
Perceber o que é a generosidade é perceber aquela frase que diz que é dando que se recebe, afirmação que, embora contrariando a mais vulgar aritmética, é, no entanto, inteiramente verdadeira.
A etimologia é aqui muitíssimo esclarecedora. O vocábulo latino generosus, com efeito, indica «aquele que é nobre, de boa qualidade e ascendência», e a raiz da palavra, genus, significa justamente «origem, nascimento, família, descendência, raça, povo, nação, género.» A generosidade, portanto, é da ordem do ser. Não é generoso quem dá isto ou aquilo, mas quem se dá – a si mesmo. E só quem se dá descobre quem é.
A mulher índia da fotografia acima, dando-se nobremente segundo aquilo que interiormente lhe pareceu justo e bom, descobriu-se mais mãe do que alguma vez pensara que ser mãe seria. Eis um belo exemplo de generosidade. Já o rico que dá ao pobre de tal maneira que o primeiro se mantém rico enquanto o segundo se mantém pobre não pode dizer-se generoso, porquanto os dois não se tornaram então do mesmo género. Eis a grande – e tão esquecida – razão de Marx. O seu igualmente grande e esquecido erro, no entanto, foi tomar essa tarefa nas mãos do Estado (ou, pelo menos, da política), como se o acto de dar-se, de descobrir-se, pudesse ser imposto a partir de fora, alheio à íntima esfera da amizade.
Tudo isto, porém, muito mais perfeitamente do que eu o escreveu Séneca, nas suas famosas Epistulae Morales ad Manuelium S. Fonsecam, com as quais procurou – e conseguiu – trazer aquele seu dilecto discípulo dos caminhos do epicurismo, em que se perdia, para a via mais segura do estoicismo, que depois veio a professar. Ora vejam:
«Desejaria compartilhar contigo, ó Manuel, esta súbita mudança operada em mim. Começaria então a ter uma mais segura confiança na nossa amizade que nem a esperança, ou o medo, ou a busca da utilidade, pode quebrar, uma amizade daquelas com a qual, e pela qual, os homens podem morrer. Posso citar-te muitos que, embora tendo amigos, careceram de amizade: ora tal caso não pode dar-se quando uma igual vontade de só desejar o bem liga dois espíritos em comunhão. E como não ser assim, se eles sabem que tudo é comum entre ambos e principalmente a adversidade?
Tu não podes conceber de quanta importância se reveste para mim cada dia. “Compartilha comigo tudo cuja eficácia experimentaste” – dirás tu. Eu não desejo outra coisa senão transmitir-te toda a minha experiência: aprender dá-me sobretudo prazer porque me torna apto a ensinar! E nada, por muito elevado e proveitoso que seja, alguma vez me deleitará se guardar apenas para mim o seu conhecimento. Se a sabedoria só me for concedida na condição de a guardar para mim, sem a compartilhar, então rejeitá-la-ei: nenhum bem há cuja posse não partilhada dê satisfação.
Vou, pois, enviar-te os livros que utilizei, e para não perderes tempo à procura dos passos mais úteis, eu assiná-los-ei, de modo que encontres de imediato aqueles que me merecem aprovação e respeito. (…) E não quero a tua presença apenas para que tu aproveites, mas também para que me aproveites: ambos poderemos ser muito úteis um ao outro!
Por agora, como te devo o meu pequeno presente diário, aqui tens uma máxima que hoje encontrei com prazer em Hecatão: “Queres saber o que lucrei hoje? Comecei a ser amigo de mim próprio.” Muito lucrou, deste modo nunca estará sozinho. Um tal amigo, fica sabendo, toda a gente o pode ter!»
SÉNECA, Lúcio Aneu, Cartas a Lucílio (ligeiramente adaptadas a Manuel), 6, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1991, págs. 13–14.

















A fotografia é um hino, o texto outro. Ficam bem juntos, dão-se bem juntos. A todos.
Pela parte que me toca agradeço, Gonçalo.
Obrigado, humilde António. :)
Glup…
TUDO O QUE NÃO SE DÁ…PERDE-SE
Se dás um pouco da tua disponibilidade
àqueles que vivem no desespero do abandono
Se dás um pouco da tua simplicidade
àqueles para quem a tua presença pode preencher muitos vazios
Se dás um pouco da tua alegria
àqueles que só conhecem a tristeza da solidão
NADA PERDESTE, TUDO GANHASTE
Ganhaste a maior recompensa que é a ALEGRIA DE VIVER
Madre Teresa de Calcutá
Lembro-me de uma frase dos meus tempos “missionários”: Só se dá do que não se tem!E é verdade. Quando damos do que temos, exibimos posse, quando damos do que não temos, é de nós que estamos a dar.
Aí vai. Gonçalo, um abraço do Lucílio.. I mean, manel
Minha mãe costuma dizer que a virtude está em dividir o que você tem e e não doar o que lhe sobra.
Gonçalo, gostei muito. A generosidade, por ser sempre genuína, é às vezes um tanto inesperada e desconcertante … como esta extraordinária fotografia! :)
Olá Redonda, bem vinda a este outro mundo. :)
Lucílio, quer dizer, Manuel, se bem sei ler pessoas por dentro, e muitas vezes sei, diria que os teus tempos de missionário não acabaram, ainda que aparentemente se vá transformando a missão.
Orgulhosa Joana, obrigado. A fotografia é, de facto, extraordinária. Impõe-se-nos. Desconcerta-nos. Imediatamente se rejeita e se aprova. Obriga a uma tomada de posição. Única, nossa. Torna-nos nossos, portanto, única propriedade que nos é dado ter.
PS: Também sei fazer bolds e coisas assim nos comentários. Foi o Lucifer, quer dizer, o Lucílio, isto é, o Manuel que me ensinou. Mas disse para não dizer nada às meninas V&V.
V&V, dear ladies: FALSIDADE. Gonçalo, em vez de um lança-perfume agora usas um lança-veneno!? Dear Ladies, enviarei em breve nota sobre os famosos bolds, itálicos e afins.
:) (a bold)
Generosidade, generosidade… foi proporcionarem às ínclitas e curiosas V & V a vaidade, o orgulho, a preguiça de escreverem a “Bold”, que “bold” andavam de gula, inveja, ira, ganância… :-) :o) :)…