Humildade

Um post de António Eça de Queiroz

Oh!, com que comovida humildade recebi o amável convite do Manuel. Logo senti espelhar-se em todo o meu eu a exacta perfeição do Grande Arquitecto do Universo e respectiva obra!… Comigo, espelho meu e dos outros, incluído no pacote – como é público e notório.
Não se trata de veneno, não. É vitríolo puro metido no chuveiro ao acordar, para me derreter em farândolas e fumarolas guinchantes, cheias de plástico esplendor,  e de seguida enfiar-me ralo abaixo numa pressinha de perfumado benzovaque.
Porque MSF sabe provavelmente tão bem como eu que nada sei sobre semelhante vocábulo. Nem eu nem ninguém das minhas relações. Porque é uma palavra da realidade abstracta, de significado totalmente ambíguo – como tentarei provar no decurso da minha defesa.
Einstein garantiu que Deus tinha sido forreta com ele porque só lhe tinha dado como qualidade a teimosia das mulas. Trata-se afinal de natural vaidade eloquentemente encapotada, mais nada – nunca humildade. Porque embora o genial físico tenha procurado e encontrado razões para ser humilde, apenas conseguiu esboçar levemente o gesto. Em tal nível Espinosa aproximou-se bem mais, nada dizendo de si, não aparecendo, não vencendo o Tempo em vida.
Humildade não é contrária de coisa nenhuma: não o é da vaidade, da arrogância, os tais parassinónimos do orgulho e da soberba, entre outros tantos. Nem sequer é a ausência de.
Sim, é verdade, encontramos características que definimos como sinais de humildade: o olhar cândido de certos velhotes do campo (de condição humilde, vá), ou o do esforçado arrumador (que depende em boa parte desse mesmo olhar), ou o do cão escorraçado no meio do seu sentimento real de medo triste, em tudo idêntico ao das crianças flageladas.
Trata-se de representações de condição, não dum estado de consciência tantas vezes reclamado pelo universo moral como qualidade suprema.
Na maioria dos casos não passa duma máscara.
Mas!…, realmente, os Frades Menores (frater minor, ou irmãos dos menores) equacionaram esse estado do ser há quase mil anos perseguindo um ideal crístico com rigor absolutamente inédito na sociedade e na Igreja do século. Símbolos de tão radical movimento, as personalidades dos seus irmãos mais velhos, Francisco e António – ambos nascidos em berços ricos bem cedo trocados pelo cuidar e pelo conviver com aquilo que muito indiano justo classificaria ainda hoje de intocável (afinal como intocáveis são para nós os andrajos dos mendigos mais patéticos) –, exibem um desapego terreno tal que é aceitável concluir que, esses sim, encontraram a humildade para só nela aceitarem viver. Porque a amaram, como amaram o plasma espiritual emanado do ser que os inspirou no gesto.
Não há materialistas humildes, a sua hipotética manifestação de humildade não passa de vaidade da coerência.
Humildade é coisa de santos, esses seres privados que não se vêem porque só aparecem onde não podem ser vistos. 

Comentários a “Humildade” (20)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Fantástico, António!

    Gostei muito deste magnifico texto, que tão biblicamente exalta os humildes e aos famintos mortos deste cemitério enche de bens – porque nos mostra o essencial da difícil virtude da humildade e porque nos lembra o longe que andamos dela!

    Yessss! Fui a primeira!

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Interessante, António Eça. Muito bem desmascarada, a humildade, como convém na data.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Se bem percebi, a humildade não é a coisa nem o seu avesso. Acho que percebi até muito bem: quando se a exibe, prova-se que a não temos. Quando em alguém é visível, o que vemos não é como qualidade (platónica Ideia) é como deficiência de condição (cópia ou simulacro do conceito). Único remédio: a santidade. Diz-nos isto Santo António Eça que leva meninas ao colo em Paranhos! Lindo, claro.

  4. António Eça diz:

    Obrigada!… Obrigada… (a voz é de Amália)
    Joana: foi a primeira e disse algo de muito consolador.
    Eugénia: é isso mesmo.
    Manuel, querido amigo: percebeste muitíssimo bem.

  5. Dobra diz:

    Humildade: coisa que, existindo, não se proclama. Como os que dizem: “sou muito honesto”. Hummmm, começa logo mal a coisa, a frase, a ideia, o mascarado auto-conceito. Bom texto caro amigo. Como sempre. Só não sei se a humildade de que fala é apanágio apenas de quem subiu à santidade, mas prometo que vou pensar no assunto.

