
Preguiçoso de Carnaval e temendo ressacas de Terça gorda, antecipo-me a Quarta-feira de cinzas, recuperando divagação insensata que, escolástico, escrevi noutro lugar.
Ao criar Deus, o homem conferiu-lhe um conjunto de atributos essenciais e únicos. Elejo, entre outros, a omnipotência, a omnisciência e a omnibenevolência. Para que seja consistente a narrativa romanesca e filosófica com que os humanos Lhe cantam a biografia, os atributos divinos têm de revestir necessidade lógica e resistir ao desafio infame do paradoxo. Feito o exercício, é notório que exagerámos largamente pelo menos um dos atributos de Deus, o da sua omnipotência.
Por exemplo, Deus não pode matar-se. Cada um de nós pode, se assim o entender e for oportuno, suicidar-se. Deus não. A arbitrariedade do gesto negaria a Sua eternidade. Ao que acrescem razões morais: Deus não pode matar-se porque o pecado Lhe é interdito. Fomos aliás tão mesquinhos ao criá-Lo que, não Lhe conferindo essa autonomia, chegámos ao ponto de O diminuir autorizando-nos a prerrogativa de O matarmos nós. Um alemão, Friedrich Nietzsche, foi o seu mais patético e minucioso executor, no final do século XIX.
Mas há mais. Há outro impoder a beliscar a omnipotência divina. Deus não pode fazer que quem viva, não tenha vivido. Estaline ou Mao-Tsé-Tung, a coberto da espúria liberdade do relativismo, deleitaram-se com a manipulação do passado, apagando vidas e reescrevendo a história. É um poder reservado aos humanos. Deus está, nesse aspecto, de mãos atadas: negar existência ao que existiu seria mentir, matéria em que Deus, por lógica, metafísica e ética, é incompetente. A omnipotência divina aplicar-se-á ao presente e ao futuro (com a excepção da possibilidade de se matar), mas não se aplica ao passado.
Deus é uma possibilidade que criámos numa noite de insónia. Oferecemos-Lhe a eternidade para que Ele a viva, minuto a minuto, como um infinito pesadelo.
(Divagação melancólica e livre sobre excertos da “História Natural” de Plínio, filtrados por “Porquê Ler os Clássicos?” de Italo Calvino, e sobre os artigos “Divine Atributes” e “Paradoxs of Omnipotence” do “The Cambridge Dictionary of Philosophy”)

















Que deliciosa Preguiça de Carnaval, Manuel.
Obrigado. Os méritos são da bibliografia.
Mas não é esta a preguiça com que me comprometi a pecar de forma capital. Estou só à espera que o PN escreva a luxúria.
já lá está!
Ora aqui está uma reflexão interessante, a discutir pelos restantes convivas.
Se eu fosse do secretariado da Santa Sé diria em tribunal que o M. Satanista (não é Santanista!…) F. inverteu por completo o ónus da prova.
De qualquer maneira até Espinosa achava que Deus não criou todas as coisas. E se quisermos, este pensamento encaixa muito bem na declaração de Unamuno a propósito: «Deus é aquele que se calou desde o Princípio».
O texto é delicioso, e o suicídio de Deus dava um óptimo tema para uma aventura filosófica de alto voo: Nietzsche a tentar matá-Lo e Ele a adiantar-se-lhe, para grande desgosto do simpático Fredy…
Txi! Estas provas da não existência de Deus são demolidoras. E o diabo, Manuel, existirá mesmo?
Oi, Peter Greenway, como vai você? Espero que seja o primeiro a contribuir para o grande debate.
E agor Vítor e António, vamos lá ajustar umas contas. Não me metam nessa carruagem de incréus que vai direitinha para o Inferno. O meu post é a prova chapadinha de que Deus existe. Lá vou ter que consultar (e copiar) bibliografia para arrasar a vossa ateíce. Deviam era ter vergonha. Francamente!
Uma delícia ler esta poesia. E o mundo, seria melhor ou pior sem Deus?
Por volta de 1970 J.L.Borges produz uma série de declarações escandalosas, começando a ser insultado e até ameaçado. Nessa altura circula uma piada de raiz borgeana: Borges é uma das provas da inexistência de Deus. Porquê? Porque se Deus realmente existisse tê-lo-ia feito mudo, não cego…