Um post de Turmalina
E disse Paulo:
“Se eu falar as línguas dos anjos; se tiver o dom de profecia, e penetrar todos os mistérios; se tiver toda a fé possível, a ponto de transportar montanhas, mas não tiver caridade, nada sou. Entre essas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade, a mais excelente é a caridade”. ( I Coríntios, XIII: 1–7 e 13)
“Caridade — do latim caritas (amor), de carus (caro, de alto valor, digno de apreço, de amor). Identifica-se hoje, freqüentemente, a caridade com um afeto piegas que se traduz por gestos de assistência paternalista. O termo evoca, imediatamente, a idéia de esmola, tanto que a expressão viver de caridade pública, significa viver de esmolas. “(Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo).
Encontramos aí um abismo entre as duas definições e me pergunto de que lado estou. Eu acredito que pessoas nasçam ou não caridosas, desde os tempos do homem selvagem, de Rousseau. É da natureza de cada um. Mas chamar de afeto piegas e paternalista é um pouco de exagero, embora não discorde totalmente dessa afirmação, afinal em nome de “Deus” comete-se muita caridade, numa forma discreta de despotismo.
E os cristãos pregam ainda que :
“a caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus. A caridade é «o vínculo da perfeição» e o fundamento das outras virtudes, que ela anima, inspira e ordena: sem ela «não sou nada» e «nada me aproveita» (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica.)”.
Que me perdoe a Igreja, mas vejo a Caridade como um gesto ou uma atividade laica, mesmo considerando Zilda Arns e Madre Teresa exemplos de caridade abnegada. Porque em questões que envolvem toda uma sociedade, o pensamento crítico racional me parece mais eficaz que a manifestação da fé.
O minha noção de caridade difere um pouco das definições católicas e morais. É bem mais íntima, simples e sutil. Como um professor que pacientemente abre um novo horizonte para aquele aluno tido como caso perdido.Como o vizinho que você vê toda manhã, e que mal conhece,mas que vem prestar-lhe solidariedade num momento de aperto.Como a moça que vendo uma criança passando frio na rua tira seu próprio casaco para aquecer aquele frágil e pequeno pedaço de gente, mesmo sabendo que nunca mais irá ver aquele seu casaco favorito.São inúmeros os exemplos de pessoas normais movidas por uma caridade natural.
Quando a caridade é muita eu desconfio, pois pode tratar-se de um disfarce da vaidade. Quem imaginaria prepotência maior do que ser caridoso em troca de reconhecimento? Ou mesmo um lugar garantido no céu. Seria interessante se os homens tivessem como se justificarem diante da presença divina. Já vejo, inclusive, algumas figuras ilustres com suas listinhas em papel timbrado. Homens do povo, caridosos, acima de qualquer suspeita. E podemos pensar na caridade ainda como forma de dominação, dependência e hierarquia.

Bem, acho que ficou claro como podemos transformar uma virtude num pecado, não é?
E assim eu vivo a vida, desconfiando tanto das virtudes quanto dos pecados… afinal como diria meu querido Willian: “Existem mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a sua filosofia”.

















Seja bem aparecida aqui deste lado, Turmalina! Isto sim, é uma surpresa.
Virtude ou pecado não sei, foi mesmo M Surpresa Fonseca!
E tem muita razão, temos que ter cuidado e desconfiar, caridosamente, de algumas virtudes.
E esta é muito preciosa.
Obrigada Teresa…confesso que surpreendi-me com o convite do M Querido Fonseca. Sou grata também à sempre gentil acolhida.
Estupenda a imagem das listinhas em papel timbrado. Eram assim as indulgèncias de uma vez, que na sua absoluta falta de temperança (tempegança) deram origem à Reforma e motivaram tantas guerras e tanta gente morta.….
Bem vinda Turmalina!
Olá caridosa Turmalina: bem vinda ao lado de cá.
O Manuel Fonseca, Ssssssedutor q.b., conseguiu a Suprema proeza de nos trazer a Ssssssimpática Turmalina, em pose desconfiada, como ela própria diz.
Pelas evidências fotográficas aqui postadas e mais detrás, fico convencido de que a Generosidade, bem como a Caridade, são duas Virtudes essencialmente femininas — dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede…
Confesso que sempre tive imensa dificuldade em discorrer sobre a caridade, e o que acabo de ler corporiza algumas das minhas razões para tal.
Para mim, grande Virtude seria a Solidariedade, enquanto aglutinadora do que vulgarmente se entende por generosidade e caridade.
Bem Haja cara Turmalina. Volte mais vezes. Assim! :o)
Vasco, Eugénia e Orcama…foi uma honra estar ao lado, ou acima ou abaixo, de pessoas que sabem O quê e Como dizer…confesso que às vezes me atrapalho e acabo por não me fazer entender. E escrever sobre Caridade não é assim tarefa das mais fáceis, uma vez que o que entendo por Caridade vai muito além de conceitos. Muito obrigada!!!
Como eu a compreendo, Turmalina. Logo eu, a quem M (de Mefístofles) S (de Sardanápulo) F (de Falacioso) convidou para a armadilha óbvia das difíceis Humildades… Ficarei para sempre marcado com o ferrete de mais vaidoso visitante deste eterno condomínio mais ou menos fechado.
C’est la vie…
Obrigado pela sua participação, Turmalina. E, por favor, volte sempre.
António…imagino como devem ter sido difíceis também as Humildades.
Obrigada, Pedro! Estou sempre por perto…
Turmalina, que belíssima surpresa! E que belíssimo texto!
Gostei da maneira como pegou nesta difícil virtude — difícil de analisar, por surgir tão banalizada e desviada do que nela é essencial, difícil de apreender e de pôr em prática, porque é mesmo, como afirma, das mais subtis.
Acho que acertou na mouche. A caridade é aquilo que os seus exemplos ilustram. E praticada assim só pode ser virtude. Porque faz bem ao outro. E porque faz muito bem ao próprio, trazendo ao de cima algo que existe em cada um de nós e que é profundamente humano, natural e bom … (e que às vezes se guarda lá tão dentro…)
Joana…obrigada pelo comentário e por ter lido também o que eu não escrevi :o)
Como não escreveu? Eu vi isso tudo no seu texto! Será que percebi tudo errado (como com o Orcama)? :(
Não..não..pelo contrário..acho que compreendeu-o plenamente!!!
E quando disse que você leu o que eu não escrevi foi por causa da última frase do seu comentário, eu pensei muito nesta questão, mas não escrevi :o)
:)
Parabéns pela sua Caridade, Turmalina. Lembrei-me de M.Mauss e do Dom e da Dádiva. Mais uma Virtude que é o dar sem nada esperar em troca.
Exatamente Nini, a chave da questão é o dar sem esperar nada em troca :o)
O secular e insuspeito Confúcio dizia: “Ao pobre não se dá um peixe. Ensina-se a pescar”. Eu, solidariamente, acrescentaria a dar-se, dá-se o anzol. Mais tarde o Tung, dito Mao, surripiou-lhe aquela máxima. Mas isso já é outra história.
Perfeito, Mister Orcama…muitas vezes faltam-lhe além dos ensinamentos, os instrumentos.…
E Mao apropriou-se do conceito num exercício de Caridade, aquela descrita no meu último parágrafo…rss.…