  6. Belo texto, o que já não estranho.

    Penso que a humildade é apenas para iluminados. Se fôr natural e instintiva, não bajuladora nem servil, mas com personalidade e inteligência, estou certo que vira sarna para a arrogância se coçar de incómodo, e insónia para a vaidade.

  7. António Eça diz:

    Claro que não, estimada Dobra. A santidade é fornecida pelos carteiros do Tempo, um título canónico que pouco importa a quem não faz parte do clube. E eu não faço. Servi-me apenas do exemplo mais radical e, para mim, o mais belo. Obrigado pela visita.
    Alberto, meu irmão de armas!, sabes bem do que falas. Grande abraço!

  8. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Pois, meu caro António Eça, discordamos. Alguém tem de fazê-lo para sairmos deste clima politicamente correcto em que fingimos livremente viver.
    Humilde é o que sabe ser pó e terra. É o que não se eleva a si próprio para além dela, rebaixando, nesse movimento, todo os outros.
    No domínio dos absolutos, diz o António que a humildade é coisa de santos? Talvez. Mas eu diria mais: é coisa divina, mais que humana. É propriamente coisa de Deus. No domínio moral, porém, no domínio do relativo (do que vive em relação), que é o nosso, a humildade concretamente existe. Todos temos exemplos dela. Mais: aprendemo-la, praticamo-la e conhecemo-la.
    A minha discordância, assim, não tem a ver com o bem notado ponto — lógico, aliás — segundo o qual o humilde não se exalta a si mesmo enquanto tal. Isso não quer dizer, porém — e aqui está o nosso primeiro desacordo — que ele não seja humilde e muito menos que essa sua humildade não seja consciente — e enquanto tal visível.
    O segundo ponto em que discordo é o da suposta teologalidade atribuída a esta virtude. Ela é virtude moral e não de fé. Já os gregos a defendiam como tal, por contraponto àquele que consideravam ser o pior dos defeitos: a hybris, o orgulho!
    Vamos agora ver agora se o António reage combativo à discordância ou me aceita, humildemente, a opinião. :)

  9. António Eça diz:

    Caro Gonçalo, claro que aceito a sua opinião — e até concordo com muito do que diz. Só que entre o conceito moral que entrevemos e a sua prática permanente, o estado de, existe (eu vejo) uma amálgama de direcções e vontades que, representando a humildade em diversos aspectos, escorregam facilmente para a auto-comiseração — ou para uma secreta satisfação com o céu ao fundo, ou mesmo para a humilhação masoquista de certo fatalismo.
    Nada disto tem a ver com hagiologia ou com o desígnio divino.
    Os gregos também inventaram a democracia tendo por base a moral da justiça, mas nem por isso a democracia — mesmo a do tempo — inscreveu sem dúvidas e em permanência a moral da justiça.
    Sem qualquer humildade, reconhecendo apenas um facto visível, acho que somos realmente muito imperfeitos.
    Daí a importância do transcendente que atribuo à vivência da humildade como estado de espírito.
    Algo que para mim não é relativizável, talvez apenas por achá-la inatingível.
    Obrigado pelo excelente comentário.

  10. nini diz:

    Que surpresa, realmente, o Cemitério cheio de vivos!?
    António Eça, parabéns pelo texto; não deve ser fácil estar no meio desta Gente!
    Humildade sem debilidades? Só escondida e percebida através dos olhos…

  11. António Eça diz:

    É verdade, Nini. Convidaram-me e eu apareci por aqui a rabear por entre os corpos gloriosos e quase translúcidos deste belo e sereno jardim.
    Mas não há problema, ‘Beatlejuice’ não mora aqui…

  12. pedro marta santos diz:

    A humildade é uma sublime manifestação de vaidade.

  13. António e Gonçalo,
    Percebo o António quando associa a palavra humildade a uma imagem de miséria, velhice, abandono e dependência. Também foi assim que aprendi, ou que a vida me ensinou, já nem sei. Até que um dia fui acusada de não ser humilde.

