À mais de duas horas que Sandeep seguia com o olhar os esforços de um caranguejo, que, febrilmente, tentava sair de uma pequena reentrância feita na rocha pelo mar. Na sua indolência, parecia-lhe ter estado sentado naquela praia toda a sua vida. À sua volta, jovens raparigas em saris coloridos tomavam banho no meio de gritos e risinhos de excitação. Duas crianças corriam sobre o areal com um papagaio meio rasgado, enquanto um casal de europeus dormia andrajoso, enrolado numa manta, tudo sob um céu de chumbo que anunciava mais uma chuvada torrencial. Sandeep pensou em como Calangute, se transformava, durante a monção, numa praia relativamente banal e descolorida. Mas isso talvez fosse devido ao seu estado de espírito, que se podia dizer, não fosse dos melhores.
O caranguejo conseguiu finalmente libertar-se e enterrar-se rapidíssimo na areia. Sem saber porquê, Sandeep voltou a pensar em Francisco. Três semanas antes, tinha-o deixado na estação de Chidambaram num decrépito autocarro partindo em direcção a Vaitheeswaram. Francisco tinha levado com ele a roupa que tinha vestida, e uma das suas crónicas dores de cabeça. Tinham-se separado com um grande mau estar instalado entre ambos, e desde esse dia não tinha tido mais notícias de Francisco. Em Madras, (continuava a chamar-lhe assim, que se danassem os mais nacionalistas) tinham assistido ao casamento de Pria, a sua prima que vivia em Chicago e que tinha decidido vir-se casar na Índia. Tinham partido depois da festa no comboio da tarde para Chidambaram, (Catarina tinha ficado na cidade para ir fotografar as grutas de Gudiyam) e uma vez chegados, tinham-se instalado na estação, à espera do autocarro que pela manhã os levaria a Vaitheeswaram. Tinham fumado um resto de marijuana que o irmão do noivo lhes tinha oferecido em Madras e Francisco tinha ficado visivelmente mal disposto. Independentemente disso, e desde que tinha deixado Catarina umas horas antes, Francisco parecia irrequieto e mal-humorado. E fora aí, apenas umas horas antes da chegada do autocarro, e para sua surpresa, que Francisco lhe comunicara a sua intenção de continuar sozinho. “Tenho que pensar na minha vida Sandeep. Tenho que ir sozinho à procura de quem sou. Desculpa-me”. Tinha-lhe então pedido que voltasse a Madras e esperasse ali por ele com Catarina. Sandeep, para além de não sentir uma especial simpatia por Catarina, implicava profundamente com a tensão que esta parecia criar em Francisco.
Achou tudo aquilo ridículo e um típico exemplo de um misticismo pedante de que só um Europeu pode padecer. Afirmou categoricamente que não voltaria a Madras. Disse-lhe frontalmente que não compreendia como um amigo pode deixar outro no meio da estrada, pedindo-lhe que se fosse embora assim sem mais nem menos. Discutiram, como os velhos companheiros de Universidade que tinham sido tantos anos antes. Disse-lhe que se sentia uma espécie de Passepartout a acompanhar um Phileas Fogg de pacotilha. Francisco ignorou a sua ironia e pareceu-lhe indiferente e distante. Confuso e magoado, Sandeep decidiu seguir viagem de acordo com o plano inicial, que tinham traçado alguns meses antes: seguir até Fort Kochi de comboio, regressar a Bangalore e apanhar o avião para Goa onde passaria os últimos dias antes de voltar ao ponto de partida, em Mumbai. Dali, no final do mês, regressaria então definitivamente a casa, em Boston. Despediram-se com um aceno e sem uma palavra.
Agora, ali sentado na areia de uma praia de Goa, pensava no que se teria passado com Francisco durante aquela viagem. Tinha-lhe tentado telefonar inúmeras vezes sem nunca obter resposta. Tinha-se esquecido de ficar com o número de telefone de Catarina, e agora, numa espécie de remorso tardio, estava seriamente preocupado com o amigo. Nos últimos anos, Francisco não tinha tido uma vida fácil. A horrível morte da primeira mulher e o drama de se ver sozinho com dois filhos, a perda dos pais, os surreais problemas com as autoridades em Portugal e os meses que tinha passado num hospital, pareciam ter feito de Francisco, um homem muito diferente do Português despreocupado que tinha conhecido nos anos noventa, quando ambos, juntos, tinham feito uma pós-graduação em Penn State. Decidiu que uma vez chegado a Boston, teria que tentar contactar de novo Francisco, por onde quer que este andasse, e tentar perceber o que verdadeiramente se passava com ele e como seria possível ajudá-lo.
