Irène Némirovsky
Queridos Mortos

A família Epstein em 1940 — Denise, Irène, Elisabeth e Michel.

Issy-l’Evêque, França, 1942 — Duas crianças caminham de mãos dadas numa estrada escura, ladeada de ciprestes. Estão assustadas e têm frio. Denise, a mais crescida e determinada, carrega na sua mão livre uma pequena mala de viagem. Esta contém, para além de algumas roupas, um pequeno diário de capa de pele castanha com as iniciais IN. Era de sua mãe e fora-lhe dado pelo pai no dia anterior, quando os agentes da polícia o levaram, tal como também o já tinham feito uns meses antes com sua mãe, Irène. Caminham apressadas. Elisabeth, a mais nova, choraminga de cabeça baixa. Uns metros atrás uma mulher segue-as e observa-as com preocupação. Olhando para o fim da estrada, consegue ver já o recorte do velho e soturno convento para onde se dirigem. A sua esperança é que uma vez ali chegando, a compaixão por estas criaturas faça as religiosas vencer o medo da Gestapo e da polícia, e se prestem a recolhe-las por alguns dias.


Toulouse, 1975 – Denise Epstein sopesa o pequeno diário com grande angústia. Não tinha ousado sequer olhá-lo nos 30 anos passados desde o final da guerra. As memórias de todo esse período são ainda demasiado frescas e dolorosas. Ler as palavras da mãe, seguramente, algo de quase insuportável. No entanto enche-se de coragem. Respira fundo. Abre a primeira página e lê. Um título. “Suite Française”. Por baixo, o nome de sua mãe. Irène Némirovsky. A letra é miudinha. Quase microscópica. De alguém que poupa o papel e escreve escondido, na sombra. Para sua surpresa, não é afinal um diário. É uma história, um romance. Aliás, são dois. Senta-se sem desviar os olhos daquela primeira página e continua a ler. E lê um dia inteiro. Sem parar.

Irène Nemiróvsky, nasce em Kiev no seio de uma rica família de banqueiros judeus, que ao escapar à revolução de Outubro de 1917, se vê, uns anos mais tarde, instalada em Paris. Aí, seu pai, consegue de novo reconstruir riqueza e privilégio, e na sua adolescência, Irène estuda na Sorbonne, esquia na Suíça e passa férias na Riviera. Aos 18 anos começa a escrever. Aos 23 casa com Michel Epstein e aos 26 publicou já com grande sucesso diversos títulos, “David Golder”, “Le Bal”, “Jezebel”. Na tradição da literatura Francesa das últimas décadas, o seu estilo é moralista mas pleno de sátira e de um feroz cinismo. “David Golder” é adaptado para o cinema e devido ao seu forte tom auto-crítico, quase anti-semítico, levanta os protestos de diversas associações Hebraicas em França. Irène frequenta a elite cultural e social da cidade e rapidamente se transforma numa coqueluche literária comparada a Balzac, Flaubert e Chekhov. Afirma-se que, embora abordando temas progressistas  como o sexo, o desejo, os casamentos sem amor e a traição, o seu estilo é mais afim com o da literatura do século IX do que com o modernismo de muitos dos seus contemporâneos.

Em tudo isto porém, há algo que a aflige. Não é Francesa. É uma refugiada sem pátria. Durante os anos 30, Irène tenta várias vezes obter a cidadania Francesa. É-lhe recusada vezes sem conta. Irène percebe que os ventos na Europa estão a mudar e que o tradicional ódio aos judeus, está também em França a deixar de ser um desporto praticado por rurais e extremistas e a tornar-se numa fortíssima arma política usada à direita e a esquerda indistintamente. Converte-se ao cristianismo. Baptiza as duas filhas. Em 39 é-lhe recusada pela última vez a cidadania. Em Maio de 1940, Hitler invade a França e o Governo de Vichy adopta quase imediatamente as leis de Nuremberga. Irène escreve a Pétain. Recorre a todos os que conhece em Paris, reafirmando o seu anti-comunismo e a sua afinidade política para com os meios mais conservadores. Escreve secretamente para uma revista anti-semita aparentemente como forma de reforçar certos laços que lhe poderão vir a ser úteis. A sua vida é uma contradição. Todos, amigos e conhecidos, de uma forma ou outra a rejeitam. Os tempos são duros e a fina-flor cultural conservadora Parisiense, dá mostras de pouca solidariedade para com os que se tornaram indesejáveis.

No final de 40, Michel é despedido do banco onde trabalha, e em desespero, Irene e a sua jovem família abandonam Paris e refugiam-se na pequena aldeia de Issy-l’Evêque na região da Borgonha. São agora obrigados a usar a infame estrela amarela. Irène não baixa os braços e continua a trabalhar. É durante este período, que escreve furiosamente no seu pequeno livro de capa de pele. Planeia um grande romance. Chamar-se-á “Suite Française” e será composto por 5 novelas. “Tempête en Juin”, “Dolce”, “Captivité”, “Batailles” e “La Paix”. Na primeira relata a fuga em pânico dos parisienses perante o avanço do Exercito Alemão. Baseia-se na experiencia que acabou de viver saindo de Paris e apresenta uma corrosiva imagem do egoísmo e da incapacidade dos homens de racionalizar aquilo que a história lhes serve. Na segunda, descreve o seu novo mundo, aparentemente rural e tranquilo, perturbado apenas por uns quase invisíveis invasores, mas sob o qual um universo de desconfiança e incerteza, faz com que cada um, procure de alguma forma, representar o papel que o melhor ajude a sobreviver. Entrelaçado nesse relato, Irène canta o amor de uma mulher francesa pelo oficial Alemão que vai viver para um quarto de sua casa. Aqui, Irène consegue fazer o inimaginável – declarar, através da jovem mulher, um seu quase alter-ego, o amor incondicional aos que a querem destituir de tudo, incluindo da sua própria vida. Tudo escreve sem nunca se referir à condição em que alguns, tal como ela e por causa desses mesmos invasores, se encontram. O que escreve parece, uma vez mais, confirmar a profunda ambiguidade da sua vida.

