em matéria de luxuria só não peco é com tanto garbo e profissionalismo como o MSF.
Pedro, belo texto. Ainda que pouco pessoal. Depois da Índia e do Alto Minho estávamos todos à espera de uma confissão, digamos, ao mesmo tempo picante e inocente…
Quanto aos pecados do Manuel, tenho um segredo. Ele confessou, lá mais em baixo, que não peca: finge que peca, o malandrão. :)
Ainda bem que gostaste, caro Gonçalo. a inocente e picante confissão fica para outra ocasião :)
Claro, o MSF. Mas isso é um caso à parte. Há quem diga mesmo que ele foi possuído (?!) pelas forças do Demo (ahhh…, que alívio)
Pedro, muito boa, como se esperava, esta Parte I, de Introdução à Luxúria.
Aguardamos ansiosos a Parte II, Luxúria, a Revelação, em que num sensacional flashback ficaremos finalmente a saber tudo o que queremos … para já …
1 — O que é que exactamente fez antes de ir aí parar, para ter logrado tal proeza? O que não fez desde que aí está não interessa assim tanto. A mãozinha (do outro) terá sido a mera cereja em cima do bolo, não?
2 — Como é que o alegada (e credivelmente) pérfido MSF o conseguiu atirar para esse estranho sítio? Ouse denunciar!
3 — Porque é que teve direito a escassos dois círculos? Parece-me um bocado pífio, para castigo …
4 — Acha que depois da confissão dele (no outro post) e desta desassombrada denúncia vai conseguir que o MSF tome o seu lugar aí? Quando?
Joana, fez lindamente em apontar esta Luxúria 101 que só pode ser, para além daquilo que é, outro pecado: o da dissimulação.
Joana, só sei que, quando dei por ela (e não me refiro à mãozinha porque essa, como sabe, não era minha e repousou em coxa alheia) a lista dos pecados já estava distribuída. O pérfido MSF destinou-me a luxúria. só ele saberá porquê. Quanto aos dois circulos, se quer que lhe diga, também me parece pífia a pena. Mas achei por bem não desvirtuar os clássicos.