Banda Sonora do Gente Morta — Edição De Luxe


“When I was checking vitals I suggested a smile. You didn´t talk for awhile, you were freezing. You said you hated my tone, it made you feel so alone, and so you told me I ought to be leaving. But something  kept me standing by that hospital bed, I should have quit, but instead I took care of you. You made me sleep and uneven, and I didn´t believe them when they told me that there was no saving you”.

Está dado o mote para a descida aos infernos que é Hospice, dos The Antlers. Um concept-album como já não se usa, todo ele dedicado aos últimos momentos no hospital de uma doente em estado terminal e aos cuidados que lhe dispensa alguém que aí trabalha (presumivelmente um enfermeiro) até à sua morte. Enquanto ela o vai odiando, porque é nele que deposita todo o ódio que o mundo lhe merece, os sentimentos que vão crescendo nele estão no extremo oposto, os de um amor que suporta o peso da culpa daquela morte anunciada tão injusta. E é um amor diferente dos outros, onde a carga sexual está ausente, ou não fosse ela, aparentemente, uma rapariga de treze anos de idade apenas, ou não estivessem — ela e ele — à espera que a morte chegasse para a levar a ela — e a ele também que, num certo sentido, também morre com a morte dela. Por isso mesmo, um amor tão puro que servirá de metáfora – pelo menos os sub-plots do álbum assim o indicam – ao nascimento, vida e morte das todas as relações amorosas, e à libertação e redenção que a morte traz.

Mas Hospice não é só, nas palavras que Peter Silberman nos canta (definitivamente um nome a fixar, ele que, ao longo de dois anos de isolamento na sua casa em Brooklin, concebeu esta obra maior, que imaginamos tenha o seu quê de autobiográfico), um álbum violento, intenso e perturbador. É tudo isso e é, sobretudo, um álbum imensamente belo e envolvente. A imagem que me ocorre é mesmo a de um álbum que nos castiga e tortura como poucos para depois nos envolver num longo abraço pleno de melancolia, como se nos pedisse desculpa por aquilo que nos deu a ouvir. Pela parte que me toca, aceito e continuarei a aceitar esse pedido de desculpas, tantas são as vezes que já o ouvi desde que ontem me chegou às mãos (via importação porque, apesar de lançado em Agosto de 2009, não foi ainda distribuído em Portugal). Com um som que balança entre momentos de recolhimento (que, nas pausas quase silenciosas, fazem lembrar os Sigur Rós, e se diriam próprios de alguém que procura recuperar do desgaste do embate da doença) e de libertação (qual grito de raiva contra o mundo, e aí, a evocar uns Arcade Fire depurados de ornamentos barrocos), Hospice é, seguramente, um dos álbuns mais fascinantes que ouvi nos últimos anos. E, provavelmente, não haverá outro que mais mereça integrar a Banda Sonora do Gente Morta.

Uma última nota deixo para os espíritos mais sensíveis: não é seguro que, depois de ouvirem Hospice, não passem a ser por ele visitados recorrentemente durante a noite, como nos alertam as palavras do seu estertor final: “But you return to me at night, just when I think I may have fallen asleep. Your face is against mine, and I´m terrified to speak”.

 



Comentários a “Banda Sonora do Gente Morta — Edição De Luxe” (6)

  1. teresa conceição diz:

    Muito obrigada por esta banda sonora, Diogo, e pelo texto que a acompanha.
    Não os conhecia. Já ouvi duas vezes e vou ouvir muitas mais.

    • Diogo Leote diz:

      Teresa, os The Antlers eram mesmo uns perfeitos desconhecidos antes de lançarem este álbum. Que, curiosamente, começou por ser uma edição de autor, em Março de 2009, com uma distribuição incipiente, para depois ser reeditado (em Agosto) pela French Kiss Records. Se ainda não o ouviu do princípio ao fim, sem interrupções, não deixe de o fazer.

  2. jaa diz:

    Este álbum encontra-se no meu cesto da Amazon há várias semanas, aguardando que ele encha. Parece-me bem que está na altura de deixar de esperar. Obrigado pelo texto.

  3. Joana Vasconcelos diz:

    Diogo, à primeira li o texto e achei tão triste que nem quis ouvir a música. Voltei uma segunda vez e reli. À terceira lá me aventurei. Gostei muito. Mas continuo a achar muito, muito triste.

    • Diogo Leote diz:

      Joana, e ainda não ouviu o resto do álbum, que é muitíssimo mais triste. Mas é uma tristeza que conforta. Não deixe de o ouvir todo.

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