GULA – o pecado feliz
A gula é, talvez seja, o mais apaixonado dos pecados. Reduzi-la a indigestas quantidades, a uma questão de más maneiras à mesa e na vida, é não conhecer da gula o que da gula interessa. Não sofre de falta de temperança quem vive com gula, mas de sofreguidão. A gula é, pode e deve ser, um jeito de agarrar e não deixar cair: um amor, uma profissão, os dias. Tê-los sem que a saciedade, tão cega, de os tomar a todos por certos, venha derramar o tédio em cima das horas. Ter gula é ter uma fúria contra morte, todas as mortes, saber que não se consegue dar cabo delas, e assim mesmo rosnar Dylan Thomas: rage, rage against the dying of the light. E mais. A gula, a gula como deve ser, é um pecado feminino porque trata a necessidade como a um capricho, retirando a gravidade e o peso da seriedade ao que é muito grave, pesado ou sério, ie, às coisas que são necessárias — toda a gente sabe, está mais que farta de saber, que a futilidade dá imenso trabalho. Porque isto é pouco, as mulheres felizes são sempre gulosas. E sempre um bocadinho culpadas porque sabem. O quê? Que são felizes. Saber é um jeito malicioso de permanecer inocente, porque se é grato, sem inocência nenhuma. No fundo, a gula quase perfeita, não fora o insípido Ashley e seria, é Scarlett. Sim, essa mesma de Gone with the wind.


















A gula pela pessoa amada, que pecado é? Só esta ideia dava para um belo Rubbayat.
Enfim, ironizando: a face de Gula:
http://codedvariable.com/wp-content/uploads/2009/08/SharbatGula.png
Aqueles olhos bem poderiam traduzir a gula por uma vida melhor…
Nenhum, é a virtude da paixão.
(A NG encontrou, e voltou a fazer capa com ela, muitos anos depois, a dona desses pasmosos olhos. Viu?)
Genial Eugénia, a gula é mesmo um pecado feliz…sou gulosa e feliz, sem culpa :o)
E este seu post acabou de absolver-me de qualquer pequena culpa que pudesse existir…
É, Turmalina, veja só o que a vida fez à Gula, aos trinta anos:
http://lh4.ggpht.com/_t4GDaz6m1Yw/SzBKG16gjhI/AAAAAAAAAGQ/0EFP33ohfXw/gula30%5B4%5D.jpg
Fui espreitar a fotografia que deixou para a Turmalina e já tenho a resposta à pergunta que lhe fiz.
Então…aquele possível olhar de gula tranformou-se num olhar vazio, marcado muito provavelmente pelo peso de uma cultura .
Eu sinto sempre um bocadinho de culpa. Deve ser a tal herança judaico cristã e lailailai — preferia ter herdado o baú do tesouro de um pirata ou assins.
Eugénia, que delícia!
Acaba de me confirmar aquilo de que sempre suspeitei: que a gula é, afinal, uma virtude! Porque tem tudo a ver com saber viver. Bem e feliz. E quando se é feliz, é-se tão melhor!
E com a intensa e indestrutível Scarlett, de que tanto gosto!
A Scarlett também é my kind of girl. A Melanie faz-me ânsias, dá-me nervos, tenho inveja e faz-me culpa, ie, a Melanie é tão boa que me faz pecar.
A Melanie é uma seca.
Muito well put.
E quando é que peca? Estou deserta para ler o seu pecado..é um dos meus preferidos.
(Hoje ri-me com a sua amiga Mary Poppins. Eu também tenho o maluquedo da organização, mas com brechas de amado caos: gosto de livros em todo o lado, à mão. E por aí vai. Mas pouco.)
I’m working on it! E a adorar!
Eugénia, ela é mesmo assim, vai-se lá a casa, onde há milhares de livros e estão todos, como ela diz, organizados — não meticulosamente arrumados em estantes, mas dispostos pela casa, em sítios muito bons e com uma lógica e um propósito tais que se percebe logo porque é que estão ali e uns com os outros. Apetece logo pegar neles para os trazer.
Eu sou péssima na frente organizacional. Faço óptimas listas de tarefas. Invariavelmente a requerer o triplo do tempo que tenho. Depois, claro, só cumpro parte: o que é urgente e o que me apetece. Valha-me o ser imune a qualquer remorso e o ter há muito as ditas listas no computador: assim é só ir fazendo copy and paste de uma semana para a outra…Quanto à arrumação, eu até me esforço, mas como diz a minha apiedada mãe, “arrumado não é quem muito arruma, mas quem pouco desarruma …”
Borges dizia: “Arrumar uma biblioteca é uma maneira silenciosa de exercer a arte da crítica”.
Borges, quase sempre, sabia o que dizia.
Eugénia, o “rage, rage against the dying of light” do Dylan Thomas é um dos meus gritos de guerra favoritos. Bravo.
Merci, PMS. Eu também o digo. De preferência a mim mesma.
Só de uma mente palpitante, irrequieta, e desculpe-me Eugénia, por vezes perversa, é que um pecado se transmuta em virtude. De si, outra coisa não se esperaria. Muito bom.
Se a minha santidade não estivesse mais que confirmada pela da Joana, não poderia perdoar-lhe a acusação de perversidade, nini!
Fico contente que tenha gostado, afinal o mérito da ideia é todo seu. Merci.
«A Melanie é tão boa que me faz pecar». Eugénia, acabou de enunciar um dos segredos mais bem guardados do Universo: o Tao do arbítrio. Pequemos em paz, portanto, como os albigenses, sem intromissões de cónegos e afins…
António Eça, você compreende-me.
Mas o que têm os amigos cátaros a ver com isto? Não desgosto da doutrina deles, eu, é sincrética.
Os cátaros eram, diz a Igreja, maniqueístas reciclados. Com os tempos atingiram um paleo-niilhismo (rudimentar e portanto muito radical) que, com o sincero desprezo de Deus a ajuda do Diabo (Herr S., diga-se de passagem), evoluiu para formas de desenfreado hedonismo, redondas de sensualidade e salivantes de gula e ganância.
Hoje são neo-rosacrucianos aparentemente inofensivos — uns diletantes, segundo fontes próximas do Vaticano, citadas numa ‘brebe’ on-line do Osservatore Romano.
É a chamada magia branca — logo é natural que a Eugénia não desgoste…
ps (‘brebe’ é «breve» à moda de Paranhos, bairro que muito aprecio e onde vivo)
António Eça, ainda estava sob o efeito filosófico do seu brilhante Tao do arbítrio, e zás, tinha de vir estragar tudo!
Não me leve a mal, Eugénia, você já sabe que eu adoro brincar — primeiro comigo, rigorosamente, e depois com os outros. E também sou muito sincrético — nem imagina quanto. Conhece o Yi King, o livro chinês das mutações?…
Não levaria.
Sim, mas trato-o por I Ching. Gosto.