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O avião caiu pesado sobra a pista do aeroporto de Logan em Boston. Só ao sair da porta e ao entrar no terminal, Sandeep tomou consciência que tinha deixado a Índia. Um cheiro adocicado e enjoativo a pipocas e cinnamon rolls, inundava o aeroporto. Apeteceu-lhe embarcar de novo e regressar imediatamente a Mumbai, que era afinal e sempre a sua cidade. O táxi deixou-o em Harvard Square. Caminhou deprimido os duzentos metros que o separavam do edifício de tijolos vermelhos e janelas de ferro forjado, onde residia. Ao entrar em casa, atirou o saco de viagem para cima do sofá e o correio para cima da mesa da sala. Tomou um duche, sentou-se na cama e de repente sentiu-se a pessoa mais só do mundo. Adormeceu decidido a esquecer aquela viagem que tanto prometera e tanto o desiludira.
Só na manha seguinte, quando passou de novo pela sala em direcção à cozinha é que se lembrou de ouvir as mensagens gravadas no telefone de casa. A primeira, a mais recente era de Veerle, a sua namorada holandesa, que Sandeep não tinha verdadeiramente vontade de voltar a ver. A segunda era da manhã do dia anterior. Sandeep sentiu um sobressalto. Era a voz de Francisco!
Falava numa correria de palavras. Estava em Nova Iorque. Tinha deixado a Catarina. Falava de um acidente de autocarro na Índia e de ter perdido o telemóvel. Tinha encontrado um Baba chamado Nadi Jyotisha e uma biblioteca de folhas de palmeira. Tinha estado em Atenas e tinha conhecido um tal Hydranthrópous. Referia-se a ambos como verdadeiras divindades. Este último aparentemente, tinha-lhe falado de uma Catherine de Cleves, de um livro perdido por mais de 400 anos e de um símbolo escondido numa iluminura. Um símbolo que era uma tatuagem. Uma tatuagem que o perseguia para onde quer que fosse. Uma tatuagem que era o seu nome. Fez ainda uma referência desconexa a Angola, a uma carta e a uma Tia chamada Susana. Sandeep achou Francisco completamente histérico, falando como que possesso. Propunha-lhe encontrarem-se no dia seguinte, à noite, num bar chamado “Smalls” em Greenwich Village. Explicava-lhe tudo depois.
Após a preocupação contínua dos últimos dias com a sorte do amigo, a Sandeep, não restava senão voltar para o aeroporto e ir ter com Francisco a Nova Iorque. Tudo aquilo lhe parecia produto de uma mente fora do sítio. Francisco tinha-se deixado impressionar por mais um dos tantos intrujões de aldeia de que o seu país era rico. E provavelmente na Grécia, a mesma coisa. Francisco precisava dele. Antes de sair, resolveu acender o computador e verificar a morada do tal bar em Greenwich Village. Estava já para desligar o computador quando se lembrou de verificar um pormenor da mensagem de Francisco. E escreveu. Catherine de Cleves. Diante dos seus olhos, lá estava de facto uma história de um famoso Livro de Horas, perdido e encontrado, um exemplo da mais fina arte de iluminar a religião e o espírito dos homens. E de repente percebeu o que o seu amigo estava a fazer em Nova Iorque. Sandeep leu em voz alta: “Demons and Devotion: The Hours of Catherine of Cleves” January 22 through May 2, 2010 at the Morgan Library and Museum, New York City. Francisco estava ali porque era ali que estava, o que parecia ser, o objecto da sua obsessão. Provavelmente, via-o, numa segunda biblioteca de folhas de palmeira. Com as mãos trémulas imprimiu o texto. Dobrou a página, meteu-a no bolso, agarrou de novo no saco de viagem e saiu apagando a luz. Do computador, ligado sobre a mesa de trabalho, a luz terrível e assustadora de uma iluminura, banhava as paredes da sala escura.


















Fantástico, Vasco! O que eu me diverti com esta leitura! Que pormenores deliciosos. Que magnífica iluminura. Que terrível boca do inferno.
E já levou o nosso herói para a terra do Francisco.
Reparou, Francisco? Agora até pode poupar na viagem de avião :)
belo volte face.
E eu aqui na minha santa ignorância achando que seu talento era musical…este seu texto é perfeito, um filme em cores vivas! Eu amei!!!
As únicas cores que vejo são as que me fez subir ao rosto minha cara Turmalina.….
De qualquer forma um grande obrigado pelo cumprimento.