No inicio de 1942, tendo completado as duas primeiras novelas da “Suite”, não tém ainda uma ideia precisa de como desenvolver os temas seguintes pois o que escreve é um verdadeiro relato em directo daquilo que vai observando à sua volta. Não tem tempo para o fazer. No dia 13 de Julho de 1942 é presa, sob acusação de ser uma judia Russa sem pátria e por isso passível de deportação. Não são os soldados das SS que a vêm prender, nem as gabardines da Gestapo. São os familiares e cordiais gendarmes da polícia Francesa. Quatro dias depois é transportada para Auschwitz-Birkenau com outras 928 pessoas. Passado um mês morre de tifo. Após algumas semanas, Michel, que havia escrito centenas de cartas apelando para a libertação da mulher, é também deportado e ao chegar a Auschwitz é levado directamente para as câmaras de gás. As duas filhas, Denise e Élisabeth, são ajudadas por uma amiga da família, que as esconde de refúgio em refúgio até à libertação da França no Verão de 44.

Toulouse, 1975 – Quando termina a leitura daquilo que constata agora ser o último escrito de sua mãe, Denise percebe que tem nas mãos uma verdadeira obra-prima esquecida. Nos dias que se seguem, revê todos os manuscritos, cartas e notas que tinha recuperado de casa da avó após o final da guerra. Ao ler algumas dessas notas descobre uma mãe que como tantos outros parecia não querer acreditar no pior. « Mon Dieu ! que me fait ce pays ? Puisqu’il me rejette, considérons-le froidement, regardons-le perdre son honneur et sa vie. Et les autres, que me sont-ils ? Les Empires meurent. Rien n’a d’importance. Si on le regarde du point de vue mystique ou du point de vue personnel, c’est tout un. Conservons une tête froide. Durcissons-nous le cœur. Attendons. » Quando encontra, no meio de tantas outras, uma carta, datada de 11 de Julho, dois dias antes de ser presa e dirigida a Albin Michel, Denise, não consegue conter a sua emoção. Tira os óculos e chora todas as lágrimas que tinha mantido dentro de si durante tantos anos. Num sucinto paragrafo Irène tinha escrito ao seu editor e amigo — « J’ai beaucoup écrit. Je suppose que ce seront des œuvres posthumes, mais ça fait passer le temps. »

Vasco Grilo

 

PS: Em 2004, “Suite française” foi finalmente publicado, e recebeu o prémio Renaudot a título póstumo. Vendeu milhões de cópias em todo o mundo e está traduzido em mais de 30 línguas. Tem sido posto por muitos numa prateleira onde apenas se encontra o “Diário de Anne Frank”. O que é inegável é que Irène Némirovsky escreveu não só o que se pode hoje considerar o primeiro trabalho de ficção sobre a segunda guerra mundial, como um dos mais humanos e tocantes textos jamais escritos sobre o conflito. Se não o fizeram já, leiam-no. Espero que gostem.

Comentários a “Irène Némirovsky” (7)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Vasco, que maravilha! Tocou-me profundamente a história desta espantosa mulher e a forma belíssima como no-la contaste! A Suite Française já vem a caminho e segue direitinha, não para a tal “prateleira do não esquecimento”, mas para o topo da pilha de livros que vou devorar, num merecidíssimo reading spree, assim que despache esta interminável tese!

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Sequer tinha ouvido falar de Irène Némirovsky, Vasco, merci.

    Ps: a este também o desconhecia, impressionou-me muitíssimo: http://www.assirio.com/livro.php?codigo=152007

    • Joana Vasconcelos diz:

      Eugénia, esse que linka está também na minha pilha: foi inesquecível a apresentação que dele fizeram o Pe Tolentino Mendonça e a Esther Mucznik, na Assírio & Alvim, quando do lançamento da edição traduzida para português …

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Comprei este livro na semana em que saiu e li-o fazendo apenas as obrigatórias pausas: creio que de poucas pessoas, situações, livros, se pode dizer que nos abrem um espaço psicológico, emocional, que nos modifica também no mundo físico que percebemos diferentemente e onde as nossas acções se vêem. Espero que goste muito, Joana.

  3. José Navarro de Andrade diz:

    Uma pequena história que conta toda a tragédia judaica e a debacle francesa por atacado. Brilhante.

  4. pedro marta santos diz:

    Gostei muito de conhecer Iréne pelas tuas mãos, Vasco. Obrigado.

  5. Vasco Grilo diz:

    Obrigado a todos pelos simpaticos comentários. Infelizmente esta é só uma das pequenas histórias de milhões de gigantescas tragédias individuais esquecidas no pó tempo (e nas cinzas de muitos). É importante não as esquecer, para que a terra não ignore os seus ensinamentos e os nossos descendentes também não.

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