E assim foi: no dia seguinte ele e Catarina já percorriam os escombros de Atenas à procura de um sinal que os levasse ao segredo do seu nome. Durante largos minutos, a caminhada prosseguiu ao ritmo do silêncio das suas vozes, a sua mão na mão de Catarina, nenhum dos dois se atrevendo a verbalizar as recordações que a cidade lhes trazia. Fora ali, uns anos antes, que tudo começara. Primeiro, a crise financeira mundial e as consequências devastadoras sobre a economia grega. Depois vieram os tumultos na rua, a repressão policial e dali até à violência generalizada e ao golpe de estado foi um pequeno passo. A partir daí, preferia evitar a memória da sucessão vertiginosa dos acontecimentos que levaram à debandada geral do país. Tinha consciência do privilégio de que beneficiara, o de ter para onde ir, ao contrário de tantos milhões a quem fora negada essa oportunidade. Só por isso regressara ao país que o vira nascer num momento em que ninguém se aventuraria a recomeçar a vida aí.
Mas rapidamente a esperança dera lugar ao desânimo. Não só a morte dos pais que não o eram e a descoberta de não saber quem era. Mas, também e sobretudo, a perseguição sem tréguas que lhe fora movida ao investigar as suspeitas que se avolumavam sobre as tenebrosas manobras do governo para controlar a comunicação social. E depois o internamento forçado. Se a sua identidade já sofrera um rude golpe antes do hospital, quando de lá saiu não se reconhecia em nenhum dos seus gestos. Pura e simplesmente, o corpo deixara de lhe obedecer. E a mais ténue lembrança daquilo que deixara por fazer quando o foram buscar à redacção do jornal num colete de forças provocava-lhe, sempre, aquelas insuportáveis dores de cabeça, sempre aquelas pontadas que o demoviam de qualquer resistência ao sentimento de indiferença geral que, já antes de ele ter ousado lutar pela verdade, se tinha apoderado de todos os outros.
E lá estavam elas, as dores de cabeça, outra vez. Como uma vergastada que lhe tolhia o raciocínio sempre que lhe vinha à cabeça aquilo que o mantinha vivo. E sempre aquela sensação desagradável de não saber se podia confiar em alguém. Nem mesmo em Catarina. A verdade é que não conseguia preencher os vazios de memória que reduziam o seu passado a uma manta de retalhos sem ordem aparente. E, no caos mental em que mergulhara desde que entrara no hospital, Catarina era uma das pontas soltas por explicar. Não sabia como ela entrara na sua vida, como assumira junto dos seus filhos o papel da mãe desaparecida, como se instalara nele aquele sentimento de absoluta dependência em relação a ela. Sabia, isso sim, que não podia passar sem ela, como sabia que, mesmo antes de encontrar as palavras certas para verbalizar o que sentia, ela já as tinha na ponta da língua. E vivia angustiado por não conseguir impedir que todas as suas emoções fossem filtradas até à manipulação por Catarina. Qualquer que ele fosse, todo o seu ser estava nas mãos dela. Pensava – e aí sem o mais leve sinal de dor na cabeça, o que mais reforçava a sua irritação — que o desejo intenso que nele provocavam o corpo quente e as formas perfeitas de Catarina, e aquela pele dela que era a sua também, não podia ser explicação para tudo. Nunca sentira tanto ardor, tanta febre, tanta sofreguidão como aqueles que vinham à tona quando os seus corpos se fundiam e a sua mente se distraía da obsessão que tomara conta dele e o trouxera de volta a Atenas.
Havia algo que lhe dizia que Catarina só estava ali para o controlar, para o manter no colete de forças a que há muito estava sujeito. Mas bastava um sorriso dela para o desarmar, para o dissuadir de qualquer pergunta inconveniente ou embaraçosa. E, nesse momento, convencia-se do absurdo da desconfiança que Catarina lhe inspirava.

















Fantástico, Diogo. Isto está a ficar giro. Só não percebo essa história da perseguição sem tréguas por causa da investigação sobre as manobras do governo para controlar a comunicação social. Terá alguma coisa a ver com os Norton´s, os amigos da Catarina? Será que são eles que a controlam? E para quê? E o que é que vão fazer à Índia? E daí pra o Alto Minho? E sempre incontactáveis e sem rede! É sem dúvida um caso para o Vasco G. Poirot.
It is a verrry interrresting case.
I’ll have to use many of my little grrrey cells, my dear Hastings!
Vasco, estou muito curioso em saber como vai acabar a investigação do Francisco. E o que esconde a Catarina. Será que ela tem alguma coisa a ver com as manobras do governo? E porquê Atenas? E porque desapareceu a mãe dos filhos de Francisco?
Gonçalo, não vá eu também ser recambiado para o hospital, recomenda a prudência que me socorra do chavão habitual usado na ficção: qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Mas estou certo que os Nortons terão uma palavra a dizer no deslindar do enigma…
Gostei, Diogo! Mais surpreendentes revelações. E o pobre do Francisco — o Xavier, claro, não o nosso — continua a passo de caranguejo, às voltas e voltas e sempre a andar para trás. Começo a ter pena dele. Alguém faça acontecer alguma coisa boa ao martirizado homem, por favor!
E agora, Vasco, como vai ser? Não esquecer o conselho do génial Hercule: “cherchez la femme”…
culpas da manipuladora Catarina…
Diogo, tive a esperança de que Francisco, grego como é (será?), fosse um filósofo. Saiu-nos um jornalista em colete de forças (ou para usarmos terminologia conveniente, um sofista). Não sei se o ateniense Sócrates, mesmo sabendo que nada sabe, vai gostar. Bom desafio para o Vasco.
Ah, e reparei agora que, sabendo que nada sabe, Sócrates sabe o mesmo que qualquer jornalista.
Também pode ser um Zorba…
E eis que, de uma assentada, o quotidiano fremente e o film noir dolente chegam à nossa história. Que relatório fará o Rex Stout milanês?
Adorável suspense…acho que podemos estar enganados quanto às reais intenções de Catarina. E a dúvida é sempre muito mais cruel que a verdade.
Deixem lá os Nortons fora desta trama sórdida ou a vingança de Shiva será terrível. Não se esqueçam que escrevo perto do fim e depois ficam todos nas mãos do Manuel Sádico Fonseca (que, só agora me dou conta do poder que isso lhe confere, arranjou maneira de ser o último a falar…).