É bem pior do que isso


Caro Pedro Norton:

Desculpa parasitar o teu post, Pedro, mas precisamente porque partilho por inteiro o teu diagnóstico sobre os diagnósticos, e os pressupostos que o enformam, não consigo dar o quantum leap para a hipótese de uma luz ao fundo do túnel. Estou como o outro: só vislumbro um túnel ao fundo da luz.
Para utilizar uma imagem horrífica, portanto à altura dos tempos, tu estás como um médico que diz: “o cancro á apenas no estômago, o resto está bem.”
A questão não é meramente política como muito bem afirmas, a questão é tanto mais grave quanto é política. Porque não é só o facto de os partidos terem sido sequestrados pela patuleia das concelhias, por alguns profissionais do aparelho para quem o exercício do poder é em si mesmo o objectivo da sua prática, nem pelo pequeno (suponho) punhado de oportunistas. Tudo isto seria regenerável, como já o foi noutras ocasiões, com escasso trauma e muito acordo geral.
O problema é a total politização do aparelho de estado e o segundo passo lógico que foi dado: a estatização de uma parte tão substancial da economia e das mentalidades do país, que se tornou irremovível sem catástrofe, logo impossível de remover pela majestosa inércia que o sustenta. Inércia e legítimo medo.
Chegámos a um ponto que é sempre omitido: reformar o aparelho de estado do seu lastro, dos absurdos orgânicos, das excrescências, do despesismo, seria atirar para o desemprego uma multidão insustentável para qualquer sistema de segurança social e insuportável para qualquer sociedade que precisa de paz.
Mas para além deste “pormenor” que só por si é um formidável obstáculo, afirmas, que “não é de escassez de diagnósticos ou de remédios que morrerá o paciente”. A tua boa vontade ilude-te, Pedro. Por mais de acordo que possamos estar com as propostas apontadas pela racionalidade económica, como suponho estarmos, não podemos esquecer que elas provêm de um sector minoritário, parcial e comprometido da sociedade e da intellingentzia portuguesa. A mentalidade dominante, sobretudo na esquerda mais sonora, não se desviou um milímetro da dinâmica salazarista no que concerne à relação entre o Estado e a economia: protecionismo completo, anti-capitalismo radical no que este tem de tumulto e de “destruição criativa”, desresponsabilização individual na condução dos negócios pessoais. Ao fim do dia, em vez de risco, crescimento, e realização individual, o que todos querem é garantia eterna de sossego (mesmo que também eterno), sabendo que ele se obtém se eu entregar o meu destino nas mãos do Estado – ao menos ninguém me chateia, nem me chateio com nada…
A memória da nossa miséria atávica está demasiado próxima para ser de outra maneira. E como se sabe, um cancro no estômago propaga-se por outros orgãos, contamina o corpo todo e mata o paciente. É só uma questão de tempo.
Desesperei de qualquer possibilidade reformista com um caso sucedido durante a primeira legislatura de José Sócrates. E ia jurar que virá a ser um case study daquilo que nos aconteceu, quando no futuro nos quiserem perceber.
Imagine-se um sector de actividade da máxima importância para o país, com uma performance bastante disfuncional a necessitar de reforma profunda de modo a ser mais justo e mais eficaz, premiando o mérito e orientando-o para os resultados. Imagine-se agora as condições políticas ideais: um governo de maioria absoluta, um presidente vitorioso na primeira volta disposto a dar o seu apoio, um consenso social em torno da ideia de que é preciso haver reformas e, até, alguma disponibilidade financeira.
Qual foi o resultado? Foi a ministra Maria de Lurdes Rodrigues ter sido corrida pela porta pequena debaixo dos piores enxovalhos.
A inércia e a entropia são as forças mais persistentes do universo, e quando não há vontade de ir mudando, as coisas só mudam quando se quebram de vez.
Estamos como havemos de ir.

Comentários a “É bem pior do que isso” (2)

  1. Pedro Norton diz:

    Parasitas muito bem, caro Zé. Até porque subscrevo tudo o que dizes. Com excepção do túnel sem luz. Mas a réstia de optimismo que me anima pode bem ser simples inconsciência.

  2. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Desculpem-me a pergunta, talvez demasiado técnica e do especioso e exclusivo domínio da prática médica: mas alguém sabe onde é que está o tal paciente? É que há anos, muiiiiitos anos, que parece que ninguém o vê.

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