    Humilde? Perguntei eu estupefacta de sobrancelha arqueada e olhar esquinado. Desprezava a noção e de facto a palavra não fazia parte do meu pensamento e assim foi ficando por mais uns tempos. Mas a pouco e pouco fui-a integrando.
    Não no sentido cabal de oposto da ambição, da vaidade, ou do orgulho, como a define mais o Gonçalo. Não que eu não sou santa, nem quero ser. Mas mais talvez como um “dar o braço a torcer” de boa vontade, que nos permite aumentar a empatia com o outro e nos dá capacidade de negociar — dar para receber — doseando os tais opostos.
    Abraço a ambos

  14. António Eça diz:

    Ora ainda bem que o Pedro Marta Santos teve a generosidade de nos mostrar a sua percepção do estado-conceito de humildade: a sua ambiguidade redonda. No meu texto não me estendi sobre a ambiguidade do vocábulo (por vezes muito útil), limitando-me a separar o que são representações circunstanciais da ideia mais profunda que vi materializada nos primeiros franciscanos.
    Tudo isto porque no âmbito da relatividade poderia atingir o extremo de dizer que mais humildes que os que a praticam são aqueles que se declaram não o ser de todo — que é aquilo que no fundo eu fiz ao escrever sobre o assunto. Ou seja, os bispos abrilhantados de dourados e pedras — que António de Lisboa e Pádua enfrentou publicamente considerando-os o pior exemplo que se poderia fornecer ao povo de Deus — poderiam defender-se com esta simples operação de retórica desonesta.
    Exacto, Alberto: experimente-se apenas dar, sem qualquer expectativa de recompensa — seja ela terrena ou nem por isso.

  15. Orcama diz:

    Apreciei a sua humilde exegese sobre a humildade, essa santa e santificada virtude… Penso, todavia, que estará um tanto já em estado… comatoso, quiçá fóssil…

  16. António Eça diz:

    Obrigado, caro Orcama. Penso o mesmo e por isso me servi de exemplos tão remotos. Contudo, não acho que fosse realmente humilde: macaqueei, apenas, q.e.d..

    • Orcama diz:

      Mas por quem é. Isso é coisa cá muito nossa, da “rapaziada”, está bem de ver. Segredo funcional, digamos. Estou a seguir os seus provectos conselhos…

  17. Foi com Freud que me habituei a pensar que uma coisa contém em si o (se calhar, melhor será dizer “um”) seu contrário. Era assim que, por exemplo, Freud falava da inteligência e da neurose.
    A ideia com que fico do que AEQ discorre neste seu “ensaio” é a de que a humildade se faz ao longo da vida, num esforço pessoal de desprendimento constante relativamente a tudo o que nos possa pôr sobranceiramente acima dos outros.
    As sociedades humanas, a partir da sua natureza animal, reclamam “machos alfas”, para que se organizem as relações e de defenda a sobrevivência do grupo. O comportamento destes machos estará, porventura (estará mesmo?…) nos antípodas dos comportamentos que denunciam a humildade.
    É… a humildade, na prática, é uma atribuição de alguém sobre alguém, é um reconhecimento. Atribuição e reconhecimento sobre alguém que pautou ou se esforçou na sua vida social por certos comportamentos, mais, se calhar, do que por certos princípios.
    Nos tempos belicosos e idealistas da minha juventude política, impressionei-me com o modo muito prático como Wilhelm Reich procurou objectivamente definir critérios para caracterizar a consciência de classe.
    Passa-me pela cabeça a vertigem de fazer o mesmo relativamente à humildade de que AEQ fala. Passam-me pela cabeça coisas como “Sei que posso estar errado”, “Há coisas e gentes que valem mais do que eu”. É o tal “olhar cândido”, que não é contrário à vaidade, mas que olha a “Vanity, oh, vanity!” sem ressentimento e sem ira, quiçá lamentando os que não conseguem passar sem ela.
    António, não concorda comigo se eu lhe disser que penso que que é a humildade que honestamente o adolescente peregrino de Guerra Junqueiro conquista no ir e vir que faz na vida?
    Bem-aventurados os que logo desde muito cedo conseguem ter em si a noção clara do que é a humildade e sobre ela tomam o fio das suas vidas!…

  18. António Eça diz:

    Caro Fernando, concordo que todas as peregrinações iniciadas muito cedo um dia atingem algo de fundamental para o próprio.
    Mas é como diz: o conflito entre objectivos quase opostos socialmente — a conquista de formas de poder ou a conquista de determinados saberes — pode trazer danos colaterais ao protagonista, que não consegue ser um impositivo alfa e um humilde ómega em simultâneo.
    Ou talvez possa, se sublimados os resultados — quem sabe?…
    Francisco e António eram simultaneamente humildes e fortes — a sua acção prova-o, o carácter não se prova tanto pelo que se faz mas mais pelo como se faz — acho eu.
    Grande abraço, Fernando, obrigado pelo seu comentário tão preciso.

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