Em relação a música, já uma vez aqui tinha exposto a minha incapacidade para tocar harmónica.….
Olá Vasco,
gostei muito do personagem que criou. Veio preencher um vazio na história: este amigo estava em falta.
Obrigado Eugénia!
Agora alguém terá que voltar a agarrar nos rastos perdidos das muito misteriosas femmes fatales que ficaram para trás.….
Abriu-se um mundo sem se fechar outro. Thank you, Vasco (apeteceu-me ir à exposição).
Andei por lá uma tarde em busca do Francisco mas nada. Nem rasto. Esta semana, se eu fosse o Francisco (o nosso, o Feijó) metia uma semana de férias e ia até NY procurar o Francisco e o seu “side-kick”, o fiel Sandeep. Tenho receio que o Francisco (o nosso, o Xavier) cometa uma loucura e esteja a arquitectar um plano para se apoderar do livro, mas isto já é intromissão num plot que deixou de me pertencer ontem pelas duas da manhã…:)
Será que o futuro da história passa pelas onze iluminuras que se perderam?
Vasco, gostei tanto …
1 – da breve reaparição do caranguejo, ainda que sob forma não especificada
2 – deste teu Sandeep (já ia escrever Skindeep, deve ser por causa daquele teu post dos Stranglers e do japonês canibal ..), o bom e sensato amigo que, estou certa, tanto vai ajudar o desorientado Francisco
3– que o Francisco tenha largado a Catarina: primeiro, porque a dita, não só não parece ser flor que se cheire, como claramente não é mulher para ele, segundo, porque ao fazê-lo mostra uma lucidez que não resulta porventura tão nítida de outras passagens desta já densa narrativa
4 – do ressurgir dos misteriosos símbolo e tatuagem e do fantástico enquadramento que lhes deste
5 – do deslocar da acção para NY … tal como o PMS também eu de bom grado iria à exposição! O Skindeep, I mean, Sandeep que aproveite …
Começo a ficar seriamente preocupada com os filhos do Francisco: quem é que no meio disto tudo está a tomar conta deles, pobres crianças sem mãe? Ou será que já são crescidinhos? Alguem me tranquilize, por favor …
Eu já disse que nao sou de intrigas. Mas se fosse eu a escrever já a seguir o Sandeep iria falhar o encontro com o Francisco no Smalls. «he just left» dir-lhe ia um ébrio Mr. Cricket, um maluquinho conhecido no Village por estar a sempre a ver músicos de jazz a aparecer em cima das oliveiras.
Mas eu diria mesmo mais. Ao pobre Mr. Cricket e durante as ditas aparições, eu faria as trombetas celestiais tocar em uníssono a obra completa de Buddy «King» Bolden. Sim, esses álbums jamais registados em superfície terrena, que levam meros mortais como vossa excelência a pecar forte e feio para poderem ter o previlégio de ir parar com os costados à boca do inferno (em iluminura anexa), único local conhecido onde tamanha iguaria dos sentidos pode ser escutada sem pagar bilhete, e onde vive uma besta alada, que conhecemos já como sua amiga de aventuras e heroísmos.
PN! Não tem remorsos pela desfeita que faz a quem até teve a gentileza de trazer um desenho da porta da sua casa?!
Vasco, tanta ingratidão.. estou solidária consigo.
Eugénia, já viu que jeitosas são as duas Bimbys (modelo antigo, claro) que o PN tem nos torreões?
É verdade, Joana, o egoísmo diabólico manifesta-se até nas Bimbys, duas, e as duas a uso, veja bem o que para lá vai de convivas em queda.. Eu sempre disse que aquilo de Bimbys boa coisa não era. Lacanches, zero. Que alívio.
Vasco, ainda bem que fizeste adensar o mistério. E tenho esperanças que não tenhas liquidado a Catarina. Ainda está para nascer uma femme fatale que desapareça no meio da história…
Diogo, eu suspeito que Francisco deixou Catarina num momento de exaltação bipolar. Por razões que só tu conheces penso que este não possa viver sem ela. As dores de cabeça causadas pela sua ausencia são prova disso. Estou convencido que Catarina é um personagem que irá regressar em força. Mas penso que o mistério será apenas revelado quando a lista dos autores chegar ao fim e o nosso papa (Baba?), conseguir finalmente ligar Angola e o Malange, à carta perdida e à estranha relação que une Francisco a Catarina. Suspeito que tudo tenha começado à porta de um liceu de Luanda.
Apesar da endemoninhada preocupação em que o Manuel S.Fonseca me meteu, não quis deixar sem uma palavra esta intrigante aventura; só apetece perguntar: e depois? E depois?