
de Patrícia Almeida
Se me tivessem perguntado, teria votado em Patrícia Almeida. Refiro-me ao Prémio BES Photo, 2009 para algumas fontes ou 2010, para outras.
O magnífico júri escolheu três finalistas: André Cepeda, Filipa César e Patrícia Almeida. E a cada um cedeu uma bolsa para produzirem um trabalho que já está em exposição no CCB, na ala entregue ao Museu Coleção Berardo, até ao dia 4 de Abril.

Berlin Zoo, frag. de video de Filpa César
Faz tempo que sou adepto de Filipa César e gosto bastante do modo como ela utiliza o clic fotográfico para congelar o instante da indecisão ou o momento em que não acontece nada. Enquadradas segundo os preceitos clássicos, as suas fotos capturam anónimos em trânsito, lugares que parecem ter uma história para contar para além do simples facto de estarem ali. Isto assim descrito é tão genérico que cabe tudo lá dentro, mas é a brevíssima centelha de emoção, muito frágil e efémera, que as fotografias de Filipa César soltam de cada vez que olhamos para elas que dão robustez às imagens. Não digo isto por exercício especulativo: é o que me acontece sempre que reparo na foto que tenho pendurada na sala lá de casa. E, note-se, acontece-me passar por ela muitas vezes ao dia.
Mas Filipa César é uma consagrada; vive em Berlim e até já teve direito a instantâneo festivo no “Scene & Herd” da Artforum que passa por ser a “Caras” do circuito artístico planetário. Já não é deste rectângulo lusitano, pelo que não precisava de ter vencido mais esta distinção para ampliar o seu prestígio.

de Patrícia Almeida
Logo o meu voto iria mesmo para Patrícia Almeida. Primeiro, por razões pessoais que são importantes embora não venham nada ao caso. A seguir porque dos três trabalhos expostos é aquele que dá o maior passo em frente face ao que a artista já nos havia mostrado. Depois porque sendo o menos conceptual é o mais substantivo.
Chama-se “All Beauty Must Die” e é composto por um conjunto de fotografias de paisagem com gente. Ou melhor: paisagem e gente. Fui virgem para a exposição, não li nada nem falei com ninguém e o que me pareceu é que tudo acontece num daqueles festivais de música de Verão, em que as pessoas espalham o acampamento pelas matas do recinto. O que vemos, então, são jovens manifestamente urbanos prometendo comunhão com a natureza mas na realidade, se assim se pode dizer, em contraste com ela, interrompendo-a desajeitadamente. Não há ruptura, desintegração, ou qualquer outra espécie de drama social ou emocional, nem juízos morais de carácter ecologista; tudo é sereno e inconsequente, cheio das armadilhas da boa vontade.
Na exposição de Patrícia Almeida fica patente a impossibilidade de um regresso ao romantismo clássico neste século XXI. Todos os poetas, de preferência alemães, que outrora viam na floresta e nos regatos ainda intocados pelo homem um potencial de pura vitalidade, são hoje desmentidos pelo exemplo desta estirpe juvenil idealista que não consegue ser mais do que um acidente no curso da ordem natural.
Nada se troca, tudo fica como estava e nem as cabrinhas escapam à discrepância.


















As fotos da PA são “quite touching”. Parece-me que não desdenhariam, a sério ou por ironia, o princípio de Lucius Annaeus Seneca segundo o qual toda a arte é uma imitação da natureza.
Pois é, Manuel, mas o Séneca era um estóico enquanto o Lucrécio era ainda um materialista prazenteiro, que é mais ou menos como um Marx antes do império absoluto da ciência. Tinha-te já dito, uns posts abaixo, que ainda te vejo a fazer esse caminho que vai de Lucrécio a Séneca (ainda que sem alguns excessos desnecessários que o teu já longo e espiritual caminho saberá por certo evitar). Para já, no entanto, há que tirar-te desse pirrónico clã em que te encontras no qual aproveitas a ti próprio e aos outros muito menos do que podes e serás capaz de aproveitar. Ad Manuelium Fonsecam futurum discipulum eius Seneca dixit.