Avareza


Mas que belíssimas meditações o Sporting nos continua a proporcionar.
Embora não seja adepto da reflexologia m-l não consigo deixar de ver nas peripécias do futebol o espelho onde se reflectem de modo berrante todos os sintomas em suspensão no “mundo real”.
segundo a qual o pensamento é o reflexo das condições materiais que o produz
Uma equipa como o Sporting, apesar integrar o fulgurante Liedson, demonstra uma inusitada avareza em golos porque nela se refletem os princípios profundamente avaros da sua organização. Em última instância, a filosofia mesquinha e sovina que tem norteado o Sporting mais não é do que um efeito de especularidade de alguns processos de governance que tiveram grande voga até finais de 2008.
bem sei que parece expressão de crítico de cinema dos anos 70
O Sporting tem a aura de um clube de cavalheiros. Sucede que os cavalheiros são portugueses, logo são tolos, de uma tolice acima da média nacional – um facto historicamente comprovado. Daí que in illo tempore, o que em futebol quer dizer há um punhado de anos, os senhores dirigentes tiveram a ideia sensata – na sensatez dos tolos – de aplicar ao clube os modelos de gestão que haviam aprendido nos MBAs, orientando-o para os interesses do shareholders em detrimentos dos stakeholders. Ou seja, em economês de sarrafo: o EBITDA é benéfico para as cotações, em vez de ser a bolsa a financiar a produção. Ora isto que  se vem agora suspeitar não ser bom para as empresas, revelou-se péssimo para um clube desportivo, porque foi esquecido que em futebol o EBITDA tem a forma de vitórias conquistadas naquele hectare de relva. “Não podemos estar dependentes da bola que bate na trave” disse o Presidente de então, sem declarar que passaria a estar dependente das folhas de Excel.
Os sportinguistas, nós, vinham-se satisfazendo com a parcimoniosa gestão de formiga durante estes últimos 10 anos em que terminámos as épocas com um módico de consolo e sempre à frente da cigarra benfiquista que todos os verões esbanjava jogadores às pázadas, para chegar ao fim, patéticos, a tiritar de melancolia.
Não andávamos infelizes, nós e os depositantes no Bear Stearns. Até que nos aconteceu esta débacle, a nós e aos clientes de Bernie Madoff.
Afinal os jogadores ditos mais valiosos ficavam por cá, não porque o presidente tivera força para os segurar, mas apenas porque o mercado não lhes ligou nenhuma; afinal a dívida crescia de modo hiperbólico apesar da suposta contenção de custos; afinal a célebre aposta na formação consistiu em desistir de procurar bons jogadores a preços acessíveis e expor na equipa um lote de monos sem talento nem crédito.
conten-quê? quando se ostenta um departamento de marketing com cerca de 40 funcionários e um diretor do dito com um vencimento superior ao seu equivalente bancário
O humilde Paulo Bento, na sua estreiteza tática e no seu estoicismo emocional, lá ia incutindo nos rapazes que treinava alguma abnegação, apesar das vaidades e parvoíces inerentes aos jogadores de futebol. Mas bastou uma série de jogos mais sonolentos e irresolutos do que o habitual para tudo se desmoronar.
O Sporting está a sofrer a sorte dos avarentos: quem pouco quer tudo perde.

Comentários a “Avareza” (3)

  1. António Eça diz:

    Não conhecendo os movimentos internos do SCP, reconheço pelo menos que se exibe ali um grande amadorismo dirigente. Talvez mascarado de ‘start up’ empresarial, como diz, e ainda por cima com resultados mais que duvidosos.
    Avareza de desígnios, portanto. Não consegue que o Bettencourt leia isto?…

  2. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    E o Bettencourt sabe ler?

  3. nini diz:

    José Navarro de Andrade,
    Sporting? Avareza? Desculpe, mas é mais do que “um” pecado mortal.

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