
Se é para ser mau, é para ser mau à séria. Não gosto de coisas a meio caminho. Assim tipo mau por fora mas com um coração de ouro lá no fundo, no fundo. Umas furiazinhas, um ataque de mau feitio, uns acessos de inveja verde ou uns espamódicos acessos de lúbrica luxúria são coisa para garotos. Garotos maus, mas garotos. Se posso escolher o original, não me fico pela cópia. Nesta coisa de vilões a que a Teresa me condenou, não faço a coisa por menos. Negro, irredimível, impuro, vingativo, cruel, pestilento, sádico, bestial. Dez chifres e sete cabeças. Em cima dos chifres dez coroas e nomes blasfemos sobre as cabeças. O meu menino mau, tremei, tremei, é mesmo uma Besta.

Já o meu lado heróico, em bom rigor, não existe. Pelo menos em heróicas doses. Mas nem por isso desexiste o herói que eu gostava de ser. Tom Doniphon. Não tanto porque fosse sua (e era, como se viu) a bala que matou the toughest man south of the Picketwire. Mas por ter sido o cowboy mais desesperadamente generoso da história de Shinbone. Talvez mesmo, de todos, o mais generoso a oeste de Pecos. Para não dizer do Oeste tout court. Porque era dele a bala, foi dele a embriagada coragem e deveria ter sido dele a fama. E a bela loira, claro. A bala e a bela. Mas para que a História se cumprisse, para que mudassem de vez os ventos de um Oeste sem Lei, sacrificou a glória e sacrificou o amor. «Hallie’s your girl now. Go back in there and take that nomination. You taught her how to read and write; now give her something to read and write about!» E ele foi, e ele fez, e ele levou-a consigo. E Doniphon ficou para trás e foi a enterrar como um simples homem bom. Nothing’s too good for the man who shot Liberty Valance.
Passa o desgosto, dizia-se no recreio do meu Liceu. Nunca percebi bem porquê. Mas é hora de passá-lo, ainda assim. Aceitas a vasconcélica maldição caro Gonçalo?

















O homem que matou o facínora é um dos meus filmes preferidos…especialmente pela frase: publique-se a lenda. Às vezes acho que a minha coragem, a minha alegria, as minhas virtuais virtudes são como o comportamento heróico de Stoddard, em algum lugar tem um Tom Doniphon me sustentando. Parabéns e obrigada pelo post…
Que coisa boa e bonita de se pensar e dizer:“em algum lugar tem um Tom Doniphon me sustentando.” É verdade.
Obrigado, eu. Acho que tem toda a razão. O Tom Doniphon é uma espécie de anjo da guarda do Oeste. O contraponto da wicked witch of the west.
Muitas e terríficas coisas nos conta de si, PN! Tanto para mal como para o mal.
(A despropósito: quando alguém diz, o diabo seja cego, surdo e mudo..)
Perdido por cem…
Pedro, gostei da tese do quanto pior, melhor. E da apocalíptica e blasfema besta.
Que é isso de passa o desgosto?
Quando passava um avião, tocávamos no amigo do lado e dizíamos «passa o desgosto». Não sei o que era mas sei que era coisa séria.
Pedro,
gostei deste herói. É dos mais difíceis de ser. Dar ao outro a glória que é sua, e o amor, quem consegue? quem pode? Eram outros os tempos que o John Ford nos legou. Seria este herói possível hoje?
Ser mau, por comparação, é muito mais simples. Mesmo o mal puro parece possível em qualquer época, não é?
Teresa, a razão por que gosto de Doniphon é, precisamente, porque é um herói «difícil de ser». Mas não é de dificuldade que se fazem todos os heróis?
Caro Pedro, não sei não, mas dizem por aí que o herói é o covarde que não teve tempo de correr…(menos o Doniphon/Wayne que, na minha fantasia, não corre nunca, talvez pra cima de mim…)
muito legal isso adorei
Obrigado Maria Julia!
pedro,vc deveria flar mais disso!!!!
nós somos interesados muitissississimo nesses assunto fale mais !!!
Pedro todo mundo dis que herói lá dentro tem sua covardia é verdade????
pelomenos eu acho que sim!
O heroismo não é a ausencia do medo.