
O diligente Gennaro Gattuso
Tarefa ingrata esta a de escrever sobre a mais enganosa e menos desejada de todas as virtudes. Quem a tem verdadeiramente não a quer para nada e quase toma como ofensa que qualifiquem como simples produto do esforço e do trabalho aquilo que gosta de ver como resultado do talento. E como eu os percebo. Nada haverá de mais frustrante do que o uso do termo “certinho” ou “diligente” para definir as qualidades profissionais de alguém que aspira a ser reconhecido pelos seus rasgos. Num mundo em que ninguém quer ser Gattuso e todos querem parecer o Pirlo, ser relegado para a prateleira de segunda da diligência soa a rejeição. A mesma que afecta todos aqueles que recebem como recompensa dos seus diligentes (lá está a palavra) esforços de conquista amorosa o terrível veredicto do “és um bom amigo” ou “és muito querido”. Tal como aí, a seguir a um “diligente” vem sempre um “mas”. Um “mas” que condena os simplesmente diligentes à condição de cinzentões para toda a vida.
Mas há uma outra razão, e esta bem mais preocupante, para que os verdadeiramente diligentes não queiram receber esse rótulo. Está visto que a palavra se transformou num eufemismo que hipocritamente esconde pecados como a preguiça (embora esteja certo que o nosso Manuel se encarregará de demonstrar que existe preguiça, e da boa, sem ponta de hipocrisia) ou a mais pura incapacidade e incompetência. Ou uma mistura bem portuguesa de tudo isso, a “chico-espertice”. Quando vos aparecer alguém a querer ser o Gattuso da equipa, é caso para desconfiar. É melhor mesmo estarem de pé atrás não vá o Gattuso, diligentemente, tentar comprar a TVI para o Pirlo (acabando, como falso diligente que é, a assistir ao fracasso das suas diligências).
Se me perguntarem de quem é a culpa dos maus tratos que têm sido infligidos àquilo que, na pureza da virtude cristã e na etimologia latina do verbo diligere, começou por designar um nobilíssimo traço de carácter (nada mais nada menos do que amar), parece não haver dúvidas que os exemplos que vêm de cima (do poder secular) não são dignificantes. A começar pela mais solene de todas as diligências, a judicial, que, aqui por estas bandas, constitui o mais gritante exemplo de falta de diligência…

















Diogo, tirando a parte da bola, que é como se estivesse escrita em mandarim, gostei muito deste seu texto.
A mim, a diligência agrada-me. Tanto quanto me irritam a esperteza saloia e a iluminada, o improviso bacoco, as coisas feitas à pressa, à ultima hora, às três pancadas. Porque diligência significa empenho, persistência, envolvimento, concentração no objectivo (focus, dizem os ingleses) e, segundo a santa wiki, até paixão. E o contrário dela é sinónimo de falta de seriedade, de exigência e de gosto pelo que se faz. Seja lá o que for.
Dito isto, acho mal que culpe ou associe à diligência eventuais insucessos amorosos pretéritos, porventura imputáveis a distracção, imaturidade, paixão cega por outrem, incapacidade de apreciar aquilo que seria e/ou é decerto apreciável (os pormenores sabê-los-á melhor que ninguém) das destinatárias dos seus apropriadamente diligentes esforços …
Joana: claro que a diligência lhe agrada, ou não fosse vc o perfeito exemplo da virtude da diligência (muita) aliada ao talento (muito mais ainda).
Quanto às suas extrapolações provocadoras sobre os meus putativos “insucessos amorosos pretéritos”, esclareço que, nessa matéria, não usei a primeira pessoa do singular. E nunca esqueça que também o Cyrano — com o qual não ouso comparar-me, para o bem (os dotes de escrevedor) e para o mal (o nariz) — escrevia por e para outro(s)…
Também gosto muito desta virtude. Tem fôlego, força e ímpeto: é apaixonada.
Mas eu prefiro-lhe o fôlego, a força e o ímpeto do seu talento à solta pelo Gente Morta: é apaixonante.