“À frente do seu tempo” é uma expressão do quotidiano.Usa-se para tudo: o armanico Mourinho, o último João Botelho (vade retro), as piores diatribes de Galliano (que é um génio, note-se). É um recurso banalizado no domínio da estética (e, pior ainda, no domínio da ética). Apurar o mais incandescente rasgo visionário é tarefa de milhões de expeditos experitadores (não aqueles que se reformaram do esperitamento, mas os que nessa tarefa se consagraram pela excelência).
Passei o último Verão a beber a França do sudoeste, e nos intervalos calhou-me o palácio papal de Avignon. Aí — aqui, já agora, na Àgora dos tempos — confirmei a beatitude da ausência de perspectiva, essa contenção temida da profundidade que marca o que é plástico e figurativo na Europa dos séculos XI a XIV. Os homens — e, mais ainda, as mulheres — desses frescos e versos não têm — literalmente — relevo, porque a tridimensionalidade os aproxima do conforto divino, e o conforto não se consente aos homens e mulheres que nascem e morrem para O servir.
Na pesquisa que fiz das representações do quotidiano medieval para um projecto impossível — Deus sabe, e Manuel Saul saentz Fonseca também — encontrei o mesmo, contido, recto, sublime aqui e ali, mas de dimensão plana. sem a hesitação do Humano. A arte medieval esconde-se dos sentimentos como um coelho da raposa que o há-de comer.
Mais assim me fez lembrar, mais assim aqui fiquei, na lembrança da imagem que Umberto Eco recordou, e que historiadores de arte, atentos, do século XIX, recuperaram: Em que ficamos, então, com a Utah que espera, ao lado de Ekkehard, na pedra bela, estela, rocinante, da Catedral de Naumburg?
Pergunto: há imagem mais à frente do seu tempo do que esta escultura, de autor anónimo (alvíssaras para quem encontrar o cabrão do desproporcionado) do que esta Uta, mulher, firme, ser, é, na última das catedrais da Germânia, de olhar fotográfico mas intangível, toda a autoridade no horizonte, a desesperança de quem lhe responda, furtiva de Preminger, mãe de Walter Scott, a vida na mão esquerda, o orgulho a direito, Deborah Kerr no véu, filha da piedade, coração de rei, ao abrigo da peste, senhora mais bela e mais confiante do mundo que quebra, ponte deitada no horizonte?
Mil anos antes, na curva tensa mas turva das improbabilidades: levar Uta, puta, parte, pista, muita, uma, para longe das árvores que ardem, onde o tempo é visto por ela, nos olhos que já sabem, tudo, seja cruz ou seja luz, a segurança que só as mulheres têm, a fibra surda que delas emana, sete séculos antes das mães-coragem?
Como é que se vê Uta em 1250? Como é que Joan Fontaine nasceu, assim, na miséria inclemente dos campos de fome? Como é que se sonha e esculpe contra todas as regras do tempo em que se vive?

















Que coisa mais extraordinária.
Pedro: presume-se que tem atestado medievo, esta senhora?… É que com mais uns arrebiques passava pela Rainha Má a fazer-se de Bela Acordada.
Grande esperitagem, sim senhor.
“À frente do seu tempo” eis a frase que define todos os portugueses.
Pedro, valendo-me das palavras do António Eça, que coisa mais extraordinária, esta escultura da Condesa Uta. Fui também esperitar, não de Hubble, mas de Google. Cheguei facilmente ao Meister von Naumberg, o ilustre e muito à frente desconhecido artista e vi mais umas esculturas dele (não tão extraordinárias). E por aí me quedei.
Esse seu projecto, que diz impossível, pelo que envolve de esperitagem (esperitação?) de arte medieval parece fascinante. Espero que o mantenha, e ao ânimo para o levar a bom porto.
Vou tentar, Joana, obrigado.