Felizes cinco impossíveis

Eu gostava tanto, mas tanto..

1 de saber todas as línguas alguma vez escritas e ler tudo o que quisesse alguma vez escrito com elas, sagrado e profano, secreto e público;

2 de os ver juntos na noite em que o mundo os viu juntos pela primeira vez: one body, one soul, disse ele. E ela disse que sim, que era verdade que sim, que eram. 21 de Fevereiro de 1962. Londres;

3 de estar nos olhos do Hubble;

4 de acreditar na transmigração das almas, que o amor atravessa o tempo para existir no tempo, para poder dizer, dizendo a verdade absoluta como só a fé sabe dizer: sei que existes, tu que és para mim, tu que és comigo amor completo;

5 de ter um mestre que fosse às vezes Borges, às vezes Elytis, às vezes Hesse, às vezes Homero, às vezes Faulkner, às vezes Murasaki, às vezes Tagore, às vezes outro. E me obrigasse e não me desse descanso.

Comentários a “Felizes cinco impossíveis” (27)

  1. Orcama diz:

    Cara Eugénia de Vasconcellos,

    Misturar Tagore e Borges no mesmo texto, pode não ser muito do gosto deste último. Repare como ele se lhe referiu: “Batoteiro de boa fé. Invenção sueca. Um poeta de terceira ordem que somente se caracterizava por vestir uma túnica celeste” in revista siete dias, Junho 1986.

    E, todavia, André Gide, termina assim a introdução à sua tradução do inglês da “L’Offrande Lyrique” daquele: “Je ne crois pas connaitre, dans aucunne littérature, accent plus solennel et plus beau”.

    Vá-se lá entender os génios…

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Só ao Borges se pode perdoar tal. O Nobel, ao Tagore, só acrescentou em reconhecimento.

      (É por essas e outras como essas, que às vezes um, às vezes outros.)

  2. António Eça diz:

    Embora goste mais de Borges que de Gide — que é muito chato e previsível, por vezes — não acho que Tagore fosse um «batoteiro de boa-fé». Era indiano, com uma candura muito própria — algo que Borges dificilmente poderia apreciar (apesar da beleza da linguagem…).
    Agora os olhos do Hubble sim, isso é que eu gostava!

  3. António Eça diz:

    Eugénia: você disse tudo.

  4. Margarida diz:

    E se raia a perfeição (e até Ele terá os seus deslizes), como não ajoelhar?
    É tudo tão belo (tão intenso, tão profícuo, tão transcente) que nem as lágrimas clareiam o olhar.
    Nem turvam. Nunca turva o derrame da linfa emocional sobre as paisagens destras que nos devolve, cândida.
    Somos… pedrinhas, face a essa lapidação.
    “Eu gostava tanto, mas tanto…” de saber (d)escrever assim, d****!
    :)

  5. Pedro Norton diz:

    EV: se conseguir os olhos do Hubble deixa-me esperitar? Só uns minutinhos?

  6. Pedro Norton diz:

    queria dizer espreitar, claro.

  7. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Margarida, ai ai, superlativa! Merci.

    PN,

    os impossíveis já não são o que eram. Ora esperite:

    http://i24.photobucket.com/albums/c8/thomasn528/crab_nebula_hubble.jpg

  8. Orcama diz:

    Cara Eugénia de Vasconcellos,

    Isso de — crab qualquer coisa — não tem nada a ver com o Folhetim, ou tem?

    A possibilidade dos olhos do Hubble é manifestamente aliciante, mas não com as asas de Ícaro…

    Agora impossível, impossível que gostaria de realizar seria espreitar para lá do espaço e do tempo e conhecer a sua própria génese…

  9. Manuel S. Fonseca diz:

    Gosto de línguas secretas, tão secretas que não cabem numa só boca. E de olhos qua vagueiem por aí, de corpo em corpo.

  10. Joana Vasconcelos diz:

    EV, que lista fantástica! Gostei muito de todos os seus impossíveis, mas mesmo, mesmo do primeiro!

  11. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Estou em crer, MSF, que você tresleu! Eu é que já gastei os meus ai ai! de hoje.

    Orcama, então foi espreitar o Hubble do PN?!

    Joana, ainda bem que veio para repôr o equilíbrio… o seu estimável padrinho e nós Sabemos bem quem são rapazes, como direi, impossíveis?!

    • Orcama diz:

      Foi apenas enquanto Pedro Norton foi postar “Mandamentos por ordem, sff”, mas sossego-a, não consegui realizar a minha impossibilidade que, por isso, permanece, para mim, uma singularidade. Mas se eu o realizasse, ah, se eu o realizasse…

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Eu a tentar disfarçar, mas qual o quê, o estimado Orcama insiste no desejo de ser Deus…

        • Orcama diz:

          Cara Eugénia de Vasconcellos,

          Quando se pede, pede-se tudo. Nada menos, como pode conferir a seguir:

          Amar ou Odiar

          Amar ou odiar: ou tudo ou nada!
          O meio termo é que não pode ser.
          A alma tem que estar sobressaltada
          Para o nosso barro se sentir viver…

          Não é uma cruz a que não for pesada,
          Metade de de um prazer não é um prazer;
          E quem quiser a alma sossegada,
          Fuja do mundo e deixe-se morrer!

          Vive-se tanto mais quando se sente:
          Todo o valor está no que sofremos.
          Que nenhum homem seja indiferente!

          Amemos muito como odiamos já:
          A verdade está sempre nos extremos
          Porque é no sentimento que ela está!

          Fausto Guedes Teixeira

  12. Joana Vasconcelos diz:

    Eugénia, Eugénia, nesta fase de intensiva listagem de impossíveis sonhos e desejos (estou a citar o texto do MSF que nos colocou nesta difícil situação) eu diria que qualificar como impossíveis os aludidos rapazes me parece, no mínimo, temerário. Por potenciar toda a espécie de equívocos e mal-entendidos. E logo estes dois, que do nada invariavelmente constroem surreais enredos!

    Fiquemo-nos pelos mais prosaicos “difíceis”, “complexos”, “terríveis”, vá, e assins.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Joana, está coberta de razão. Já viu o estado em que me deixam para que me escape uma barbaridade dessas? Rapazes assins, está muito bem.

  13. Manuel S. Fonseca diz:

    Tresli lá agora! Já nos Evangelhos começaram com essa conversa e a ver se não apareceram logo as línguas todas; bruxuleantes, dizem.

  14. Joana Vasconcelos diz:

    Eugénia, eu não digo? Veja só onde é que isto já vai! E de Evangelhos (todos 4, presumo) em riste!

  15. António Eça diz:

    Babilónia, Babilónia, que persegues o teu desastre…
    Eu acho que o M (Santo) F é vagamente crente, dia sim, dia não — o que não deixa de ser uma ironia sinuosa num declarado temente de Borges.

  16. pedro marta santos diz:

    Eugénia, estava com o Hubble no indicador para iniciar a minha lista de improbabilidades e…ainda bem que lhe pôs os olhos em cima. Parece que há um novo — e mais potente — telescópio em perspectiva. Será que as lentes fotografam a Verdade?

  17. pedro marta santos diz:

    Esperarei, escrevendo em blog falsamente fúnebre de título improvável.

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