20 de Fevereiro de 2010
Vi há dias uma fita chamada “Far North”. Foi dirigida há dois anos por um britânico, Asif Kapadia (n. 1972, Londres), desconfio que de origem paquistanesa, e nunca se apresentou nas salas nacionais. Não é profundamente interessante, mas tem nela um pequeno conto, originalmente escrito por Sara Maitland (n. 1950, na mesma cidade) para a compilação “Telling Tales” de 1983, que dá arrepios aos meninos crescidos.
O percurso de Maitland revela algumas curiosas particularidades, que talvez a tenham influenciado na criação desta história de ressonâncias míticas provavelmente originárias da Gronelândia: foi companheira de residência de Bill Clinton em Oxford, é uma notória feminista, passou pelo hospício (o que é sempre um atestado de sanidade) e é conhecida pela sua defesa hermenêutica do Silêncio.
Penso que a história agradará tanto a apolíneos como dionisíacos e, em resumo, trata-se da “tell tale” de Saiva, uma mulher de quarenta anos, indígena do círculo polar árctico, que vive nas regiões geladas do Estreito de Bering com a filha adoptiva, Anja, de dezanove, que resolveu proteger depois de a aldeia de ambas ter sido dizimada por soldados soviéticos (as vítimas incluíram o prometido de Saiva). Numa vida difícil, à procura de morsas e alces para caçar e comer, usando as peles como resguardo das noites cortantes, a matriarca encontra certo dia um desertor russo, gravemente ferido. Hesita, mas resolve acudi-lo. Loki, eslavo ainda viçoso,
cura-se das maleitas, e aí o temos numa tenda de 12 metros quadrados com mãe e filha, os três quentinhos no meio da planície branca, em nenhures.
Está mesmo a ver-se: Loki não só alimenta as esperanças conjugais de Saiva como as procura, mas Anja resolve meter-se no assunto, e desvia Loki para o perigo fogoso da sua juventude. Loki e Anja apaixonam-se, a mãe Saiva sofre em silêncio, mas desde que o Silêncio significa ouvir o parzinho a gemer de contentamento a dois metros de si, julga, e julga-se, que vai rebentar. Não o faz.
Quando Anja anuncia que andar a perseguir alces e a curtir-lhes o pêlo não é vida que lhe agrade por aí além e, por isso, irá partir com Loki em busca de paragens mais aliciantes, Saiva ouve serenamente. Tão serenamente que mata a filha logo que esta vira costas, arranca-lhe cuidadosamente a pele da face — na técnica e no esmero do epílogo de tantas jornadas de caça -, cobre o seu rosto com a pele de Anja, deita-se na penumbra, debaixo dos cobertores, e aguarda o regresso de Loki, o homem que ama.
Quando Loki retorna, entusiasmado pela iminente partida ao lado de Anja, despe-se na tenda uma última vez, começando a fazer amor com a nubiente — julga ele. A meio da pélvica investida, tacteando, começa a perceber que talvez Anja tenha exagerado nos cosméticos. Horrorizado, descobre o logro e escapa-se da tenda, nu, rumo ao gelo e à loucura, para não mais voltar.
É de aquecer o coração.


















É uma história de gelo. E que bem que a enquadrou, Pedro.
Obrigada por tê-la trazido para aqui. Gostei de a ler.
Está talhada à medida do cenário onde se passa.
Acho que entendo os protagonistas, não consigo julgar nenhum.
Mas já agora vou derreter um bocadinho lá para fora à chuva.
É mesmo…profundamente poético…
Mas gostei :o)
Um autor que aprecio anuncia que a beleza é o véu que esconde o horror…na minha opinião algumas vezes o inverso também é verdadeiro. Que sorte a minha poder ler esta página!
Olá Pedro. Esta história, entre outras coisas, explica bem porque é que algumas feministas devem de facto estar num hospício. :)